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HANNIBAL (2013/2015) - SÉRIE REVIEW

 

🔷 Hannibal 1ª temporada (2013)

Na trama, Will Graham é retratado como um profiler altamente talentoso que possui uma habilidade especial de empatia, que lhe permite entender e se conectar profundamente com a mente dos assassinos. Essa empatia excessiva é muitas vezes retratada como uma faca de dois gumes, já que Will é capaz de se colocar no lugar dos assassinos de uma forma intensa, quase como se ele pudesse ver o mundo através de seus olhos.

As visões de Graham na série são uma representação visual dessas experiências sensoriais intensas aliadas com sua alta capacidade imaginativa. Elas são frequentemente mostradas como sequências vívidas e perturbadoras, onde Will é transportado para a cena do crime ou para a mente do assassino. Ele observa detalhes específicos, sente as emoções e as motivações do assassino e, muitas vezes, vivencia os eventos como se estivesse presente.

Essas visões são uma ferramenta narrativa utilizada para transmitir a habilidade única de Will de compreender a psicologia dos assassinos. Elas ajudam a criar uma conexão emocional entre Will e o público, permitindo que o espectador entre em sua mente e experimente o que ele está passando.

A primeira temporada de "Hannibal" se concentra no relacionamento entre Will Graham e Hannibal Lecter, explorando o crescente vínculo e confiança que se formam entre eles. A série mergulha nos aspectos psicológicos e emocionais desses personagens complexos, revelando camadas e motivações ocultas ao longo dos episódios.

A série apresenta uma abordagem única para os procedimentos de investigação de assassinatos em série. Will Graham possui uma habilidade especial de empatia extrema, que o permite entrar na mente dos assassinos e reconstruir os crimes em sua mente. Isso o leva a cenas visualmente impressionantes e perturbadoras que refletem a perspectiva distorcida de Will.

"Hannibal" tem estética visualmente impressionante e cinematografia artística. A série emprega uma paleta de cores escura e saturada, combinada com uma cuidadosa composição de cenas e simbolismos visuais. Essa abordagem visual intensifica a atmosfera sombria e perturbadora da narrativa.

A primeira temporada de "Hannibal" aborda temas como dualidade, moralidade, identidade e a natureza do mal. Ela utiliza simbolismos visuais (que falarei a frente), referências à arte e à literatura, além de diálogos filosóficos para explorar esses temas de maneira profunda e provocativa.

Além do desenvolvimento da relação entre Will e Hannibal, a temporada apresenta uma variedade de vilões e assassinos em série intrigantes, cada um com suas próprias peculiaridades e métodos de assassinato. Esses personagens adicionais fornecem uma rica tapeçaria de histórias e desafios para os protagonistas e para o telespectador, que tenta descobrir em qual deles Hannibal pode ter envolvimento.

Os principais assassinos apresentados ao longo dos episódios são:

Garret Jacob Hobbs, o primeiro assassino em série apresentado na série. Ele mata jovens mulheres e as exibe como troféus. Hobbs desempenha um papel importante na história inicial de Will Graham e é uma peça-chave para o desenvolvimento do relacionamento entre Will e Hannibal.

Georgia Madchen, uma paciente com síndrome de Cotard, que se torna uma assassina. Ela é conhecida por matar e mutilar suas vítimas, criando um sorriso sinistro em suas faces ao não conseguir reconhecê-las. 

Tobias Budge, um músico erudito que se revela um assassino. Ele tem uma afinidade por instrumentos musicais de cordas e usa suas habilidades musicais para criar uma série de assassinatos elaborados.

Dr. Abel Gideon, um psiquiatra que finge ser o verdadeiro Chesapeake Ripper, um notório assassino em série. Ele é conhecido por seus métodos brutais e canibalismo, o que o coloca no radar de Will Graham e Hannibal Lecter.

E por fim, Lyle Chumley, um colecionador de arte que se envolve em uma série de assassinatos para conseguir peças valiosas para sua coleção particular. Ele usa métodos criativos e grotescos para matar suas vítimas.

Culinária

Na primeira temporada, a culinária desempenha um papel significativo na narrativa. Hannibal Lecter é um gourmet refinado e habilidoso chef. Ele cria pratos elaborados e requintados. No entanto, há um elemento perturbador em suas criações, já que Hannibal utiliza carne humana em suas receitas, transformando seus crimes em verdadeiras obras de arte culinárias.

A série retrata os momentos em que Hannibal prepara suas refeições com grande cuidado e atenção aos detalhes. Essas cenas de culinária são visualmente impressionantes, com uma apresentação meticulosa dos pratos. Hannibal utiliza ingredientes raros e exóticos, combinando sabores complexos e texturas delicadas para criar experiências gastronômicas únicas.

As cenas de culinária são carregadas de simbolismos e metáforas. Os pratos que Hannibal prepara refletem os aspectos sombrios de sua personalidade e sua relação com a violência. A série utiliza a culinária como uma forma de explorar a dualidade entre o requinte e a brutalidade, o belo e o grotesco.

Os pratos elaborados também são representações simbólicas de suas vítimas e dos atos violentos que ele comete. A culinária é uma extensão da personalidade de Hannibal Lecter. Ele vê a comida como uma forma de expressão artística e uma maneira de explorar sua obsessão pela violência e pela morte.  Essa associação entre a culinária e a violência cria um contraste perturbador, reforçando a natureza sombria da série.

Simetria

Na série "Hannibal", o consultório do Dr. Hannibal Lecter é projetado com uma estética marcante, que inclui elementos de simetria, presente em vários aspectos do ambiente. Ele é retratado como um espaço elegante e sofisticado, refletindo o gosto refinado e meticuloso do personagem. A simetria é usada para criar uma sensação de equilíbrio e harmonia visual no ambiente.

Por exemplo, a disposição dos móveis, como as cadeiras e a mesa de trabalho, é frequentemente simétrica. Os objetos decorativos, como peças de arte, estatuetas e vasos, também são posicionados de forma simétrica nas prateleiras e nas mesas. Além disso, as linhas arquitetônicas do espaço, como as colunas e os arcos, muitas vezes seguem padrões simétricos.

Essa simetria presente no consultório de Hannibal Lecter pode ser interpretada de várias maneiras. Simetria é frequentemente associada a ordem, equilíbrio e perfeição estética. No caso de Hannibal, a simetria pode representar também seu desejo de controlar e manter um ambiente meticulosamente organizado e estruturado.

Além disso, a simetria pode ser vista como uma metáfora visual para a dualidade presente na natureza do personagem Hannibal Lecter. Ele é um psiquiatra respeitado e sofisticado, mas também é um assassino canibal. A simetria em seu consultório pode refletir essa dualidade, mostrando a coexistência de ordem e caos, beleza e horror.

Veredito

Will Graham, ao longo da temporada, vai lutando com sua saúde mental, atormentado por visões e alucinações. Ele começa gradualmente a suspeitar que Hannibal pode estar envolvido nos assassinatos que eles estão investigando. No entanto, as evidências são escassas e Will luta para provar sua teoria. E como era esperado, Lecter, percebendo que Will está chegando perto da verdade, começa a trabalhar de maneira que incrimine Graham. O final estabelece o palco para os eventos surpreendentes que se desenrolarão na temporada seguinte.

🔷 Hannibal 2ª temporada (2014)

"Expetativa feliz de sentir desprezo".

A trama da segunda temporada de Hannibal flerta com algo maior, quando se permite mudar de rumo. Ela subverte seus elementos principais, mantendo a trama em um mundo onde tudo é igual, mas com os personagens executando, aparentemente, funções diferentes.

É uma temporada que encara a subjetividade como força motriz. A subjetividade é um conceito central na psicologia e refere-se à experiência única de cada pessoa em relação ao mundo, aos outros e a si mesma. Ela reconhece que cada indivíduo tem sua própria perspectiva, sentimentos, pensamentos e interpretações, influenciados por fatores como valores, crenças, experiências de vida e contexto cultural.

A subjetividade desafia a ideia de que existe uma única realidade objetiva e universalmente válida. Em vez disso, a psicologia reconhece que a percepção e a interpretação da realidade são moldadas pela subjetividade individual. Isso significa que duas pessoas podem ter experiências diferentes diante da mesma situação ou estímulo. E a segunda temporada é calcada nesta perspectiva. 

Wendigo e a simbologia

Will Graham confronta uma série de visões e alucinações, enquanto está sob a influência de Hannibal Lecter. Ele é atormentado por sua conexão com Hannibal e sua própria luta interna. Durante essas visões, Lecter é retratado como um Wendigo, uma criatura antropofágica e monstruosa.

A representação do Wendigo na segunda temporada de "Hannibal" é simbólica e metafórica, destacando a transformação sombria e a natureza canibalística que Will Graham experimenta ao longo da história. O Wendigo é usado para ilustrar a corrupção e a perda da humanidade, mostrando o lado mais sombrio e primal dos personagens.

Hannibal Lecter, como personagem, compartilha algumas semelhanças com o Wendigo. Ele é um canibal e um serial killer notório, conhecido por sua sofisticação, inteligência e manipulação. Assim como o Wendigo, Hannibal é retratado como alguém que se alimenta de carne humana, mas também é consumido por uma fome e um desejo insaciáveis.

É importante observar que a representação do Wendigo na série é uma interpretação artística e não uma representação precisa do folclore nativo americano. A série usa elementos do folclore e da mitologia para criar uma atmosfera e narrativa envolventes, mas nem sempre reflete fielmente as crenças e histórias das culturas indígenas.

Animais e a simbologia

Na série, alguns animais tendem a ganhar força como representações da personalidade ou das mudanças de um personagem. O veado, por exemplo, é um animal associado a Will Graham. Ele simboliza a sensibilidade, a empatia e a vulnerabilidade de Will. Através desse simbolismo, a série explora a conexão de Will com os assassinos e sua capacidade de se colocar na mente dos outros.

O abutre é associado a Mason Verger, um personagem rico e sádico. O abutre representa a natureza predatória e oportunista de Mason, que busca se alimentar dos outros e explorar suas fraquezas.

Já a abelha é associada a Margot Verger, irmã de Mason Verger. As abelhas simbolizam a fertilidade e a criação de vida, o que refletem a história de Margot e seu desejo de escapar do controle e do abuso de seu irmão.

E o cordeiro, Abigail Hobbs, uma jovem que tem um papel significativo na primeira temporada. O cordeiro simboliza a inocência e a vulnerabilidade de Abigail, contrastando com a violência e a escuridão que a cercam.

Will Lecter e a Simbiose 

Há uma cena, particularmente interessante, onde Will renasce como um Wendigo para logo depois, em outra cena, ladeado do personagem que ele matou na primeira temporada, atirar em um veado. Estas ideias encadeadas mostram a morte do Will como conhecemos. A série mostra, gradativamente, a simbiose entre ele e Hannibal, algo que, acompanhamos de maneira literal, com Hannibal investigando crimes e Graham, preso.

O termo simbiose é usado para referir-se a uma associação íntima estabelecida entre seres de espécies diferentes (aqui, Veado e Wendigo). Muitos autores utilizam o termo simbiose para se referir apenas a relações onde há benefício mútuo, o que é errado, já que o mutualismo e o parasitismo são tipos de relações simbióticas.

O parasitismo é uma relação interespecífica em que um dos envolvidos é prejudicado. Nessa interação, um organismo (parasita) instala-se em outro (hospedeiro) visando alimentar-se dele.

Hannibal é um parasita. Ele demonstra isto ao logo de toda série, mas com Graham, ele se comporta diferente. Ele induz Will a uma relação de autoconhecimento e este embarca em uma jornada sem volta. Como diz a frase de Andrew Kevin Walker: "Quando você dança com o diabo, você não muda o diabo, porém o diabo muda você".

E o genial desta temporada é nos confundir em cima do óbvio: quem seria o diabo? Lecter ou Will? Nunca ouve uma resposta tão simples. Mas de maneira perspicaz, faz como Lecter.


🔷 Hannibal 3ª temporada (2015)

É triste constatar, mas Hannibal como um todo, é mais artística do que funcional. A primeira temporada, traduz a perfeição e sinergia entre estas duas características. Na segunda temporada, o lado artístico vai ganhando força e não o perde até o episódio 8 da terceira, quando o Dragão Vermelho entra em cena. 

A partir deste episódio, conhecemos Francis Dolarhyde (Richard Armitage, conhecido do público pelo papel de Thorin na trilogia Hobbit). Usar um salto temporal de três anos acaba dividindo a série em duas partes bem definidas, e de certa forma, satisfatórias, porque a série recomeça do ponto que nem deveria ter saído: trazendo Will à equipe, e colocando novamente, de uma certa forma, Hannibal e Will do mesmo lado investigativo. 


A terceira temporada continua explorando a relação complexa entre o famoso psiquiatra Hannibal Lecter e o agente especial do FBI Will Graham. Ela segue uma narrativa mais fragmentada e experimental, com fortes influências do romance "Hannibal" de Thomas Harris.

A temporada começa com Hannibal Lecter e o Dr. Bedelia Du Maurier (interpretada por Gillian Anderson) vivendo na Europa, sob identidades falsas. O cenário muda significativamente, trazendo uma atmosfera mais europeia e uma estética visual única e bastante similar ao filme de Ridley Scott lançado em 2001.

Este terceiro ato explora mais a fundo os personagens secundários, como o detetive da Scotland Yard, Inspetor Pazzi (interpretado por Fortunato Cerlino), e a psiquiatra Alana Bloom (interpretada por Caroline Dhavernas), que passa por uma transformação significativa, até em suas roupas. Para tanto, a direção de arte atua de maneira marcante, fazendo o uso simbólico de cores e imagens evocativas, contribuindo para a atmosfera sombria e perturbadora.

E como era de se esperar, a série contínua a questionar a noção de identidade, especialmente no que diz respeito a Hannibal Lecter e Will Graham. Ambos os personagens têm uma relação simbiótica e estão constantemente moldando e sendo moldados pelos eventos e pelas interações um com o outro.

A dualidade é também um tema recorrente. A série discute até que ponto o lado sombrio de uma pessoa pode influenciá-la e como isso se relaciona com a própria humanidade; o que leva a história a examinar a natureza da obsessão e do desejo, tanto em termos românticos quanto em termos de busca por poder e controle. Os personagens de Hannibal e Will são impulsionados por um desejo mútuo e uma atração mórbida, que se manifestam de maneiras complexas e perturbadoras.

Vários personagens na terceira temporada passam por transformações significativas. Eles são confrontados com seus lados sombrios e têm a oportunidade de buscar redenção ou se entregar completamente à sua natureza monstruosa. A série examina a possibilidade de mudança e transformação, questionando se alguém pode realmente escapar de sua própria natureza.

Hannibal é aclamada por suas atuações excepcionais. Mads Mikkelsen brilha no papel de Hannibal Lecter, trazendo uma presença imponente e carismática para o personagem. Hugh Dancy também recebeu elogios por sua interpretação de Will Graham, trazendo uma complexidade emocional convincente ao papel, alterando em momentos importantes, trazendo mudanças comportamentais e visuais. O elenco de apoio, incluindo nomes como Laurence Fishburne e Gillian Anderson, também se destaca com atuações cativantes.

Naufrágio

Apesar destes pontos interessantes, a série foi cancelada devido a baixos índices de audiência. E há razões bastante pontuais. Primeiro, o ritmo lento e a narrativa fragmentada, explorando momentos importantes de maneira quase contemplativa.

A complexidade excessiva da trama também distanciou o público, já que as camadas adicionais de simbolismo e metáforas, acabam por tornar a história menos acessível para aqueles que procuram uma narrativa mais clara.

Outro ponto negativo é o foco desigual nos personagens. Embora Hannibal e Will continuem sendo os protagonistas, alguns personagens secundários são negligenciados ou tendo suas histórias menos exploradas, como a esposa de Jack, que nos apegamos e que morre devido ao câncer de maneira insípida. 

Curiosamente, um ponto alto da série foi vista de maneira negativa: a violência gráfica e imagens perturbadoras. "Hannibal" é conhecida por sua representação visualmente impressionante dos crimes. A abordagem artística de cenas excessivamente repulsivas, distanciou o público que deveria cativar. Até mesmo o uso criativo da culinária foi esquecido.

"Hannibal" é uma série que desafiou as convenções do gênero, oferecendo uma experiência narrativa e estética pouco vistas. Não posso dizer que foi um pecado ter sido cancelada. Certamente, o caminho escolhido pelo roteirista foi determinante para decretar o fim da série. Bryan Fuller não aprendeu muito no processo, afinal, era só recorrer ao Dr. Lecter para entender como funciona a manipulação e a arte de cativar o público, algo que Lecter entende bem.


The end

No final, Hannibal Lecter e Will Graham se unem para enfrentar o assassino Francis Dolarhyde culminando em um confronto brutal, onde Hannibal e Will lutam contra ele. Na luta, Dolarhyde morre. Will se abraça com Hannibal e se jogam de um penhasco, em um gesto simbólico que sugere uma união final entre eles. A cena é deixada em aberto, sem a confirmação se eles sobrevivem ou não.

Porém, na cena pós-créditos, Bedelia Du Maurier está sentada à mesa, com a perna amputada e esta, cozida e pronta para servir de refeição. Isso mostra que Hannibal e Will sobreviveram e estão prestes a se reunir com ela. A série acaba sendo vítima de suas próprias alegorias, impedindo o telespectador de fazer parte da montanha-russa de emoções. Ao invés disto, ele nos obriga a compactuar com decisões equivocadas em prol de um visual belíssimo. 

No final, a relação de Will e Lecter se tornou maior que o próprio autor, evidenciando a sua incapacidade em definir melhor o rumo dos personagens. E quem perdeu foram nós, fãs, que ficamos órfãos do "grand finale" que merecíamos.  

Hannibal não vale pelo destino, mas sim, pela viagem, pois até Bryan Fuller se perdeu no caminho...


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