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MR. MERCEDES (2017) - SÉRIE REVIEW


Stephen King já explorou assassinos, criaturas sobrenaturais, casas mal-assombradas e os mais variados pesadelos. Em "Mr. Mercedes", o ponto de partida é bem mais próximo da realidade, e isso torna a história especialmente incômoda. Um homem pega um Mercedes roubado e avança contra uma multidão de pessoas que aguardavam por uma oportunidade de emprego. O massacre deixa várias vítimas e um caso sem solução. Para o detetive Bill Hodges, que se aposenta sem conseguir encontrar o responsável, aquilo está longe de terminar.

Lançada em 2017, a série acompanha Hodges (Brendan Gleeson), um policial aposentado que continua preso ao caso, mesmo depois de deixar a profissão. Sua rotina já não tem o propósito de antes, e a falta de respostas acaba alimentando uma obsessão que passa a ocupar boa parte de seus dias. É nesse momento que ele começa a receber provocações do homem responsável pelo massacre, conhecido como Mr. Mercedes, dando início a um jogo de perseguição entre os dois.


O assassino é Brady Hartsfield (Harry Treadaway), um sujeito que trabalha em uma loja de eletrônicos e leva uma vida aparentemente comum. A distância entre essa rotina banal e a violência que ele é capaz de cometer faz parte do desconforto da história. Brady não precisa estar escondido em algum lugar distante, cercado de mistérios. Ele está ali, vivendo entre outras pessoas, enquanto acompanha os passos de Hodges e tenta conduzir a investigação segundo as próprias regras.

A primeira temporada trabalha justamente com essa relação. De um lado, temos um policial que já deveria estar aproveitando a aposentadoria, mas não consegue abandonar um caso que considera inacabado. Do outro, um assassino que encontra prazer em provocar o homem que tenta capturá-lo. A disputa não depende apenas de descobrir quem está por trás dos crimes. Brady quer mexer com a cabeça de Hodges, e o detetive, por sua vez, precisa aprender a lidar com um adversário que não segue os limites de um confronto convencional.


 Bill Hodges contra Brady Hartsfield

Uma das melhores decisões da série está na escolha dos protagonistas. Brendan Gleeson dá a Bill Hodges um jeito cansado, por vezes rabugento, de alguém que já viu muita coisa e não conseguiu deixar o trabalho para trás. Ele não é um herói impecável, daqueles que parecem ter todas as respostas. É um homem que envelheceu, carrega frustrações e precisa encontrar um motivo para continuar se levantando todos os dias.

A investigação acaba oferecendo esse motivo, embora também alimente sua obsessão. Hodges quer solucionar o caso, mas existe algo pessoal nessa necessidade. O massacre marcou o fim de sua carreira sem uma resposta, e as provocações de Brady o obrigam a voltar a uma situação que ele nunca conseguiu superar completamente.


Harry Treadaway, por sua vez, constrói um Brady que causa desconforto justamente por não corresponder à imagem tradicional de um criminoso monstruoso. Sua aparência e sua rotina não fazem dele alguém imediatamente identificável como uma ameaça. A violência está naquilo que esconde e na maneira como manipula as pessoas ao redor. Sua relação com a mãe, Deborah Hartsfield (Kelly Lynch), acrescenta outra camada à personagem, embora isso não signifique que suas atitudes possam ser justificadas pelo ambiente familiar.

O confronto entre os dois sustenta a primeira temporada porque cada um representa um tipo diferente de obsessão. Hodges quer encerrar um caso que continua afetando sua vida, enquanto Brady deseja manter o detetive envolvido, provocando-o e tentando demonstrar que está sempre um passo à frente. A investigação se transforma em uma disputa pessoal, e o perigo aumenta justamente porque os dois deixam de lidar com o caso de maneira puramente profissional.


 Os personagens ao redor da investigação

Hodges não enfrenta tudo sozinho. Jerome Robinson (Jharrel Jerome), seu jovem vizinho, acaba se tornando um aliado importante, ajudando-o na investigação. A amizade entre os dois também tira o detetive um pouco de seu isolamento e permite que a história explore relações que vão além da perseguição ao assassino.

Janey Patterson (Mary-Louise Parker), uma viúva rica que se aproxima de Hodges, também passa a fazer parte de sua vida. Ida Silver (Holland Taylor), vizinha e amiga do detetive, oferece companhia e apoio, enquanto o antigo parceiro de Hodges, o detetive Peter Dixon (Scott Lawrence), continua ligado ao caso. Já Robert Stanton interpreta Anthony Frobisher, conhecido como Robi, gerente da loja de eletrônicos onde Brady trabalha.

Esses personagens ajudam a dar ao universo da série uma dimensão cotidiana. Hodges não existe apenas para investigar crimes, e Brady não é o único elemento capaz de interferir na vida das pessoas ao redor. Há amizades, relações familiares, interesses amorosos e conflitos que se desenvolvem paralelamente à investigação. Isso permite que o suspense tenha consequências para além da pergunta sobre a identidade do criminoso.


 Da primeira temporada em diante

A série foi desenvolvida por David E. Kelley, que também atuou como showrunner, e produzida pela Sonar Entertainment em associação com a Temple Hill Entertainment. A primeira temporada estreou na Audience Network em 9 de agosto de 2017, com dez episódios. As temporadas seguintes chegaram em 2018 e 2019, também com dez episódios cada.

A produção foi filmada principalmente na Carolina do Sul e adotou uma estética sombria, adequada à história de um policial aposentado que tenta encontrar algum sentido em sua rotina enquanto enfrenta um assassino particularmente perigoso. A fotografia e os cenários contribuem para esse ambiente, mas o que realmente sustenta a série é o trabalho dos atores e a relação estabelecida entre Hodges e Brady.


O problema é que a força desse confronto inicial não se mantém necessariamente da mesma maneira ao longo de toda a produção. A primeira temporada tem uma direção narrativa bastante clara: existe um massacre sem solução, um detetive obcecado pelo caso e um criminoso que decide provocá-lo. É uma estrutura simples de entender, e a tensão nasce da maneira como os dois se aproximam.

Nas temporadas posteriores, a história amplia seu alcance e passa a trabalhar com outros conflitos e situações. Essa mudança permite explorar novas possibilidades dentro do universo criado por King, mas também compromete a unidade que fazia o início funcionar tão bem. Em alguns momentos, o desenvolvimento parece mais complicado do que precisaria ser, e a narrativa perde parte da objetividade que sustentava o confronto entre os protagonistas.


Há também diferenças entre a série e os livros. Como acontece em muitas adaptações, algumas alterações foram necessárias para levar a história à televisão e desenvolver os personagens ao longo de vários episódios. A primeira temporada mantém a base do romance, enquanto os capítulos seguintes ampliam o material e seguem caminhos próprios. Para quem conhece os livros, essas mudanças fazem parte da experiência, embora nem todas produzam o mesmo efeito.

Outro fator que prejudicou o alcance da produção foi sua exibição original na Audience Network, um canal com disponibilidade mais limitada do que as grandes redes e plataformas de streaming. Isso dificultou que a série encontrasse um público tão amplo quanto poderia, especialmente fora dos Estados Unidos.


 Vale a pena?

"Mr. Mercedes" tem um ponto de partida forte e dois protagonistas que justificam boa parte do interesse pela série. Brendan Gleeson faz de Bill Hodges um personagem convincente, com suas limitações, suas frustrações e a dificuldade de abandonar o passado. Harry Treadaway oferece um antagonista capaz de sustentar a tensão sem precisar transformar Brady em uma figura caricata.

O maior mérito está na primeira temporada, quando a investigação e o confronto psicológico caminham juntos. O caso do Mercedes funciona como ponto de partida para uma disputa que vai além da captura de um assassino, colocando frente a frente dois homens consumidos por objetivos muito diferentes.


As temporadas seguintes têm seus próprios caminhos, mas a ampliação da trama nem sempre conserva a mesma força do começo. É uma questão importante para quem espera uma história com a mesma concentração e o mesmo ritmo do primeiro ano. A primeira temporada é de "encher os olhos", e as demais vão caindo, gradativamente, o magnetismo que me prendia à série.

Ainda assim, ela merece atenção entre as adaptações de Stephen King. Seu terror nasce de uma situação que poderia ocupar as páginas de um noticiário, e isso lhe dá uma característica diferente de muitas outras obras do autor. Aqui, o monstro não vem de outra dimensão nem precisa de poderes sobrenaturais. Ele dirige um carro, trabalha, convive com a própria família e escolhe suas vítimas. E talvez seja justamente essa proximidade com a realidade que torne a história tão desconfortável.






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