google-site-verification=21d6hN1qv4Gg7Q1Cw4ScYzSz7jRaXi6w1uq24bgnPQc

LOGAN (2017) - FILM REVIEW

🔷Logan (2017)

Durante quase duas décadas, os mutantes dos X-Men foram apresentados como símbolos de evolução, juventude e potencial ilimitado. Seus poderes sempre sugeriram o futuro, a próxima etapa da humanidade. Mas o filme Logan inverte essa lógica de maneira brutalmente simples: e se esses seres extraordinários também envelhecessem? E se o tempo — o maior inimigo de qualquer ser humano — fosse igualmente implacável com quem passou a vida acreditando ser praticamente indestrutível?

A escolha de abordar o envelhecimento dos mutantes não é apenas estética ou narrativa — é profundamente temática. Em vez de mostrar heróis cada vez mais poderosos, o filme apresenta personagens que estão falhando. O fator de cura de Logan já não responde como antes; suas garras ainda são letais, mas vêm acompanhadas de dor constante. O Professor Xavier, antes a mente mais poderosa do planeta, sofre com uma doença degenerativa que transforma sua maior virtude — o poder mental — em ameaça involuntária aos outros. É um conceito cruelmente irônico: aquilo que os tornava extraordinários torna-se, agora, fonte de fragilidade.

Esse envelhecimento traz consequências narrativas muito mais densas do que simplesmente reduzir a força física dos personagens. Ele altera suas relações com o mundo. Logan não é mais um guerreiro em busca de justiça; tornou-se um sobrevivente cansado, tentando manter-se invisível em um mundo que parece ter esquecido os mutantes. A própria existência de um futuro sem novos mutantes reforça essa sensação de fim de ciclo, como se uma espécie inteira estivesse lentamente desaparecendo.

Há também um impacto emocional poderoso nesse envelhecimento. Durante anos, o público acompanhou Wolverine como uma figura quase mítica — alguém que suportava ferimentos impossíveis e se levantava sempre pronto para a próxima batalha. Em Logan, cada movimento carrega peso. Cada luta parece mais perigosa, mais definitiva. Não há a promessa implícita de que tudo ficará bem no final. Há apenas a sensação de que o tempo finalmente alcançou alguém que parecia impossível de derrotar.

Esse enfoque também cria uma consequência rara no gênero: a mortalidade passa a ter significado real. Em muitos filmes de super-heróis, o envelhecimento é ignorado ou suavizado — personagens permanecem fisicamente imutáveis, mesmo após anos de histórias. Logan faz o oposto: transforma o desgaste físico e emocional em motor dramático. Até mesmo lendas sangram, enfraquecem e, eventualmente, precisam encarar o fim.

O filme Logan oferece uma catarse quando pensamos na notícia recente da morte do ator Chuck Norris. Durante décadas, Norris foi mais do que um ator: virou um mito cultural, uma piada recorrente sobre invencibilidade, um símbolo quase caricatural da resistência física absoluta. Nos memes, nas histórias exageradas e nos papéis que interpretou, ele parecia menos um homem e mais um conceito — o da força que nunca falha, do lutador que nunca cai.

É justamente aí que Logan encontra uma ressonância inesperada com a realidade. O filme desmonta a fantasia da invulnerabilidade antes mesmo que a vida real faça isso por nós. Ao assistir a Logan envelhecido, com o corpo falhando e os reflexos mais lentos, o espectador confronta algo que culturalmente sempre evitamos aceitar: até os heróis que parecem feitos de aço têm prazo de validade. 

Quando pensamos em uma figura como Chuck Norris, sua morte adquire um valor metafórico semelhante ao que Logan dramatiza. Não se trata apenas da perda de um ator, mas do encerramento de uma ideia coletiva: a de que certos homens pertencem a uma categoria à parte, quase fora das regras normais do tempo.

Mas o tempo não negocia com mitos. A morte de alguém como Chuck Norris nos lembra que os heróis que cresceram diante dos nossos olhos não eram feitos de adamantium, mas de carne, osso e fadiga acumulada. Logan é uma história emocional sobre o inevitável.

X-23, "Yo soy tu padre".

Na história, que se passa em 2029, Logan (Hugh Jackman) ganha a vida como chofer de limusine para cuidar do nonagenário Charles Xavier (Patrick Stewart). Debilitado fisicamente e esgotado emocionalmente, ele é procurado por Gabriela (Elizabeth Rodriguez), uma mexicana que precisa da ajuda do ex-X-Men para defender a pequena Laura Kinney / X-23 (Dafne Keen). Ao mesmo tempo em que se recusa a voltar à ativa, Logan é perseguido pelo mercenário Donald Pierce (Boyd Holbrook), interessado na menina.

Se é continuidade que busca, bom, Logan se comporta como diversas franquias famosas (posso citar Sexta-Feira 13 e Transformers), que alinham a história à própria conveniência. Então, caso assista em sequência como eu, notará elementos completamente desalinhados. Mas, tratando cada filme como uma experiência dentro de um multiverso nada coeso, Logan é o grande filme dos X-Men no cinema. Se o primeiro é um exemplo de condução de filme inicial, e Primeira Classe, o exemplo de história sobre formação de equipe, aqui temos o filme mais adulto, mais duro e, ao mesmo tempo, mais sensível.

A concepção de Logan surgiu do desejo de romper com os padrões estabelecidos nos filmes anteriores do personagem. Desde o término de Wolverine - Imortal (2013), o diretor James Mangold e o ator Hugh Jackman discutiam a necessidade de reinventar a abordagem narrativa, buscando afastar-se das convenções típicas do gênero de super-heróis. A intenção não era apenas mudar por mudança, mas criar uma obra que dialogasse com o contexto cultural contemporâneo, evitando a repetição de fórmulas centradas em salvar o mundo. Em vez disso, o foco passou a ser uma narrativa mais intimista, orientada pelos conflitos internos dos personagens, quase como se não fosse um filme de super-herói, embora ainda incorporasse seus elementos fundamentais.

O desenvolvimento do projeto teve início em 2013, quando a 20th Century Fox iniciou negociações para um novo filme solo de Wolverine, com Mangold envolvido na criação da história e Lauren Shuler Donner retornando como produtora. Naquele momento, a participação de Hugh Jackman ainda era incerta, embora o ator demonstrasse interesse em retornar sob a condição de que o novo filme superasse qualitativamente o anterior. Desde o início, tanto ele quanto Mangold enfatizavam a necessidade de um roteiro mais sólido e diferenciado, que justificasse artisticamente a continuidade do personagem.

Ao longo do processo, Jackman teve participação ativa na construção da narrativa. A proposta central evoluiu para uma história mais contida e emocional, inspirada por filmes como O Lutador (2008) e Os Imperdóáveis (1992), com forte ênfase no desgaste físico e psicológico do protagonista. Mangold chegou a descrever o conceito inicial como uma espécie de “road movie existencial e violento”, com influências inesperadas como Pequena Miss Sunshine (2006), evidenciando o tom híbrido que buscava alcançar.

Com o avanço do desenvolvimento, definiu-se que o filme exploraria de maneira mais profunda a relação entre Logan e Charles Xavier, apresentando uma dinâmica quase paternal entre os dois personagens — algo apenas sugerido em filmes anteriores. Paralelamente, consolidou-se a ideia de ambientar a história em um futuro próximo e de forma relativamente independente da cronologia principal dos X-Men, permitindo maior liberdade criativa. Essa decisão reforçou o caráter autônomo da obra, que se propôs a funcionar como um estudo de personagem, mais próximo de um drama do que de uma narrativa tradicional de ação.

Outro elemento importante na concepção foi a influência da HQ Velho Logan, de Mark Millar, que serviu como inspiração livre para a ambientação e o tom da história. Além disso, a decisão de adotar uma classificação indicativa mais elevada (Não recomendado para menores de 18 anos) foi fundamental para permitir uma abordagem mais crua e realista da violência e das consequências físicas enfrentadas pelo protagonista.

Eles foram assertivos na direção tomada. Para ter lucro, o filme teria que fazer mais de 2,5 vezes o orçamento. Logan custou 97 milhões e rendeu 619 milhões. Praticamente abriu caminho para Wolverine voltar em Deadpool & Wolverine em 2024.

 

Tecnologia do Blogger.