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O QUE É O JIDAIGEKI JAPONÊS

 

Acho curioso dar nomes a gêneros cinematográficos que, numa primeira percepção, pertencem a gêneros já conhecidos. Um clássico exemplo é a pornochanchada, que muitos consideram depreciativa, inclusive. Você consegue perceber facilmente qual filme pertence à pornochanchada, mas, desconhecendo o termo, a primeira avaliação é que se tratam de filmes de comédias (muitas vezes eróticas), dramas (que podem ser eróticos também) ou aventuras. 

Portanto, qualquer cinéfilo assistiu a filmes de aventura como "Os Sete Samurais", "47 Ronin" ou filmes de guerra "Kagemusha" e "Ran". E, dentro destes filmes, o gênero drama está fortemente inserido. Portanto, esta definição de gênero se confunde com os acontecimentos do próprio filme. Basta um olhar apurado em "O Exorcista" para percebermos que, em sua primeira hora, é um filme de drama, em que a mãe tenta descobrir a "doença" da filha.

O que nos leva ao Jidaigeki, um gênero de filme e televisão no Japão que retrata o período histórico Edo (1603-1868) ou anterior. O termo "jidaigeki" se traduz em "drama de época". Esses dramas normalmente retratam a vida de samurais, ronins (samurai sem mestre) e outros personagens de várias classes sociais durante o Japão feudal.

Os filmes e séries de televisão Jidaigeki muitas vezes mostram os aspectos culturais e sociais da época, incluindo a estrita estrutura hierárquica, códigos de honra e lealdade, e os conflitos e desafios enfrentados pelos personagens. Eles geralmente apresentam lutas de espadas, artes marciais, intrigas políticas, romances e elementos do folclore e mitologia japonesa.

Ele abrange uma ampla variedade de temas e elementos. Além das histórias centradas em samurais e ronins, também pode incluir tramas de vingança, conflitos entre clãs, retratos da vida cotidiana no Japão feudal, questões sociais da época, entre outros. Eles também podem explorar outros aspectos, como a cerimônia do chá, a música tradicional japonesa (como o shamisen) e as vestimentas da época.

Um dos diretores de jidaigeki mais conhecidos é Akira Kurosawa, cujos filmes como “Os Sete Samurais”, “Yojimbo”, "Rashomon", "Trono Manchado de Sangue" e "Kagemusha" são aclamados internacionalmente e influenciaram muitos cineastas ao redor do mundo. Kurosawa era conhecido por sua habilidade em contar histórias complexas e explorar temas universais por meio de suas narrativas ambientadas no período samurai, como honra, dever e a luta do indivíduo contra sistemas sociais opressivos.

Os samurais são personagens centrais nos jidaigeki. Eles são guerreiros habilidosos, com uma forte ética baseada no código de conduta chamado bushido. O bushido valoriza a lealdade, o dever, a coragem, a honra e a disciplina. Os jidaigeki frequentemente exploram os dilemas morais enfrentados pelos samurais, sua busca pela justiça e sua devoção aos senhores feudais.

Uma volta no tempo.

Embora o gênero jidaigeki seja enraizado na história e cultura do Japão feudal, ele também evoluiu para se adaptar a abordagens mais contemporâneas. Por exemplo, a série de filmes "Rurouni Kenshin" (2012-2014), baseada em um mangá e anime, combina elementos jidaigeki com ação e aventura. Essa mistura de elementos tradicionais e modernos continua a atrair um público amplo, tanto no Japão quanto internacionalmente.

Como dito acima, o gênero jidaigeki normalmente se passa no período Edo, quando o Japão era governado pelos xoguns Tokugawa. No entanto, também pode abranger períodos anteriores, como o Período Sengoku (período dos Estados Combatentes) ou o Período Heian (794-1185). Cada período histórico tem suas próprias características culturais, políticas e sociais, que são refletidas nas histórias jidaigeki.

A variedade de subgêneros é um ponto importante dentro do gênero jidaigeki; alguns exemplos incluem: 

A chambara refere-se a filmes que se concentram principalmente em cenas de ação e lutas de espadas. Eles são conhecidos por suas sequências de combate intensas e coreografadas.

Gendai-jidaigeki: esses são os dramas de época modernos, que retratam a vida no Japão feudal com um toque contemporâneo. Eles podem abordar temas sociais atuais e usar elementos de jidaigeki em um contexto atual.

Ninjutsu: concentra-se nas habilidades e façanhas dos ninjas, os espiões e assassinos furtivos do Japão feudal.

Jidai-geki Fantástico: combina elementos de fantasia, magia e folclore japonês com a ambientação histórica, criando uma mistura única de elementos sobrenaturais e drama histórico.

Ramificações...

Existem diferentes estilos de luta que são frequentemente retratados nos filmes e séries jidaigeki:

Kenjutsu: é a arte do manejo da espada samurai. As técnicas de kenjutsu envolvem movimentos precisos, posturas específicas e o uso de diferentes tipos de espadas, como a katana.

Iaijutsu: é a técnica de desembainhar a espada rapidamente para um ataque surpresa. O iaijutsu é conhecido por sua eficiência e pela habilidade do praticante em reagir instantaneamente aos ataques dos oponentes.

Shurikenjutsu: refere-se ao uso de shurikens, ou estrelas de arremesso, como armas. Os ninjas eram especialistas em shurikenjutsu e usavam essas armas para atacar ou distrair os inimigos.

Sociedade patriarcal.

Jidaigeki de Ação: além dos dramas históricos, o gênero jidaigeki.

Até agora não mencionei a mulher no Jidaigeki, porque ele é associado aos samurais masculinos. Embora o papel das mulheres nos filmes jidaigeki muitas vezes tenha sido retratado como secundário, há filmes que destacaram as samurais femininas como protagonistas. 

Curioso, já que a produção que motivou a fazer o post é a série da Apple TV "Pachinko", baseada na obra de Min Ji Lee. "Pachinko" acompanha a história de um amor proibido que envolveu quatro gerações de uma família de imigrantes coreanos e atravessou continentes, partindo da Coreia, passando pelo Japão e chegando até os Estados Unidos. 

Nascida na cidade de Busan, a jovem Sunja (Youn Yuh-jung) vê sua vida mudar completamente ao deixar seu país de origem para tentar uma vida mais confortável no Japão. Ela luta diariamente para construir um legado sólido para sua família e deixar o melhor possível para seus filhos. Mas, para conquistar seus sonhos, ela terá de enfrentar um ambiente hostil à sua cultura e enfrentar o racismo e a xenofobia nesse novo lugar. 

Seus dois filhos, Noa e Mozasu, enfrentam grandes dificuldades durante a infância, especialmente com a ausência do pai. Mas, com muita perseverança e o direcionamento de Sunja, a família consegue enfrentar as grandes dificuldades diárias e criar um futuro melhor.

A trajetória da personagem Sunja é bastante inspiradora e, como a série tem elementos do Jidaigeki, pensei em falar sobre o gênero, que tem presença significativa de personagens fortes nessas histórias. As mulheres são mais comumente retratadas como geishas ou assassinas. Essa fusão de elementos tradicionais e contemporâneos permite uma nova perspectiva sobre as questões sociais e éticas abordadas pelo gênero.

Houve filmes que destacaram as samurais femininas como protagonistas. Um exemplo notável é "As Irmãs de Gion" (1936), dirigido por Kenji Mizoguchi, que conta a história de duas irmãs que enfrentam dificuldades no Japão da era Meiji. Esses filmes desafiam as convenções de gênero e apresentam personagens femininas fortes e complexas.

Além do cinema e da televisão, o gênero jidaigeki também é popular na literatura japonesa. Existem muitos romances e contos que se passam no período Edo, explorando os mesmos temas de honra, lealdade e conflitos sociais dos filmes e séries. Alguns autores notáveis ​​incluem Yukio Mishima, Ryotaro Shiba e Eiji Yoshikawa.

O gênero conquistou uma base de fãs internacionais e influenciou muitos cineastas e artistas estrangeiros. Diretores como Quentin Tarantino e Martin Scorsese foram inspirados pela estética e narrativa dos filmes de samurai japoneses. Além disso, elementos de jidaigeki, como as lutas de espadas e a estética do período Edo, podem ser vistos em filmes ocidentais, como "Kill Bill" e "O Último Samurai".

No geral, jidaigeki oferece uma janela para a rica herança histórica e cultural do Japão, proporcionando aos espectadores um vislumbre da era samurai e dos valores que moldaram a sociedade japonesa naquela época.

As histórias e personagens icônicos retratados nesses filmes e séries têm sido uma fonte de inspiração para outras formas de mídia, como mangás, animes e videogames. Além disso, a moda e a estética do período Edo, como os quimonos e penteados tradicionais, continuam a ser apreciados e reinterpretados na sociedade contemporânea.

E, para finalizar, a importância de abordar jidaigeki: o criador de Star Wars, George Lucas, admitiu ter se inspirado significativamente nas obras de época japonesas para a criação dos Jedi enquanto estava no Japão, e é amplamente assumido que ele se inspirou no cinema jidaigeki

Ou seja, Star Wars, a franquia mais importante e influente da história do cinema, tem sua base no jidaigeki.

Jidaigeki em 10 filmes:

A Vingança dos 47 Rōnin (1941) - dirigido por Kenji Mizoguchi. O filme retrata a épica história real que envolve samurais desamparados após a morte de seu mestre, que se mobilizam para vingar a morte de Asano.

"Rashomon" (1950) - dirigido por Akira Kurosawa, esse filme jidaigeki é conhecido por sua estrutura narrativa inovadora. Apresenta diferentes perspectivas sobre um crime por meio de depoimentos contraditórios, explorando a natureza da verdade e da percepção. É considerado um marco do cinema japonês e ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

"Contos da Lua Vaga" (1953) -  também dirigido por Kenji Mizoguchi, o filme, situado no século XVI, em plena guerra civil, mostra dois irmãos fazendeiros que vão à capital local para tentar vender peças de cerâmica. Eles vendem todas, e depois o destino dos dois se separa quando Tobei decide se tornar samurai, e Genjuro quer enriquecer por meio do comércio. Entre as surpresas que os esperam, Genjuro descobre que a rica mulher que o recebeu em seu palácio, é na verdade, um fantasma.

"Portal do Inferno" (1953) - realizado por Teinosuke Kinugasa, e situado no ano de 1160, o filme mostra o senhor Kiyomori (Koreya Senda) que viaja com sua corte enquanto seu castelo é invadido por dois outros senhores, em um golpe. O leal samurai Moritoo Endô (Kazuo Hasegawa) defende o castelo com a ajuda de Kesa (Machiko Kyô), que finge ser a irmã do dono da casa para criar uma distração. Quando retorna, Lord Kiyomon recompensa os guerreiros realizando seus desejos. Quando Moritoo diz que quer casar com Kesa, o senhor concede seu desejo sem saber que ela já é casada com um samurai da guarda imperial.

"Era Uma Vez Em Tóquio" (1953) - dirigido por Yasujirō Ozu, que explora a transição entre a vida rural e urbana no Japão. O filme foi votado como o sétimo melhor filme dos 100 Maiores Filmes de Todos os Tempos.

"Os Sete Samurais" (1954) — também dirigido por Akira Kurosawa — este épico jidaigeki é considerado um dos maiores filmes de todos os tempos. A história acompanha um grupo de samurais contratados para proteger uma vila de bandidos. É conhecido por sua narrativa envolvente, personagens memoráveis ​​e sequências de batalha emocionantes.

"Trono Manchado de Sangue" (1957) — outra obra-prima de Akira Kurosawa — é uma adaptação de "Macbeth" de Shakespeare ambientada no Japão feudal. Toshiro Mifune interpreta o protagonista que busca poder e enfrenta as consequências de suas ações. É notável por sua cinematografia impressionante e atuações poderosas.

"Yojimbo" (1961) - dirigido por Akira Kurosawa, este filme jidaigeki é um clássico do gênero samurai. Toshiro Mifune interpreta um ronin sem nome que chega a uma cidade tomada por gangues rivais. Ele usa sua astúcia e habilidades de luta para manipular os grupos e restaurar a paz. "Yojimbo" influenciou muitos filmes ocidentais, incluindo "Por um Punhado de Dólares" de Sergio Leone.

"Harakiri" (1962) - dirigido por Masaki Kobayashi, este filme jidaigeki é uma crítica contundente à hierarquia e ao código de conduta dos samurais. Conta a história de um ronin (samurai sem mestre) que busca realizar o ritual de suicídio (harakiri) em um clã feudal corrupto. É conhecido por sua abordagem sombria e reflexiva sobre o bushido.

"A Espada do Mal" (1964) - dirigido por Kenji Misumi, o filme faz parte da série "Lobo Solitário" ("Lone Wolf and Cub") e é baseado no popular mangá. A trama segue um ex-samurai que se torna um assassino errante, viajando com seu filho pequeno em busca de vingança. É conhecido por sua ação empolgante, personagens carismáticos e temas de honra e paternidade.


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