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DIA D (2026) - FILM REVIEW

 

E se...

Há filmes tão amados na história do cinema que pensamos, carinhosamente, como foi o destino de certos personagens. Falando especificamente de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977) e "E.T. "O Extraterrestre" (1982): e se vissemos mais como funcionavam as abduções no primeiro filme, ou explorássemos como aquelas pessoas viveram com aquela experiência, como o garotinho Barry Guiler (Cary Guffey)? Ou e se o extraterrestre do segundo filme voltasse à Terra, já mais velho, ou mesmo se algum outro daquela raça fosse aprisionado e só descobríssemos agora?

Bom, segure a bomba: O Dia D é exatamente isto. Uma continuação não oficial de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. O Extraterrestre. E, antes que alguém me jogue uma pedra, Steven Spielberg confirmou que Dia D é uma sequência não oficial destas produções. Há até uma confirmação visual em um dos vídeos da revelação final, em que aparece a sequência da nave chegando em "Contatos" antes de abduzir o garoto.

Nem precisava de confirmação. Quando descobrimos que a história gira em torno de duas crianças abduzidas, a sensação é de que a primeira metade do filme dialoga diretamente com o clássico de 1977, enquanto o desfecho se aproxima muito de E.T., inclusive no momento em que o alienígena mais velho está prestes a aparecer, o coração dispara. O medo de ele soltar um “E.T., telefone minha casa” foi genuíno, porque eu simplesmente não teria estrutura emocional para lidar com uma cena dessas.

Foi uma pena que não tenha acontecido, pois seria uma comemoração surreal. Mas, por outro lado, ainda bem que não aconteceu...

Matéria-prima

Alienígenas fazem parte da cultura popular há tanto tempo que, em muitos momentos, parece que eles sempre estiveram ali. Livros, filmes, séries, documentários, teorias da conspiração, programas de televisão de madrugada. Basta mencionar palavras como "OVNI", "Área 51" ou "Roswell" para que praticamente qualquer pessoa tenha alguma referência sobre o assunto. Mas essa fascinação coletiva não surgiu do nada.

Boa parte do interesse moderno pelo tema começou em 1947, quando o piloto americano Kenneth Arnold afirmou ter visto uma formação de objetos estranhos cruzando os céus do estado de Washington em velocidades que desafiam a tecnologia conhecida da época. O relato ganhou enorme repercussão e ajudou a popularizar o conceito dos chamados "discos voadores". Poucos dias depois aconteceria outro episódio que atravessaria décadas sem perder sua capacidade de gerar debates: Roswell.

O caso ocorreu no Novo México e continua sendo um dos maiores mistérios da ufologia. Inicialmente, autoridades militares chegaram a anunciar a recuperação de um "disco voador". Horas depois, a versão mudou. O objeto seria apenas um balão utilizado em operações militares. A explicação oficial não encerrou a discussão. Pelo contrário. Para muitos pesquisadores e entusiastas, ela apenas deu início a uma das teorias da conspiração mais duradouras do século XX. Décadas se passaram, novos documentos foram divulgados, novas explicações surgiram, mas Roswell continua ocupando um lugar especial no imaginário popular.

E Roswell estava longe de ser o único mistério.

Ao longo das décadas seguintes, relatos de luzes inexplicáveis nos céus, objetos voadores não identificados e encontros com possíveis visitantes extraterrestres começaram a surgir em diversas partes do mundo. Alguns casos foram esclarecidos. Outros permanecem sem resposta. Independentemente de sua veracidade, todos ajudaram a construir uma mitologia moderna que se tornou matéria-prima para incontáveis histórias de ficção científica.

Dentro desse universo, poucos lugares se tornaram tão famosos quanto a Área 51. Localizada no deserto de Nevada, a base militar foi durante décadas cercada por sigilo. Sua própria existência era tratada como um assunto delicado pelo governo americano. Naturalmente, o vazio de informações foi preenchido pela imaginação popular. Histórias sobre engenharia reversa de naves alienígenas, experimentos secretos e até contatos com civilizações extraterrestres passaram a fazer parte do folclore moderno. Mesmo quem nunca se interessou por ufologia provavelmente já ouviu alguma teoria envolvendo a Área 51.

Outro elemento fundamental para consolidar essa cultura foram os relatos de abdução.

Talvez nenhum caso seja mais famoso do que o de Betty e Barney Hill. Em 1961, o casal afirmou ter sido capturado por seres extraterrestres durante uma viagem de carro e submetido a uma série de exames a bordo de uma nave. A história ganhou repercussão mundial e acabou estabelecendo muitos dos elementos que passariam a aparecer em centenas de relatos posteriores: o tempo perdido, os procedimentos médicos, as lembranças fragmentadas e a sensação de ter participado de algo impossível de explicar.

Verdadeiros ou não, esses relatos se tornaram parte permanente da cultura popular. Foram eles que inspiraram episódios de séries, romances, filmes e documentários durante décadas. Arquivo X construiu parte de sua mitologia em cima dessas histórias. Spielberg transformou o contato extraterrestre em algo quase espiritual em Contatos Imediatos do Terceiro Grau e profundamente emocional em E.T. O Extraterrestre. Mesmo produções mais recentes continuam retornando aos mesmos temas: segredos governamentais, visitantes vindos das estrelas e a possibilidade de que não estejamos sozinhos.

Entre documentos secretos, testemunhos de militares, luzes misteriosas registradas por radares, supostos contatos imediatos e teorias que atravessam gerações, a ufologia acabou se transformando em muito mais do que um simples conjunto de relatos. Tornou-se um fenômeno cultural.

E pouco importa se alguém acredita ou não nessas histórias. O fascínio permanece o mesmo. Talvez porque a questão central nunca tenha mudado. Estamos sozinhos no universo? É justamente nesse território que Dia D encontra sua matéria-prima. O filme não está interessado em discutir se extraterrestres existem ou não. Ele parte de uma premissa muito mais ousada: e se a humanidade finalmente recebesse a confirmação definitiva de que eles existem?

Mais do que responder a uma pergunta, isso criaria dezenas de outras. Como reagiriam os governos? O que aconteceria com instituições que passaram décadas negando determinadas informações? Como cientistas explicariam uma descoberta capaz de superar acontecimentos como a revolução copernicana, a teoria da evolução ou a chegada do homem à Lua? Afinal, encontrar vida inteligente fora da Terra significaria revisar nossa compreensão da biologia, da tecnologia e talvez até da própria origem da vida.

E a ciência provavelmente seria apenas o começo. A religião também seria obrigada a lidar com questões inéditas. Algumas crenças poderiam enxergar esses visitantes como mais uma manifestação da criação divina. Outras talvez precisassem reinterpretar conceitos estabelecidos há séculos. Surgiriam perguntas inevitáveis. Essas inteligências teriam alma? Estariam sujeitas aos mesmos princípios morais que os seres humanos? Possuiriam suas próprias crenças? Qual seria seu lugar dentro das diferentes visões espirituais construídas pela humanidade?

Ao mesmo tempo, a história mostra que religiões costumam sobreviver a grandes mudanças. A Terra deixou de ser o centro do universo. A evolução alterou nossa compreensão sobre a origem da vida. Ainda assim, as crenças encontraram maneiras de se adaptar. Talvez o mesmo acontecesse diante de uma confirmação extraterrestre.

No campo político, as consequências seriam igualmente imprevisíveis. Governos seriam pressionados a revelar informações mantidas sob sigilo. Antigas teorias da conspiração poderiam ser confirmadas, refutadas ou simplesmente substituídas por outras ainda maiores. Pela primeira vez na história, talvez a humanidade passasse a enxergar a si mesma não como países separados por fronteiras, mas como uma única espécie compartilhando o mesmo planeta.

Ou talvez acontecesse exatamente o contrário. É justamente nessa incerteza que Dia D encontra sua força. Afinal, a pergunta mais importante talvez não seja se existe vida inteligente além da Terra. A verdadeira questão é outra. Estamos preparados para descobrir que não somos os únicos?

        

A verdade está lá fora.

Na história do filme, Margaret Fairchild (Emily Blunt) é uma meteorologista de Kansas City que sonha em fazer algo relevante com a própria vida. Não exatamente salvar o mundo, mas fazer diferença em alguma coisa. Tudo muda quando ela aparece diante das câmeras e começa a falar uma língua impossível de identificar. Não é russo, coreano, chinês ou qualquer outro idioma conhecido. São estalos, zumbidos, sons estranhos e padrões que simplesmente não deveriam existir.

Ao mesmo tempo, Daniel Kellner (Josh O'Connor) cruza o país carregando uma mochila repleta de informações que jamais deveriam chegar ao conhecimento público. Os caminhos dos dois acabam se cruzando em uma trama que mistura conspirações governamentais, segredos enterrados há décadas e a possibilidade de que a humanidade esteja prestes a descobrir algo capaz de mudar tudo.

Emily Blunt está extraordinária. Sua Margaret vive constantemente entre o fascínio e o desespero. Afinal, não deve ser exatamente agradável descobrir que sua mente está começando a compreender coisas que nenhum ser humano deveria compreender. Aos poucos, ela desenvolve habilidades cada vez mais inquietantes: uma espécie de comunicação universal, a capacidade de conhecer profundamente alguém apenas pelo contato e até uma ligação direta com artefatos alienígenas.

O mais interessante é que Blunt nunca transforma a personagem em uma figura sobrenatural. Margaret continua parecendo humana. Assustada, confusa, traumatizada em alguns momentos, encantada em outros. É uma atuação cheia de nuances e, sinceramente, pode ser a melhor de sua carreira. A preparação para o papel também impressiona. Durante meses, a atriz estudou russo e coreano para falar os dois idiomas fluentemente em cena. Além disso, trabalhou ao lado de Spielberg na criação de uma linguagem extraterrestre específica para o filme, composta por cliques, vibrações, estalos e sons que lembram, em alguns momentos, o Código Morse.

Já Daniel Kellner segue por outro caminho. Interpretado por Josh O'Connor, ele é uma espécie de denunciante moderno. Um homem comum que teve acesso a informações que nunca deveriam ter saído dos cofres de uma corporação poderosa. Enquanto tenta escapar daqueles que desejam manter tudo em segredo, Daniel se torna alguém disposto a sacrificar praticamente tudo em nome da verdade.

Durante as filmagens, O'Connor protagonizou uma das histórias mais engraçadas da produção. Certo dia, ele estava tentando encontrar o tom emocional correto para uma cena particularmente importante. Naquela noite, recebeu uma mensagem de Spielberg dizendo apenas: "A porta está na trava, basta empurrar."

O ator ficou intrigado. Passou horas refletindo sobre o significado da frase, convencido de que havia recebido algum conselho artístico profundo do diretor. No dia seguinte, foi agradecer. Spielberg não fazia ideia do que ele estava falando. Ao conferir o celular, descobriu que a mensagem era destinada à esposa, Kate Capshaw, que havia esquecido as chaves de casa. Não era uma metáfora sobre atuação. Não era uma reflexão filosófica. Era literalmente uma instrução sobre uma porta. A história virou piada recorrente no set.

Curiosamente, Daniel Kellner foi inspirado em algumas figuras reais. No filme, ele rouba documentos ultrassecretos da corporação WARDEX revelando décadas de acobertamento envolvendo vida extraterrestre. A comparação imediata é com Edward Snowden, mas existe outra referência mais específica.

O sobrenome pode ser fictício, mas o primeiro nome aponta diretamente para Daniel Ellsberg, responsável pelo vazamento dos famosos Pentagon Papers na década de 1970. Os documentos revelaram segredos do governo americano sobre a Guerra do Vietnã e provocaram um dos maiores escândalos políticos da época. Spielberg já havia abordado esse episódio em The Post (2017).

Outro personagem cativante é Hugo Wakefield, interpretado por Colman Domingo. Segundo a produção, ele foi parcialmente inspirado em John E. Mack, psiquiatra de Harvard, que dedicou boa parte da carreira a investigar pessoas que afirmavam ter sido abduzidas por extraterrestres. Seu trabalho gerou enorme controvérsia dentro da comunidade acadêmica, mas também transformou Mack numa das figuras mais conhecidas quando o assunto é ufologia.

O filme ainda traz algumas conexões curiosas com a própria carreira de Spielberg. Wyatt Russell interpreta Jackson, namorado de Margaret. O curioso é que Spielberg trabalhou com os pais do ator décadas antes. Goldie Hawn estrelou A Louca Escapada (1974), enquanto Kurt Russell participou de Carros Usados (1980), produção executiva do diretor. 

São aqueles pequenos encontros de trajetórias profissionais que geram uma curiosa sensação de continuidade dentro da história de Hollywood. Outra referência surge logo no início do filme. Pouco antes de seu desaparecimento, Margaret pode ser ouvida cantando "Some Day My Prince Will Come", canção de Branca de Neve e os Sete Anões (1937). A escolha parece dialogar diretamente com Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), que utilizava "When You Wish Upon a Star", de Pinóquio (1940), como um de seus elementos marcantes.

Mas talvez nenhuma cena represente melhor Spielberg do que a sequência envolvendo o trem. Ela é, na verdade, algo que remete não apenas a 'Encurralado' (1971), de Steven Spielberg, cuja cena foi idealizada para o filme, mas às suas primeiras experiências com cinema. Isso incluiu bater em trens de brinquedo e filmar essas cenas com uma câmera Super 8. Esse primeiro exemplo real dos interesses de produção cinematográfica de Spielberg foi, na verdade, apresentado em seu filme autobiográfico "Fabelmans" (2022), que, por sua vez, vem do filme "Maior espetáculo da Terra" (1953), clássico que alavancou a vontade do diretor em fazer cinema.

De certa forma, essa sequência conecta toda a trajetória do diretor. Da infância aos dias atuais. E isso nos leva ao aspecto mais instigante de Dia D. Por mais fantástica que seja sua premissa, boa parte das ideias do filme dialoga diretamente com acontecimentos recentes. Daniel Kellner lembra inevitavelmente David Grusch, ex-oficial de inteligência que prestou depoimento sob juramento ao Congresso americano, afirmando que os Estados Unidos mantêm programas secretos de recuperação e estudo de objetos voadores não identificados há décadas.

Grusch foi além. Segundo ele, o governo teria acesso não apenas a tecnologias desconhecidas, mas também a material biológico de origem não humana. Suas declarações dividiram opiniões, geraram manchetes ao redor do mundo e reacenderam debates que pareciam restritos a documentários exibidos de madrugada. Assim como acontece no filme, Grusch também afirma que pessoas foram pressionadas, perseguidas e silenciadas para impedir que determinadas informações chegassem ao público.

Por isso, embora Dia D seja ficção científica, ele se conecta com um tema que voltou a ganhar força nos últimos anos. Audiências no Congresso, vídeos divulgados pelo Pentágono, documentos liberados ao público e depoimentos de ex-militares fizeram com que a discussão sobre OVNIs deixasse de ser um assunto restrito aos entusiastas. Talvez seja justamente aí que o filme encontre sua maior força. Ele não fala apenas sobre alienígenas. Fala sobre um momento histórico em que a realidade parece, cada vez mais, se aproximar da ficção.

E nosso Dia D nunca esteve tão perto.


E, para finalizar, um adendo. Costumo dizer que o cinema dialoga com o momento que vivemos. Durante metade da minha vida, fui Spielberg; na metade que vivo hoje, sou Scorsese. Por isso, minha rigidez emocional é maior quando se trata da obra do cineasta que moldou minha paixão pelo cinema.

A direção de Dia D é sublime. Um verdadeiro tour de force, concebido como uma ponte para seu belíssimo desfecho. Vemos um Spielberg vigoroso, mesmo aos 79 anos, criando sequências que muitos diretores mais jovens parecem incapazes de conceber. Há um engenho nessas cenas que continua sendo algo muito particular do seu cinema.

Ainda assim, na sequência em que a protagonista encontra sua casa de infância reconstruída, senti uma profunda desconexão. Era como se aquela emoção pertencesse apenas a ela, como se fosse algo íntimo demais para ser compartilhado. Duvido, porém, que essa tenha sido a intenção de Spielberg, cuja marca sempre foi justamente dividir suas emoções com o público.


Para mim, o filme falha em construir nossa ligação afetiva com aquela casa. Quando o momento chega, deveríamos sentir um grande "ohhhh", daqueles que vêm diretamente do coração. E isso é importante, porque o final depende dessa emoção para alcançar toda a sua potência.

Mas talvez, numa revisão daqui a dez anos, eu enxergue essa cena de outra forma e passe a valorizá-la mais. Quem sabe?

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