JOHN ESPOSITO - RESPONDE ÀS 7 PERGUNTAS CAPITAIS
John Esposito é um premiado roteirista, produtor e diretor, além de membro vitalício da Writers Guild of America (WGA), com mais de 30 anos de experiência na indústria cinematográfica e televisiva. Ao longo de sua carreira, teve a oportunidade de desenvolver suas habilidades ao lado de nomes lendários como Stephen King, Quentin Tarantino, R.L. Stine, Wes Craven e Greg Nicotero.
No universo literário, John é autor das quatro edições da popular série de livros Tales from the Haunted Mansion, publicada pela Disney Publishing, inspirada na clássica atração dos parques temáticos da Disney.
Para as plataformas de streaming, John escreveu os roteiros das duas primeiras temporadas das webséries baseadas em The Walking Dead, da AMC, dirigidas por Greg Nicotero. Pelo trabalho, foi duas vezes vencedor do Writers Guild of America Award (2012 e 2013) e também recebeu o Webby Award de Melhor Roteiro em 2013. Na televisão, escreveu vários episódios de R.L. Stine's The Haunting Hour, exibido pelo canal The Hub, pelo qual foi indicado ao Daytime Emmy Award em 2014.
Entre seus trabalhos anteriores, destacam-se o roteiro de Criatura do Cemitério, baseado na obra de Stephen King (Paramount Pictures), e a co-produção do cultuado Um Drink no Inferno, estrelado por George Clooney e escrito por Quentin Tarantino.
John também contribuiu com um segmento da premiada série Masters of Horror (Showtime), foi co-roteirista do suspense Talos the Mummy, dirigido por Russell Mulcahy e estrelado por Christopher Lee, e escreveu e produziu um dos episódios do longa antológico The Theatre Bizarre, sob direção de Tom Savini. Adaptou ainda o conto "O Gato Preto", de Edgar Allan Poe, para a televisão (produção de Wes Craven), além de ter trabalhado em "Night Terrors", baseado na obra de R.L. Stine, ambos para a ABC.
No universo da animação, roteirizou vários episódios das séries Jovens Titãs e Legião dos Super-Heróis, da Warner Bros.
1) É comum lembrarmos com carinho do início da nossa relação com o cinema. Os filmes ruins que nos marcaram, os cinemas frequentados (que hoje, provavelmente, estão fechados), as extintas locadoras de VHS e DVD que faziam parte do nosso cotidiano. Você é um apaixonado por cinema? Conte um pouco de como é sua relação com a 7ª arte.
J.E.: Me apaixonei perdidamente pelo cinema ainda muito jovem. Por todos os filmes, eventualmente, mas especialmente pelos filmes de gênero. Meu pai tinha uma pequena coleção de filmes de monstro em 8mm que ele exibia nas noites de cinema em casa. Eu não me cansava de Abbott e Costello Contra Frankenstein ou O Monstro da Lagoa Negra. Claro, eram versões mudas e resumidas. Duravam cerca de nove minutos. Isso entrega minha idade, não é?! Mas o ritual de assistir a filmes de terror no escuro comendo pipoca começou quando eu tinha uns três anos e nunca mais parou.
Essa "paixão" se estendeu aos programas com apresentadores de filmes de terror na TV local, onde era preciso esperar os clássicos antigos passarem. Hoje, podemos transmiti-los em 4K a qualquer hora, mas eu sinto falta daqueles tempos em que se esperava ansiosamente por um título específico, embora isso provavelmente seja só a nostalgia falando.
Minha família também fazia viagens semanais aos cinemas drive-in, onde me apaixonei pelos filmes de terror da Hammer, da AIP, pelos trabalhos de Harryhausen e pelos filmes do James Bond. Minhas obsessões foram ainda mais incentivadas pelas revistas Famous Monsters of Filmland (e mais tarde Fangoria), nas quais me tornei um superfã dos bastidores. Era impressionante pensar que existiam pessoas que realmente ganhavam a vida criando monstros!
Crescendo em Long Island, sem nenhuma conexão com a indústria, a ideia de ter uma carreira nas artes parecia algo impensável.
M.V.: Nossa, não posso deixar de comentar sobre "esperar ansiosamente por um título passar na TV". Era como se fosse uma gestação. Mas seria o filme, o filho que nasceria. Havia tanta expectativa que parece que todo filme ganhava relevância, até os ruins.
2) Não há um bom filme com roteiro ruim. Ele é essencial para o projeto funcionar. Conte detalhes da sua profissão e quando começou a trabalhar como roteirista.
J.E.: Eu não fazia ideia de por onde começar. Nunca houve um plano. Eu gostava de escrever histórias e recebi algum incentivo dos meus professores do ensino fundamental, mas foi só isso. Quando eu tinha 11 anos, meus pais se separaram e o mundo virou de cabeça para baixo. Eu me retraí socialmente e passei a maior parte do tempo sozinho no meu quarto, assistindo a filmes antigos de monstros. (Eu tinha herdado o projetor de 8mm do meu pai). O sonho de um dia me envolver com a indústria provavelmente começou ali.
Aos 14 anos, com o incentivo da minha mãe, tentei escrever um roteiro e consegui vendê-lo para um produtor independente. Foi quase um milagre. O roteiro nunca foi produzido, mas, a partir daí, enxerguei um caminho possível.
Anos depois, escrevi um roteiro de antologia baseado em algumas das minhas histórias curtas antigas. Como o destino quis, participei de uma convenção da Fangoria onde Tom Savini era um dos convidados. Ele mencionou no palco que estava procurando roteiros para dirigir, então entrei na fila de autógrafos e reuni coragem para perguntar se ele leria o meu roteiro. Ele disse que sim e, mais tarde, comprou os direitos, o que levou diretamente à produção de Criatura do Cemitério (1990). A parte mais incrível? Savini, meu ídolo, se tornou Savini, meu amigo.
3) Com relação às suas preferências cinematográficas, há uma lista dos filmes de sua vida? Um Top 10 ou mesmo o filme mais importante?
J.E.: Não tenho certeza se conseguiria fazer uma lista curta de filmes favoritos. São muitos! Vamos simplesmente ficar com A Noiva de Frankenstein e encerrar por aqui.
4) Algumas profissões rendem histórias interessantes, curiosas e, às vezes, engraçadas. E certamente, quem trabalha com cinema, tem suas pérolas. Lembra-se de alguma história divertida que tenha acontecido durante a execução de algum trabalho seu e que possa compartilhar?
J.E.: Tantas histórias... Lembro do dia em que Christopher Lee estava escalado para sua participação especial em Enigma de Talos (1998). Não consigo enfatizar o suficiente o quanto sou obcecado por Christopher Lee. Ele era o astro de cinema da minha infância. E agora, ele estava prestes a aparecer numa cena que eu tinha escrito especificamente para ele.
Eu estava completamente eufórico. Passei a semana toda nervoso, me preparando, cortei o cabelo, comprei um blazer novo, enquanto a equipe (em sua maioria britânica) se divertia às minhas custas. Para eles, ele era apenas mais um ator. Ou, pelo menos, foi o que disseram. Bem, deixa eu contar: quando Christopher Lee finalmente chegou ao set, foi como a segunda vinda de Cristo.
Aqueles mesmos membros da equipe ficaram embasbacados, gaguejando, e logo havia uma fila na porta querendo tirar foto com ele. Christopher olhou para a nossa múmia, com mais de dois metros e vinte de altura, e comentou: “Parece que estão fazendo as múmias maiores hoje em dia.”
Na manhã seguinte, enquanto nosso diretor de fotografia esperava a luz do Sol ficar na posição certa, o grande diretor Russell Mulcahy me chamou para sentar e conversar com Christopher durante a pausa. Bom, ele não precisou repetir. Sentamos com aquele gigante do cinema e falamos sobre filmes.
Os filmes dele. E, em poucos minutos, ele começou a desabafar sobre os cortes que o distribuidor tinha feito em O Homem de Palha... 25 anos antes! Christopher Lee ainda sentia as feridas. Era assim que ele se importava com sua arte. Eu, claro, só fiquei ali, sorrindo feito bobo. Espero que ele tenha gostado do meu corte de cabelo.
M.V.: Ri alto. Uma das mais divertidas histórias que ouvi aqui.
5) Como foi trabalhar em filmes e séries de TV tão populares?
J.E.: É um privilégio raro ver um projeto seu ser realmente produzido. Tive a sorte de estar presente no set de todos os meus filmes. Quando você é o roteirista, o segredo é ficar quieto... a não ser que peçam sua opinião.
M.V.: "Criatura do Cemitério" é um clássico gore bastante injustiçado. Como o projeto nasceu?
J.E.: "Criatura do Cemitério" foi o primeiro roteiro meu a ser produzido e continua sendo uma das experiências mais mágicas da minha vida. Não estou falando da qualidade do filme, isso deixo para os outros julgarem, mas da experiência de ver um filme de monstro sendo produzido em nível de estúdio, com o nome de Stephen King envolvido, nada menos! Pode me beliscar. Claro, as críticas foram horríveis. Passei por momentos bem difíceis depois do lançamento. O filme ainda é criticado até hoje, 35 anos depois. Mimimi, né? Eu sei.
M.V.: Mimimi puro. Revi recentemente e é ótimo. Sangrento (acho que o único gore de Stephen King) e só melhorou com o tempo.
J.E.: Obrigado.
M.V.: Também esteve envolvido em "Um Drink no Inferno"...
J.E.: Naquele mesmo ano, Robert Kurtzman e eu desenvolvemos "Um Drink no Inferno" (1996) para ele dirigir. Eu ia escrever o roteiro, mas acabei ficando ocupado e, ainda bem! Porque contratamos um roteirista desconhecido chamado Quentin Tarantino. Ele foi indicado por um amigo em comum. Me mandaram os roteiros de True Romance e Assassinos por Natureza como amostra, e eu fiquei impressionado. Bob e eu fomos as primeiras pessoas a pagá-lo como roteirista. 1.500 dólares, o que parecia uma fortuna na época.
Ainda levaria alguns anos até ele estourar. Enfim, Tarantino escreveu o roteiro, mas não conseguimos emplacar o projeto em lugar nenhum. Zero interesse. Algumas das recusas foram até bem grosseiras. Depois, com o sucesso dele, as mesmas pessoas passaram a chamar aquele mesmo roteiro de “brilhante”. Aí, "Um Drink no Inferno" virou uma produção bem maior, com Robert Rodriguez na direção, estrelas de cinema no elenco e até uma estreia de gala em Hollywood. Incrível!
M.V.: Eu amei os webisódios de The Walking Dead, principalmente aquele que conta a história da mulher que se torna uma das zumbis mais memoráveis da série principal. Como o projeto surgiu?
J.E.: Um dos meus amigos mais queridos desde os tempos com Savini é Greg Nicotero. Ele dispensa apresentações. Mais do que um amigo, ele tem sido meu anjo da guarda. Foi ele quem me trouxe para trabalhar nos webisódios de The Walking Dead que ele dirigia foi uma emoção enorme fazer parte daquele universo.
E depois veio Creepshow (a série), onde tive o privilégio de escrever vários segmentos, produzir e, na quarta temporada, até dirigir! Um sonho realizado, tudo graças ao Greg, meu irmão de alma monstro. Sou eternamente grato. Só não contem isso pra ele.
M.V.: Vou mandar esta entrevista para ele...(risos)
6) Fazer cinema envolve muitas variáveis. Esforço, investimento, paixão, talento... E a sinergia destes elementos faz o resultado. Qual trabalho em sua carreira considera o melhor?
J.E.: Olhando para trás, é difícil escolher um projeto do qual eu mais me orgulhe. Na verdade, eu queria que tudo tivesse sido melhor! Alguns dos meus roteiros mais fortes continuam inéditos, sem terem sido produzidos. As maiores conquistas, para mim, envolvem simplesmente conseguir atravessar todo o processo, navegar pelas confusões dos bastidores. Gostaria de ter feito mais. Mas ainda não terminei.
Posso dizer, no entanto, que me orgulho muito das relações que mantive. A maioria das minhas amizades mais próximas surgiu de relações profissionais.
Ah, e já mencionei o Christopher Lee?
M.V.: Não tenho certeza...(risos)
J.E.: Eu não me arrependo de nada do que fiz, apenas das coisas que deixei de fazer. Gostaria de ter me empenhado para dirigir muito antes. Isso teria sido incrível. Fora isso...
M.V.: ...sem arrependimentos...
7) Para finalizar, deixe uma frase ou pensamento envolvendo o cinema que representa você.
J.E.: Citando Ed Wood (roteiro de Scott Alexander & Larry Karaszewski): "O próximo será melhor."
M.V.: Sempre.
J.E.: Obrigado Marcus.
M.V.: A gente se vê nos filmes.
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