A BRUXA (2015) - ANÁLISE DO FILME
O filme A Bruxa, dirigido por Robert Eggers, encontra sua força na forma como religião, psicologia, dinâmica social e símbolos vão se enredando até levar cada personagem a escolhas que parecem inevitáveis naquele ambiente. A história não se estrutura em episódios soltos; tudo ocorre dentro de um círculo fechado em que crença, medo, desejo e escassez alimentam o mesmo ciclo até ele ruir.
O ponto central é o fanatismo religioso. William, o pai, é alguém cuja identidade depende de estar moralmente alinhado com Deus. Sua expulsão da comunidade puritana vira, para ele, confirmação de retidão, e não motivo de vergonha. A partir disso, ele escolhe o isolamento, e a família se afasta não só do vilarejo, mas de qualquer outra forma de interpretar o mundo que não passe por categorias divinas ou demoníacas.
Essa forma de pensar define a reação de todos ao que os cerca. A floresta deixa de ser apenas um espaço desconhecido e passa a ser tratada como território do mal. Quando o bebê Samuel desaparece, não há espaço para explicações naturais; o acontecimento já nasce revestido de sobrenatural. Sem acaso ou incerteza, a realidade se transforma num campo moral rígido. Daí em diante, instala-se uma paranoia crescente: tudo vira sinal, tudo vira prova, e qualquer falha pode ser lida como corrupção espiritual. Bom, basicamente, como é hoje em uma Igreja Evangélica.
Thomasin, a protagonista, fica particularmente exposta nesse ambiente. Sua passagem para a adolescência a coloca no centro das tensões da família. Sua feminilidade crescente é vista como ameaça, e o olhar de Caleb sobre ela deixa transparecer conflito, desejo e culpa, sentimentos para os quais nenhum deles tem linguagem emocional disponível. Qualquer impulso que não caiba no repertório puritano vira pecado ou é empurrado para o inconsciente.
Esse bloqueio afeta especialmente Caleb. Ele absorve por completo a doutrina puritana e teme a condenação de forma quase tangível. Quando se perde na floresta e encontra a figura da bruxa, a cena pode ser tanto sobrenatural quanto metáfora de seus desejos e medos acumulados. Sua morte, tomada por delírio religioso, escancara a fusão entre fé e terror: ele busca redenção, mas ao mesmo tempo parece sucumbir ao próprio pavor.
Katherine, a mãe, vive a fé através da culpa e do luto. A perda de Samuel a destrói internamente, mas ela não consegue processar essa dor fora da lógica religiosa. Começa a questionar sua salvação e acaba despejando sua angústia em Thomasin. A relação entre ambas se rompe porque a filha passa a representar tudo o que Katherine teme: desejo, autonomia e possível contaminação moral. A acusação de bruxaria nasce do acúmulo de tensão e da necessidade de dar um sentido espiritual à dor.
William também perde sustentação. No início, é o centro da autoridade da casa, mas sua incapacidade de prover alimento, agravada pela venda do cálice da esposa, corrói sua posição. A escassez pesa sobre todos: a fome, a lavoura fracassada e a insegurança diária tornam a casa um espaço de desespero. William tenta controlar a situação pela fé, mas essa mesma fé exige uma perfeição que ele não consegue entregar.
Com essa fragilidade, a estrutura familiar racha. A autoridade do pai deixa de sustentar o grupo, e, em vez de união, surge um clima geral de suspeita. Os gêmeos Mercy e Jonas acrescentam mais confusão, falando com Black Phillip como se o bode fosse uma presença viva e consciente. Em circunstâncias normais isso seria apenas imaginação infantil, mas ali vira possível indício de possessão. Tudo fica indefinido.
Black Phillip se torna um dos símbolos centrais do filme. Ele reúne a ideia do Diabo, o peso dos conflitos internos e ainda participa ativamente da trama. A cena em que ele finalmente fala com Thomasin permite leituras opostas: pode confirmar a existência do sobrenatural ou representar o instante em que ela absorve toda a lógica opressiva em que cresceu e a vira do avesso, escolhendo a liberdade por meio dessa figura proibida.
Isso se conecta ao papel da bruxa como arquétipo. Ao longo da história, a imagem da bruxa se relacionou a mulheres que fogem das normas. No contexto puritano, qualquer traço de autonomia feminina vira ameaça espiritual. No final, Thomasin assume aquilo que lhe foi sempre atribuído, não porque tenha sido corrompida, mas porque a sociedade não lhe deixou outra identidade possível. A pergunta é inevitável: o sistema fabrica o próprio “mal” que combate?
A natureza reforça esse movimento. A floresta funciona como espaço oposto à ordem puritana: lugar de descontrole, liberdade e transformação. A fazenda, ao contrário, é o território da rigidez. Quem entra na mata volta diferente: Caleb retorna arruinado; Thomasin retorna transformada. A linguagem do filme contribui para esse confinamento mental. O inglês arcaico não é detalhe estético: limita o vocabulário emocional dos personagens, aprisionando suas interpretações do mundo em termos de pecado, salvação e condenação. Sem outras palavras, não há outros sentidos possíveis.
A ideia de pecado original e predestinação aprofunda ainda mais essa prisão. A família se sente punida sem saber por quê. Dentro de uma visão calvinista, isso faz sentido: a sorte espiritual já estaria traçada. Essa noção destrói qualquer sensação de controle e alimenta uma ansiedade constante, pois qualquer desgraça pode ser vista como confirmação da própria condenação.
As relações se regem mais por projeções do que por diálogos. Cada um enxerga no outro aquilo que não suporta reconhecer em si. Katherine deposita sua culpa em Thomasin; Caleb transforma seu desejo em medo religioso; William cobre seu fracasso com fervor; os gêmeos projetam imaginação em Black Phillip. Esse conjunto de projeções cria uma realidade paralela que vai se deformando cada vez mais.
O clímax surge dessa lógica. A morte de William pelas investidas de Black Phillip marca o fim definitivo de sua autoridade. A morte de Katherine pelas mãos de Thomasin encerra a família. Resta apenas um vazio. É nesse vazio que o final ganha ambiguidade. A cena do sabá pode ser vista como libertação, Thomasin finalmente escapa da opressão, ou como entrega ao mal. Seu riso final não oferece resposta; amplia o enigma.
O filme constrói, do início ao fim, um ciclo fechado: crenças rígidas somadas ao isolamento e à escassez geram paranoia; a paranoia produz acusações; as acusações desmontam o grupo; o desastre reforça as crenças iniciais. Ninguém consegue escapar dessa engrenagem. Apenas Thomasin rompe o ciclo, mas ao custo de abandonar por completo o mundo em que foi criada. A obra deixa no ar uma questão incômoda: num ambiente tão sufocante, a liberdade sempre parecerá pecado?
Essa irresolução final é parte do impacto do filme. Ele não entrega respostas, apenas expõe com precisão como fé, medo e desejo podem se acumular até formar algo que, para os personagens, soa inevitável e indecifrável.
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