BACKROOMS: UM NÃO-LUGAR (2026) - FILM REVIEW
Quartos dos fundos.
Poucas coisas mostram tão bem a força da internet quanto sua capacidade de transformar acontecimentos banais em lendas. Às vezes não é preciso um livro, um filme ou um grande escritor para criar uma lenda. Basta uma imagem. Um corredor vazio. Uma fotografia esquecida. Um sentimento difícil de explicar. E, de repente, milhares de pessoas passam a enxergar naquele espaço algo que talvez nunca estivesse lá. Foi exatamente assim que nasceram as Backrooms.
Hoje o conceito é tão popular que muita gente acredita que ele sempre existiu. Afinal, as Backrooms já renderam jogos, vídeos, histórias colaborativas e até uma adaptação cinematográfica. Mas tudo começou de forma absurdamente simples. Em maio de 2019, um usuário anônimo publicou no fórum paranormal do 4chan uma fotografia de uma sala vazia e pediu que outras pessoas compartilhassem imagens que parecessem "estranhas". A fotografia mostrava um ambiente aparentemente comum: carpete gasto, paredes amareladas e iluminação fluorescente. À primeira vista, não havia nada de particularmente assustador naquela fotografia. Mesmo assim, ela causava estranheza.
Pouco depois, outro usuário respondeu com um texto que acabaria se tornando a fundação de todo o fenômeno. Segundo ele, se alguém saísse da realidade por engano, por meio de uma espécie de falha conhecida pelos jogadores como "noclip", acabaria preso nas Backrooms. Um lugar composto apenas pelo cheiro de carpete velho e úmido, o zumbido interminável das luzes fluorescentes e quilômetros sem fim de salas vazias. E, pior ainda, se você ouvisse algo caminhando por perto, significava que aquilo provavelmente já havia ouvido você primeiro. Bastou isso para que a ideia começasse a se espalhar.
Em poucos dias, a ideia começou a se espalhar pela internet. Usuários passaram a escrever histórias, criar teorias e imaginar o que existiria além daqueles corredores amarelos. O que inicialmente era apenas uma imagem acompanhada por um pequeno texto transformou-se em um universo inteiro construído coletivamente. Novos andares surgiram. Depois vieram os chamados "níveis", cada um com características próprias. Em seguida apareceram as entidades, criaturas misteriosas que habitariam aqueles espaços infinitos.
O mais curioso é que as Backrooms jamais tiveram uma versão definitiva. Diferentemente de franquias tradicionais, não existe um único autor determinando o que é ou não canônico. A mitologia cresceu de forma orgânica, alimentada por milhares de pessoas espalhadas pelo mundo. Enquanto alguns fãs defendiam a simplicidade da ideia original, corredores vazios e uma sensação constante de isolamento, outros expandiam o conceito para algo cada vez mais complexo. O resultado foi uma espécie de folclore digital moderno, construído coletivamente em fóruns, redes sociais, servidores de Discord e wikis colaborativas.
Parte do fascínio das Backrooms parece vir justamente da falta de respostas claras. Em muitos casos, o terror não está naquilo que vemos diretamente, mas no que imaginamos a partir disso, na dúvida, na possibilidade de existir algo além da próxima esquina. Eles não apresentam monstros logo de cara. Antes disso, oferecem algo muito mais desconfortável: a sensação de estar em um lugar familiar que, por algum motivo, parece completamente errado.
Essa sensação acabou aproximando as Backrooms de outro fenômeno da cultura digital: os chamados espaços liminares. São imagens de locais normalmente movimentados, mas inexplicavelmente vazios. Corredores de escolas sem alunos. Shoppings desertos. Escritórios abandonados. Lugares que parecem existir entre um momento e outro, como se estivessem presos fora do tempo. As Backrooms se tornaram um dos exemplos mais famosos dessa estética, justamente porque capturam com perfeição esse sentimento de familiaridade e estranheza coexistindo no mesmo espaço.
Durante anos, a origem da fotografia permaneceu um mistério. Como tantas outras imagens da internet, ela parecia ter surgido do nada. Até que, em 2024, pesquisadores e fãs dedicados conseguiram rastrear sua procedência. A famosa imagem havia sido registrada em junho de 2002, durante a reforma do segundo andar de uma antiga loja de móveis em Oshkosh, Wisconsin. O ambiente possuía divisórias falsas, carpete amarelo e iluminação fluorescente. A fotografia foi publicada em um blog da época, documentando as obras do local. Sem que ninguém imaginasse, uma simples foto de reforma acabaria dando origem a uma das lendas modernas mais influentes da internet.
Há algo curioso nessa história. O espaço que inspirou milhões de pessoas era apenas um prédio comum. Não havia criaturas escondidas. Não existiam dimensões paralelas. Nenhum portal para outra realidade. Apenas uma sala vazia. Talvez seja justamente esse o motivo de as Backrooms continuarem despertando interesse. Eles provam que o medo nem sempre nasce daquilo que está diante dos nossos olhos. Às vezes ele surge quando olhamos para uma imagem aparentemente banal e sentimos, sem saber explicar por quê, que existe algo errado ali. Muito errado.
Cada geração acaba encontrando novas formas de contar histórias. Durante décadas, o cinema foi o território dos grandes estúdios, das escolas de cinema tradicionais e dos profissionais que passavam anos tentando conquistar espaço na indústria. Hoje, porém, basta um computador, talento e uma conexão com a internet para que alguém consiga alcançar milhões de pessoas ao redor do mundo.
Kane Parsons é um dos exemplos mais impressionantes dessa transformação. Nascido em 2005, na Califórnia, Parsons cresceu cercado por influências criativas. O pai trabalhava com desenvolvimento de videogames, enquanto a mãe era terapeuta. Desde cedo, demonstrou interesse por tecnologia, arte e música. Antes mesmo de pensar em dirigir filmes, passava horas explorando ferramentas criativas em videogames como LittleBigPlanet, construindo cenários, ajustando iluminação e aprendendo intuitivamente conceitos que mais tarde utilizaria em suas produções.
A trajetória não foi muito diferente da de milhares de jovens que cresceram na internet. O que o diferenciava era o nível de dedicação ao aprendizado dessas ferramentas. Ainda adolescente, começou a estudar softwares de efeitos visuais como Adobe After Effects e, posteriormente, Blender, uma das ferramentas mais utilizadas para modelagem e animação 3D. Enquanto muitos utilizavam esses programas como hobby, Parsons os encarava como uma linguagem que precisava dominar.
Além da produção visual, a música também teve papel importante em sua formação. A música também teve papel importante em sua formação. O aprendizado de piano ainda na infância e o contato posterior com softwares de produção musical ajudaram a desenvolver outra habilidade que seria útil no futuro: a criação de atmosferas. Afinal, quem já assistiu aos seus trabalhos sabe que som e imagem caminham juntos para construir a sensação constante de desconforto que caracteriza suas produções.
Seu canal no YouTube surgiu em 2015. Como tantos outros jovens criadores da época, ele começou publicando vídeos de Minecraft, memes e experimentos diversos. Os curtas que produzia quase não recebiam atenção. Na verdade, seus vídeos mais simples costumavam atrair mais público do que os projetos nos quais investia semanas de trabalho. Ainda assim, continuou produzindo. Em vez de abandonar os filmes, preferiu exibi-los em festivais locais e outros eventos presenciais.
Foi um período importante. Antes das Backrooms, Parsons já vinha desenvolvendo projetos autorais, colaborando com outros criadores e experimentando formatos narrativos. Também produziu uma série de vídeos inspirados em Attack on Titan que chamaram atenção pela capacidade de transformar a estética do anime em algo próximo de registros históricos de guerra. O interesse por narrativas encontradas, falsas documentações e imagens aparentemente reais já estava presente.
Então chegaram as Backrooms. Como muita gente na internet, Parsons conhecia a creepypasta. Mas havia algo que o incomodava. Apesar da popularidade crescente do conceito, ele sentia que poucos conteúdos conseguiam explorar plenamente seu potencial visual. Existiam muitas histórias, muitas teorias e muitas explicações, mas pouco material que transmitisse aquela sensação específica provocada pela imagem original.
Diante disso, Parsons decidiu produzir o tipo de conteúdo que gostaria de assistir. Em janeiro de 2022, quando tinha apenas 16 anos, publicou The Backrooms (Found Footage). O curta simulava uma fita VHS encontrada anos depois dos acontecimentos registrados. Nela, um jovem cineasta acabava preso nas Backrooms e tentava encontrar uma saída enquanto era perseguido por algo que jamais compreendia completamente.
O que tornava o vídeo especial não era apenas a qualidade técnica. Era a compreensão do conceito. Parsons parecia entender intuitivamente aquilo que havia tornado as Backrooms populares. O elemento mais estranho não era a criatura em si, mas o ambiente onde tudo acontecia. Nos corredores vazios. No silêncio interrompido apenas pelo zumbido das lâmpadas fluorescentes. Na sensação de que algo estava errado muito antes de qualquer criatura aparecer em cena.
Produzido com Blender e After Effects ao longo de aproximadamente um mês, o curta rapidamente se transformou em fenômeno. Milhões de pessoas assistiram ao vídeo. Críticos elogiaram a atmosfera criada pelo jovem diretor. O que parecia apenas mais uma produção independente do YouTube acabou se tornando um dos vídeos de terror mais comentados da década.
Mas Parsons não parou ali. O curta inicialmente havia sido pensado como uma obra isolada. Entretanto, a repercussão foi tão grande que ele decidiu expandir a ideia para uma narrativa mais ampla. Aos poucos surgiram novos episódios, personagens e mistérios. Foi nesse processo que nasceu a Async, organização fictícia responsável por abrir um portal para as Backrooms durante os anos 1980. A série começou a construir uma mitologia própria, distinta daquela criada coletivamente pelos fãs ao longo dos anos.
O resultado foi extraordinário. A websérie acumulou centenas de milhões de visualizações e acabou desempenhando um papel fundamental na popularização das Backrooms para além dos círculos de fãs de creepypasta. Para muita gente, o primeiro contato com o conceito não veio do 4chan ou do Reddit, mas dos vídeos de Kane Parsons.
Backrooms - Um Não Lugar.
Talvez o aspecto mais impressionante dessa história seja a velocidade com que tudo aconteceu. Em questão de poucos anos, um adolescente que criava vídeos em seu quarto passou a participar de reuniões com grandes estúdios de Hollywood. A A24, responsável por alguns dos filmes mais comentados do cinema contemporâneo, percebeu rapidamente o potencial do projeto. O interesse cresceu até resultar naquilo que parecia improvável poucos anos antes: uma adaptação cinematográfica oficial. Quando Backrooms chegou aos cinemas em 2026, Kane Parsons tinha apenas 19 anos e se tornou o diretor mais jovem da história da A24.
O título em português brasileiro é “Um não lugar”, fazendo referência ao neologismo homônimo cunhado pelo antropólogo francês Marc Augé para se referir a espaços antropológicos de transitoriedade onde os seres humanos permanecem anônimos e que não têm significado suficiente para serem considerados como “lugares” em sua definição antropológica. Exemplos de lugares proibidos seriam rodovias, quartos de hotel, aeroportos e shopping centers. Não deixa de ser apropriado. Afinal, as Backrooms nasceram de uma fotografia esquecida em um canto da internet. Sua adaptação para o cinema surgiu das mãos de alguém que também começou em um lugar aparentemente improvável: um adolescente experimentando efeitos visuais diante da tela de um computador. Em ambos os casos, a internet transformou algo pequeno em um fenômeno impossível de ignorar.
Uma questão recorrente nas histórias de terror é se o medo vem do monstro em si ou do significado que ele carrega. Backrooms parece interessado justamente nessa resposta. Embora a divulgação tenha vendido a obra como uma adaptação de um dos fenômenos mais populares da internet, o filme não está particularmente preocupado em explicar corredores infinitos, criaturas misteriosas ou teorias sobre dimensões paralelas. Mais do que uma história sobre dimensões paralelas, o filme parece interessado em personagens que procuram um sentido de pertencimento.
O protagonista é Clark (Chiwetel Ejiofor), um arquiteto frustrado que acabou se tornando vendedor de móveis. Em meio a um divórcio, ao alcoolismo funcional e à sensação de que sua vida tomou um rumo diferente daquele que imaginava, ele descobre uma passagem para as Backrooms escondida dentro de sua própria loja. A descoberta rapidamente se transforma em obsessão. Enquanto explora aquele espaço impossível, Clark encontra algo que não consegue encontrar no mundo real: significado.
Em paralelo, o filme acompanha a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), terapeuta que tenta ajudá-lo a lidar com seus problemas. Mas, como costuma acontecer nas melhores histórias, a pessoa que oferece respostas também carrega suas próprias feridas. Desde a infância, Mary convive com lembranças traumáticas relacionadas à mãe, uma mulher que sofria de agorafobia severa e a manteve isolada do mundo durante anos. Embora tenha construído uma carreira ajudando outras pessoas, ela própria parece incapaz de se libertar completamente do passado.
É nesse momento que os temas centrais do filme começam a ficar mais claros. Os corredores infinitos funcionam menos como um cenário de terror e mais como uma manifestação física do estado emocional de seus personagens. Clark não atravessa apenas um portal para outra dimensão. Ele mergulha em um espaço onde pode se esconder de tudo aquilo que não deseja enfrentar. Nesse contexto, as Backrooms funcionam como uma forma de fuga da realidade. Um lugar onde não existem cobranças, fracassos, responsabilidades ou consequências. Apenas corredores vazios que se estendem para sempre.
Por isso, talvez a decisão mais interessante do filme seja não transformar Clark em um herói tradicional. À medida que a narrativa avança, ele se torna cada vez mais consumido por aquele universo. O homem que inicialmente parecia estar procurando respostas passa a agir como alguém que não deseja mais voltar. Essa ideia encontra sua representação mais perturbadora no chamado Pirata Clark.
Durante boa parte do filme, existe a sensação de que alguma coisa observa os personagens das sombras. Quando a criatura finalmente surge, ela assume uma forma inesperadamente simbólica. O monstro é uma versão grotesca do próprio Clark, baseada no personagem de pirata que ele interpretava nos comerciais de sua loja de móveis. Com sua perna de pau, tamanho descomunal e aparência deformada, a criatura parece saída de um pesadelo construído a partir das inseguranças do protagonista.
Mais do que um antagonista, o Pirata Clark funciona como uma materialização de tudo aquilo que Clark teme ter se tornado. Ao longo do filme, fica claro que ele enxerga sua vida profissional como uma espécie de fracasso. Em sua visão, o arquiteto que sonhava ser acabou aprisionado dentro de uma existência que nunca desejou. O pirata surge justamente dessa distorção. É uma caricatura monstruosa de sua própria identidade. Uma imagem exagerada de alguém preso para sempre a uma versão de si mesmo da qual não consegue escapar. Essa leitura dialoga diretamente com o principal tema da obra: o trauma.
Tanto Clark quanto Mary carregam marcas que moldaram suas vidas. O filme sugere que experiências traumáticas não desaparecem. Elas permanecem conosco, alterando a maneira como enxergamos o mundo e a nós mesmos. Em alguns casos, essas lembranças tornam-se tão dominantes que começam a deformar a realidade. As Backrooms parecem operar exatamente dessa forma.
Os espaços que surgem ao longo da narrativa são familiares, mas nunca corretos. Existem casas, escritórios, corredores e salas que lembram lugares reais, porém apresentam pequenas distorções. Algo está sempre fora do lugar. Como uma memória que ainda pode ser reconhecida, mas que já não corresponde completamente ao que aconteceu. Essa lógica acaba sendo aplicada também aos personagens. O Pirata Clark não é Clark. Mas também não deixa de ser. Assim como os ambientes das Backrooms são cópias imperfeitas da realidade, a criatura parece ser uma cópia imperfeita do próprio homem que a originou.
Como acontece com muitas obras focadas em atmosfera, o filme exige alguma participação do espectador. Backrooms é um filme que privilegia atmosfera em vez de respostas imediatas. Em vários momentos, o desconforto nasce justamente daquilo que permanece sem explicação. Os corredores vazios, os manequins deformados, as figuras que habitam aquele espaço e a própria dimensão das Backrooms funcionam melhor como sugestões do que como mistérios totalmente resolvidos.
Talvez por isso a adaptação preserve algo essencial da creepypasta original. O medo não vem apenas das criaturas ou dos sustos. Surge da sensação constante de deslocamento. Dá a impressão de estar em um lugar que deveria ser familiar, mas não é. No fim das contas, Backrooms não parece ser uma história sobre monstros escondidos em corredores infinitos. É uma história sobre pessoas que se perdem dentro de si mesmas. Sobre indivíduos incapazes de abandonar o passado, presos em versões distorcidas de suas próprias memórias.
E existe algo particularmente perturbador nessa ideia. O filme sugere que enfrentar uma ameaça externa pode ser difícil, mas lidar com os próprios conflitos costuma ser ainda mais desafiador.

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