O MISTÉRIO DE CANDYMAN (1992)- FILM REVIEW
O Mistério de Candyman (1992)
No filme, conhecemos Helen Lyle (Virginia Madsen), fascinada pela história do espírito Candyman (Tony Todd). Ela decide escrever uma tese sobre ele. A fim de provar que o "ser" não existe, Lyle vai até o local onde ocorreu um bárbaro assassinato e o invoca, chamando seu nome cinco vezes. Quando Candyman aparece, ele inicia uma série de mortes que recairão sobre Helen, já que a polícia não acredita em entidades.
A origem da lenda
"Candyman" é um conto de horror escrito por Clive Barker. Foi originalmente publicado em 1985 na antologia "Books of Blood, Vol. 5" como "The Forbidden" O conto se passa em uma área degradada de Chicago e segue a história de Helen Lyle, uma estudante de pós-graduação que está fazendo pesquisas sobre lendas urbanas e decide investigar a lenda do Candyman: um espírito vingativo que supostamente aparece quando seu nome é repetido cinco vezes em frente a um espelho.
A lenda diz que Candyman era um escravo afro-americano do século XIX chamado Daniel Robitaille, que se apaixonou por uma mulher branca. Como resultado desse amor proibido, ele foi perseguido, mutilado e morto pela população local, que o cobriu de mel e deixou que abelhas o picassem até a morte.
À medida que Helen mergulha mais fundo na investigação, ela começa a questionar a realidade da lenda e sua própria sanidade. Hellen acaba encontrando o próprio Candyman e se vê envolvida em uma série de eventos aterrorizantes. O conto aborda questões de identidade, racismo e o poder das lendas urbanas para moldar a realidade.
O conto do Candyman foi adaptado para o cinema em 1992, em um filme de mesmo nome dirigido por Bernard Rose. A história também gerou várias sequências e uma nova adaptação cinematográfica foi lançada em 2021, dirigida por Nia DaCosta e produzida por Jordan Peele.
Apesar de ser um conto e ter sido adaptado para o cinema, não há um livro separado exclusivamente dedicado ao Candyman.
Candyman é baseado numa história real?
Mito. "Candyman" não é baseado em uma história real. Embora o conto e os filmes tenham elementos que podem parecer autênticos ou inspirados em lendas urbanas, eles são, na verdade, obras de ficção.
É comum que obras de ficção, especialmente no gênero do horror, apresentem elementos que possam parecer verídicos ou baseados em histórias reais para aumentar a imersão e o impacto emocional. Nesse caso, o Candyman é uma criação imaginária que se tornou um ícone na cultura popular do horror, mas não tem origem em eventos reais.
Candyman versus Candyman
Existem algumas diferenças significativas entre o filme "Candyman" e o conto original de Clive Barker. O conto original se passa em uma área em ruínas de Chicago, enquanto o filme de 1992, dirigido por Bernard Rose, retrata o cenário em um projeto habitacional chamado Cabrini-Green. Essa mudança de cenário adiciona um contexto mais específico e relevante para a história.
O conto se concentra principalmente na personagem Helen Lyle, enquanto o filme expande a história e desenvolve outros personagens, como Anne-Marie McCoy, uma residente de Cabrini-Green, e o detetive Frank Valento. O filme também explora o relacionamento entre Helen e seu marido, Trevor.
Candyman é retratado no conto como um ser sobrenatural cuja existência é baseada na crença das pessoas. Ele é uma figura vingativa que busca perpetuar sua lenda através do medo. No filme, o Candyman é revelado como um espírito vingativo que busca vingança pela injustiça que sofreu em sua vida mortal.
O conto de Clive Barker é conhecido por seu estilo visceral e gráfico, com descrições detalhadas de violência e horror. O filme, embora também contenha elementos perturbadores, adota uma abordagem mais visual e atmosférica, criando suspense e tensão através de sua direção e trilha sonora.
A narrativa é mais curta e concisa no conto, enquanto o filme expande a história, adicionando subtramas e explorando os temas de forma mais ampla. O longa também utiliza recursos visuais e técnicos para criar uma experiência cinematográfica imersiva.
Candyman e a simbologia
O filme apresenta várias camadas, explorando temas sociais e culturais e sua simbologia agrega elementos que o fazem maior do que já é. Há pontos, bem específicos, que valem a pena serem observados como o uso dos espelhos. Eles desempenham um papel significativo no filme, mostrando a dualidade dos personagens e a reflexão da própria identidade. Quando Candyman é chamado diante de um espelho, simboliza o confronto com a própria sombra, medos e repressões internas.
O filme explora também o poder das lendas urbanas e histórias populares que se espalham pelas comunidades, simbolizando como as histórias e mitos podem moldar a percepção e a realidade das pessoas, criando medo e perpetuando crenças e estereótipos negativos.
O cenário do projeto habitacional Cabrini-Green em Chicago representa a pobreza, a segregação racial e a marginalização social. Essa localização mostra a desigualdade e a opressão enfrentada pelas comunidades afro-americanas nas áreas urbanas.
O tema do racismo é um dos pontos centrais do filme. Candyman é retratado como uma vítima da violência racial e, ao mesmo tempo, como um perpetuador dessa violência. Essa problemática simboliza a complexidade das relações raciais e a interconexão entre vítimas e agressores.
Candyman é apresentado como uma figura sombria e assustadora, mas também com uma persona sedutora e atraente. Essa dualidade conecta o horror ao belo, desafiando as convenções tradicionais de monstros no cinema de terror, explorando a atração pelo desconhecido.
O filme aborda questões de gênero e sexualidade por meio do relacionamento entre Candyman e Helen. Ele é retratado como um símbolo de desejo e sedução, enquanto Helen representa uma figura feminina independente e corajosa que desafia os papéis tradicionais de gênero. Essa dinâmica expressa a interseção entre o poder do feminino e a sexualidade.
Por fim, a personagem Helen Lyle é uma estudante de pós-graduação em semiótica, o estudo dos signos e símbolos. Sua busca pela verdade e pela representação autêntica do Candyman simboliza a importância da arte na exploração de questões sociais e culturais.
Dualidade de Candyman: vítima e opressor
Candyman é retratado como uma vítima da violência racial, tendo sido assassinado de maneira brutal no passado. No entanto, sua busca por vingança o transforma em um opressor, atormentando aqueles que o invocam. Essa dualidade simboliza como a violência pode se perpetuar em um ciclo contínuo, onde as vítimas podem se tornar opressoras em busca de justiça ou vingança.
Ele não é simplesmente um vilão, mas uma figura complexa que evoca empatia e compreensão. Essa dualidade desafia as noções tradicionais de mocinho e vilão, confrontando os espectadores com a complexidade moral e a ambiguidade do personagem.
Muito além das picadas...
Ao investigar uma das cenas do crime de Candyman, Helen e Bernadette descobrem que o design do armário de remédios do apartamento o tornava um possível ponto de entrada para um intruso. Esta não foi uma parte de ficção do filme. Enquanto pesquisava para o filme, Bernard Rose descobriu que uma série de assassinatos havia sido cometida em Chicago dessa mesma forma.
O rottweiler que acabou horrivelmente decapitado (fora da tela) foi inspirado pelo fato de que Jeffrey Dahmer, certa vez, decapitou um cachorro e montou sua cabeça em uma vara, quando era adolescente.
As abelhas foram criadas especificamente para este filme. Eles precisavam ter certeza de que elas tinham apenas doze horas de vida, para parecerem abelhas maduras, mas seu ferrão não seria poderoso o suficiente para causar qualquer dano real.
Mesmo assim, Tony Todd negociou um bônus de US$ 1.000 para cada picada de abelha que sofreria durante as filmagens; ele foi picado 23 vezes. Demorou meia hora para que todas as abelhas entrassem na boca de Tony Todd, e ele se lembra de ter ficado “em transe” quando deixou todas as abelhas saírem de sua boca.
Para a cena em que as abelhas preenchem a cavidade torácica de Candyman, as abelhas foram colocadas em um aparelho corporal especial que foi preenchido e amarrado ao peito de Tony Todd. Foi tomado o máximo cuidado para ser gentil ao posicionar as abelhas adequadamente no local e depois coletá-las.
As abelhas eram controladas por Norman Gary, que já manipulou abelhas em filmes como A Picada Mortal (1966), Meu Primeiro Amor (1991), e Tomates Verdes Fritos (1991). O filme usou mais de 200.000 abelhas reais, e a maioria da equipe usou macacões para se proteger das picadas, embora todas tenham enfrentado pelo menos uma picada.
Os créditos de abertura do filme apresentam uma excelente vista aérea de Chicago, que foi bastante revolucionária para a época. “Fizemos isso com uma nova máquina incrível chamada Skycam, que pode fotografar lentes de até 500 mm sem vibração”, disse Bernard Rose na época. "Você nunca viu essa cena antes, pelo menos não tão nítida."
Gangue
Cenas externas, de corredores e de escadas foram filmadas por alguns dias nos conjuntos habitacionais Cabrini-Green. Os produtores tiveram que fazer um acordo com os membros da gangue local para colocá-los no filme como figurantes para garantir segurança do elenco e a equipe durante as filmagens. Mesmo com esse acordo, alguém atirou na van da produção no último dia de filmagem, mas ninguém ficou ferido.
Em uma discussão, Bernadette diz a Helen que "...ouvi dizer que uma criança foi baleada lá outro dia." Ironicamente, em 13 de outubro de 1992, dias antes do lançamento do filme, um menino e residente local chamado Dantrell Davis foi morto por uma bala perdida enquanto caminhava para a escola.
O atirador foi identificado como Anthony Garrett, membro de uma gangue local, que pretendia matar um rival. Garrett foi condenado por assassinato em primeiro grau pela morte de Davis e recebeu uma sentença de 100 anos.
Em 2011, foi demolido o último prédio remanescente do conjunto habitacional Cabrini-Green. Ao longo dos anos, a propriedade – inaugurada em 1942 – ganhou uma reputação notória em todo o mundo por ser um refúgio para violência, drogas, gangues e outras atividades criminosas.
Sweets to the Sweet
(Escrito nas cenas do crime, é uma frase de Hamlet, de William Shakespeare)
O diretor Bernard Rose fez com que Virginia Madsen e Tony Todd tivessem aulas de dança de salão juntos para que tivessem uma conexão mais romântica ao interpretar seus personagens.
Inicialmente, a então desconhecida Sandra Bullock iria protagonizar. E numa primeira avaliação, Eddie Murphy foi considerado. Difícil imaginar a Miss simpatia sendo aterrorizada pelo tira da pesada Axel Foley. Mas não deixa exemplo perfeito para entendermos o motivo pelo qual diversos bons elencos não encaixam em certos filmes: más escolhas. Cada membro de uma equipe que dá vida a um filme é uma peça de uma engrenagem. E se alguma peça não se encaixa perfeitamente, todo o resto não funciona.
Ainda bem que Candyman não foi o caso. Mas passou perto de ser...
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