A BRUXA DE BLAIR (1999) - FILM REVIEW
Fake News
O termo se tornou popular em 2016 durante a campanha presidencial americana, quando um candidato e o CEO de um canal de notícias de televisão se uniram para difamar a concorrência. A origem é incerta e evidentemente, muito mais antiga. Mas com o avanço de outros meios de comunicação (além dos jornais, rádios...) e o celular ganhando relevância na sociedade, eles se tornaram um perfeito condutor de assuntos, verdadeiros ou não.
E o potencial de persuasão das fake news é impressionante. Mesmo com tantos canais alertando sobre elas. Agora imagine o ano de 1999. O celular ainda era o Nokia (que era para fazer ligações, acredite). O VHS ainda reinava, sendo que o primeiro DVD lançado no Brasil foi Era uma Vez na América, de Sergio Leone, em 1998, algo bem distante dos streamings de hoje.
O Windows ainda era o 98, pagávamos provedor, acessávamos internet por meio de conexões discadas e para driblar as altas cobranças, a saída era usar a internet em horários mais baratos: sábado de tarde e domingo, ou após meia-noite, e com uma velocidade de... 2 megas. E ter tudo isso era ostentação.
O que nos leva para a Bruxa de Blair
A equipe do filme montou uma engenhosa teia de mentiras que levou todos a ficar na dúvida da veracidade do que vemos em cena. E estas fake news ganharam força numa época em que não havia muitos meios de conferir se a história era real, então você "comprava" a ideia ou não.
Um mocumentário, chamado "A Maldição da Bruxa de Blair" (1999), foi criado pelos mesmos diretores do filme, e foi lançado como uma introdução de 44 minutos à narrativa. Foi transmitido pela Sci-Fi Channel (agora SyFy) em 11 de julho de 1999, duas semanas antes do lançamento de "A Bruxa de Blair" nos cinemas pela Artisan Entertainment.
Este documentário falso apresentou entrevistas com diversos especialistas em folclore local, história regional, habitantes locais, cientistas, acadêmicos e policiais, todos interpretados por atores. Eles discutem a "lenda da Bruxa", várias teorias relacionadas ao desaparecimento dos cineastas e a descoberta de seu filme, tudo sendo fictício. A narração do documentário é profissional e explora em detalhes mais aprofundados alguns dos eventos apresentados no subsequente filme de "found footage".
Originalmente, todas essas filmagens de entrevistas e investigações estavam planejadas para serem incluídas no lançamento do filme nos cinemas, sendo intercaladas com as cenas de "found footage" filmadas pelos personagens do filme principal: Heather, Mike e Josh. No entanto, os diretores Eduardo Sánchez e Daniel Myrick decidiram que haviam capturado material suficiente de "found footage" para criar um filme independente, sem enquadrar a história como um documentário profissionalmente produzido.
Assim, optaram por compilar todas as filmagens das entrevistas em um filme separado e mais curto, apresentando-o como um documentário legítimo que serviu como uma prévia para o filme. E ele acabou se revelando um dispositivo de marketing crível, convincente e, em última análise, bem-sucedido para o filme principal.
Quando A Bruxa de Blair estreou no Festival de Cinema de Sundance à meia-noite de 23 de janeiro de 1999, sua campanha de marketing promocional listou os atores como "desaparecidos" ou "falecidos". Isto foi como jogar gasolina em algo em chamas. O filme custou 60 mil dólares e rendeu quase 250 milhões.
Acredita-se que "A Bruxa de Blair" seja um dos primeiros filmes amplamente lançados e comercializados principalmente pela internet. Kevin Foxe tornou-se produtor executivo em maio de 1998 e trouxe a Clein & Walker, uma empresa de relações-públicas, para apoiar o projeto.
O site oficial do filme foi lançado em junho, apresentando relatórios policiais falsos, entrevistas "no estilo cinejornal" e respostas a perguntas sobre os alunos "desaparecidos". Esse marketing online aumentou a aura de autenticidade em torno do estilo de "found footage" do filme, provocando debates na internet sobre se o filme era um documentário da vida real ou uma obra de ficção.
Algumas das filmagens foram exibidas durante o Festival de Cinema da Flórida e durante essas exibições, os cineastas se empenharam em promover os eventos do filme como fatos reais, inclusive distribuindo panfletos em festivais como o Sundance, solicitando ao público qualquer informação sobre os alunos "desaparecidos".
A estratégia de marketing incluía a apresentação dos personagens como desaparecidos, enquanto supostamente investigavam na floresta em busca da mítica Bruxa de Blair, utilizando cartazes de pessoas desaparecidas para envolver os espectadores na trama.
Após a exibição no Sundance Film Festival, a Artisan Entertainment adquiriu os direitos do filme e uma estratégia de distribuição foi desenvolvida e implementada por Steven Rothenberg. O trailer da Bruxa de Blair foi exibido em 40 campus universitários nos Estados Unidos como parte de uma estratégia para construir um boca a boca entusiástico em torno da produção.
Um trailer, com duração de 40 segundos, passou antes da estreia de "Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma" em junho, ampliando ainda mais a visibilidade do filme. O jornal USA Today noticiou que "A Bruxa de Blair" foi o primeiro filme a se tornar viral, mesmo tendo sido produzido antes da existência de muitas das tecnologias que facilitam a viralização nos dias de hoje.
Esta capacidade de criar um buzz marcante em torno do filme antes de seu lançamento foi um ponto de virada na indústria cinematográfica e demonstrou o poder do marketing inovador e do boca a boca para criar interesse e entusiasmo em torno de uma produção cinematográfica.
Lenda fake
"Quem conta um conto aumenta um ponto" é um dito popular que você associa facilmente ao conceito de "lenda", pois ela é uma narrativa que mistura fatos reais com imaginários para explicar acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais, e na maioria das vezes, forjado com base em invenções.
O pano de fundo de A Bruxa de Blair é uma lenda criada por Sánchez e Myrick, detalhada em A Maldição da Bruxa de Blair. Nela, são descritos detalhes envolvendo assassinatos e desaparecimentos de alguns moradores de Blair, Maryland (uma cidade fictícia no local de Burkittsville, Maryland) dos séculos XVIII a XX.
Os residentes creditaram esses eventos ao espírito de Elly Kedward, uma habitante de Blair acusada de bruxaria em 1785 e sentenciada à morte. A Maldição da Bruxa de Blair retrata essa lenda como verídica, incluindo artigos de jornais fictícios, filmagens, reportagens televisivas e entrevistas encenadas.
Dando corpo à mitologia fake
Ben Rock, que esteve envolvido na produção do filme e supervisionou grande parte do material, dirigiu "The Burkittsville 7" (2000), outro documentário falso envolvendo a Bruxa de Blair.
Ele "revelou" no Twitter que Rustin Parr era inocente do assassinato das sete crianças, tendo apenas sequestrado sob a influência da Bruxa de Blair. Kyle Brody, a única criança sequestrada que sobreviveu, foi identificado como o verdadeiro assassino. Segundo o mocumentário, Kyle era uma criança mentalmente perturbada que demonstrava gosto por torturar animais e que facilmente assassinava as outras crianças sob a influência da Bruxa de Blair.
Lenda vs Realidade
Os três protagonistas acreditavam que a Bruxa de Blair fosse uma lenda real durante as filmagens, embora, é claro, soubessem que o filme seria falso. Somente após o lançamento, eles descobriram que toda a mitologia foi inventada pelos criadores do filme.
A mãe de Heather Donahue recebeu cartões de condolências de pessoas que acreditavam que sua filha estava realmente morta ou desaparecida.
Found Footage: a ferramenta
Os found footage referem-se a um gênero de filmes ou vídeos apresentados como se fossem gravações descobertas de eventos reais. A filmagem é normalmente retratada como crua e não editada, muitas vezes filmada por cineastas amadores ou indivíduos usando câmeras portáteis. O conceito de found footage adiciona uma sensação de realismo e autenticidade à história contada.
Embora "A Bruxa de Blair" tenha popularizado o found footage nos cinemas, o conceito tem raízes anteriores. Um exemplo notável é o filme "Cannibal Holocaust" de 1980, que retrata uma expedição perdida na Amazônia, apresentando imagens supostamente encontradas que documentam os eventos horríveis que ocorreram. Esse filme é frequentemente considerado um precursor do gênero.
Características principais:
Imersão e realismo são os objetivos primordiais do found footage, buscando envolver o público e fazê-lo sentir como se estivesse testemunhando eventos reais. A ausência de uma produção cinematográfica refinada e a estética crua do material filmado contribuem para essa sensação de autenticidade.
Utilizando uma abordagem de câmera subjetiva, a maioria dos filmes de found footage é capturada a partir da perspectiva dos personagens, frequentemente utilizando câmeras de mão. Esse método proporciona ao público a experiência de visualizar os acontecimentos pelos olhos dos próprios personagens, intensificando a imersão e o suspense.
Embora o found footage possa ser aplicado a diversos gêneros cinematográficos, é mais comumente associado aos filmes de terror. A natureza documental e o realismo desse estilo permitem aos cineastas criar narrativas aterrorizantes e atmosferas carregadas de tensão.
A estética bruta e desordenada do found footage pode gerar uma sensação de desconforto no público. A ausência de uma trilha sonora elaborada, a utilização de imagens tremidas e a iluminação limitada contribuem para estabelecer uma atmosfera incômoda e claustrofóbica.
Filmando a bruxa
A Bruxa de Blair recebeu esse nome em homenagem à Blair High School, a escola que a irmã de Eduardo Sánchez frequentou. A história foi originalmente planejada para ser sobre três cineastas homens perdidos na floresta. No entanto, Eduardo Sánchez e Daniel Myrick ficaram tão impressionados com a audição de Heather para o papel que decidiram escalá-la como a cineasta principal com dois assistentes homens.
Um filme como este, com um orçamento tão baixo, o planejamento era essencial, principalmente pelos atrasos comuns que ocorrem quando um filme é feito em locação. Foram necessários apenas oito dias para a realização do longa. Durante toda a produção na floresta, os diretores deixaram notas e instruções para os atores sobre para onde ir em seguida.
Eles mantiveram contato com os atores Heather Donahue, Michael C. Williams e Joshua Leonard por walkie-talkies, para garantir que os três não se perdessem durante a jornada.
No terceiro dia, os atores se perderam completamente (segundo consta, eles se perderam pelo menos três vezes), e seguiram o caminho errado e acabaram na casa de alguém. Naquela noite, os diretores permitiram que os atores ficassem em um hotel próximo e retomaram as filmagens do "terceiro dia" na manhã seguinte.
O clima mudou dramaticamente entre turnos, sendo chuvoso primeiro e ensolarado noutro momento do dia. Como resultado, muitas cenas ficaram de fora. Na "terceira noite", os diretores tentaram construir as pilhas de pedras enquanto os atores dormiam, mas o plano falhou, pois os atores os ouviram. A equipe de produção então gritou a palavra-código predefinida "taco", indicando para desmontar o cenário e permanecer dentro da tenda.
Os três receberam apenas um esboço de 35 páginas da mitologia que sustentava o enredo antes do início das filmagens. Todas as falas foram improvisadas e a maioria dos eventos do filme era desconhecida pelos três atores previamente, o que frequentemente os pegava de surpresa diante das câmeras.
Eles foram instruídos a entrevistar os moradores da cidade, os quais eram frequentemente plantados pelos diretores sem o conhecimento dos atores. Isso resultou em expressões autênticas nos rostos dos atores, sem ensaios prévios.
A mulher na rua, compartilhando sua história sobre a Bruxa de Blair e os eventos em Burkittsville, era simplesmente uma mulher aleatória encontrada pelos atores. Ela improvisou toda a história naquele momento. Após as filmagens, os diretores tentaram, sem sucesso, localizar a mulher para obter sua assinatura em um termo de autorização para colocá-la no filme.
Durante a produção, uma das mensagens deixadas para os atores revelou a Mike que ele seria responsável por destruir o mapa. Mike improvisou na cena ao chutá-lo no rio, acreditando que Heather e Josh tinham testemunhado seu ato. Ele carregou esse segredo por grande parte das filmagens naquele dia antes de escolher o momento apropriado para compartilhar essa informação com os outros dois atores.
As reações de Heather, Mike e Josh, quando descobrem que caminharam para o sul o dia todo e acabaram no mesmo lugar, são reais; eles estavam genuinamente chateados por caminharem o dia todo em vão.
Na cena em que Heather descobre o pacote de gravetos amarrados, o designer de produção Ben Rock estava atento para capturar sua reação ao olhar para dentro. Embora ela tenha descartado o pacote sem abri-lo, Rock informou à equipe de produção, que então a instruiu a voltar e investigar seu conteúdo. Os dentes encontrados no pacote pertenciam ao dentista de Eduardo Sánchez e Lisa Dane, que fazia parte da equipe. O cabelo contido no pacote era, de fato, o cabelo de Joshua Leonard.
Os sons de crianças ouvidos do lado de fora da tenda em uma cena específica foram, na verdade, registros de crianças que residiam do outro lado da rua da mãe de Eduardo Sánchez. Antonio Cora foi responsável por capturar esses sons, que incluíam as crianças brincando, lendo e rindo. Durante a filmagem da cena, a equipe de produção utilizou três aparelhos de som para reproduzir esses áudios do lado de fora da tenda.
Segundo Michael C. Williams, esse momento foi descrito como um dos mais aterrorizantes durante as filmagens, adicionando uma camada de tensão e realismo à cena.
Já os estalos na floresta eram feitos pelos diretores e seus assistentes caminhando até o perímetro do acampamento, quebrando gravetos e jogando-os em várias direções.
Ruindo o grupo
Curioso como desde o início, percebemos uma animosidade velada entre os três, como Heather dizendo a Michael sobre ele não ser pontual (de fato, ele atrasou). Para promover a discórdia entre os atores, os diretores deliberadamente deram a eles menos comida a cada dia de filmagem.
Heather e Mike compartilham uma atitude um tanto antagônica um com o outro. No comentário, os diretores revelaram que eram Heather e Joshua que estavam discutindo a maior parte do tempo (e mais acaloradamente). Quase todas as filmagens de suas discussões foram tiradas do corte final, depois que os cineastas decidiram que parecia que os dois homens estavam "se unindo" contra Heather.
Para manter o fator medo do filme, os três atores principais concordaram em permanecer no personagem durante os oito dias inteiros de filmagem. Periodicamente, se um ator tivesse que sair do personagem, os dois atores restantes também tinham que sair, mas somente após recitar coletivamente sua palavra de segurança "taco".
The end
Os gritos de Josh na cena final foram pré-gravados e tocados por alto-falantes escondidos na floresta. A última filmagem ocorreu na noite de Halloween. Originalmente planejado para encerrar um dia antes, o esgotamento da bateria da câmera devido à intensidade da luz exigiu um dia adicional de filmagens.
O close-up do rosto de Heather Donahue durante a gravação de seu vídeo de despedida não foi planejado. Donahue pretendia enquadrar todo o seu rosto, mas acabou dando zoom demais na câmera. Surpreendentemente, os diretores consideraram que a "proximidade com todas as lágrimas e catarro" contribuiu para o "realismo cru" da cena e optaram por mantê-la inalterada.
Heather e Mike não receberam informações sobre o que encontrariam no porão da casa no desfecho do filme. Mike foi orientado a subir e descer as escadas gritando por Josh antes de correr para o porão, mantendo Heather o mais afastada possível dele. Ao chegar ao porão, dois assistentes de produção vestidos de preto o agarraram e ordenaram que ficasse em um canto. Quando Heather chegou, eles a seguraram e colocaram sua câmera no chão, fazendo gestos para que parasse de gritar.
Devido a problemas de áudio, a cena precisou ser filmada duas vezes. Heather Donahue mencionou que na primeira vez estava tão assustada que começou a hiperventilar e teve que ser acalmada pela equipe antes de prosseguirem com a gravação.
Vida além de Blair
A casa usada como "casa Rustin Parr" para as cenas finais era a Griggs House, localizada no Patapsco Valley State Park, aproximadamente a 50 milhas (aprox. 80 km) a leste de Burkittsville. Construída por volta de meados de 1800 e reformada no início do século XX, a casa ficou abandonada, vandalizada e em estado de decadência por várias décadas, à medida que a vegetação ao redor crescia. Após seu uso em "Blair Witch", o Departamento de Recursos Naturais de Maryland anunciou em 1999 que a casa seria demolida por ser considerada um incômodo público e um risco para a segurança.
Os fãs do filme iniciaram uma campanha de arrecadação de fundos e uma petição para salvar a casa, e o estado concordou em conceder à Griggs House, um adiamento pendente de avaliação futura. No entanto, o adiamento foi breve, pois o estado procedeu com a demolição da casa em 2000, sem qualquer anúncio público. A decisão foi provavelmente influenciada pela invasão frequente da casa por equipes de caçadores de fantasmas, aventureiros em busca de emoções e colecionadores de recordações.
Uma das câmeras de vídeo usadas pelos atores foi comprada na Circuit City. Após a conclusão das filmagens, os produtores devolveram a câmera para um reembolso, fazendo com que o dinheiro do orçamento rendesse ainda mais.
A Miramax perdeu a oportunidade de adquirir e distribuir o filme. A decisão foi tomada pelo executivo Jason Blum, que na época não previu que o filme seria um sucesso. Posteriormente, Blum se tornou conhecido por sua produção de outro filme de terror found footage extremamente lucrativo, "Atividade Paranormal" (2007).
Blum mostrou que aprendeu com o erro... E para finalizar, sempre que possível, cito Stephen King e/ou John Carpenter nos textos, e com Bruxa de Blair não seria diferente.
Enquanto King estava no hospital, se recuperando do acidente de carro quase fatal (ele foi atropelado por uma minivan em 19 de junho de 1999, quando caminhava perto de sua casa de veraneio em North Lovell, Maine), seu filho levou uma fita VHS do filme para assistirem. Em algum momento de tensão do filme, King pediu ao filho para desligar, dizendo que "era muito assustador".
Já John Carpenter dirigiu Halloween (1978), o filme independente de maior bilheteria de todos os tempos, um recorde mantido até A Bruxa de Blair. Ou seja, de um ponto de vista, Bruxa de Blair marcou King, Carpenter e até Jason Blum.
Se considerarmos que foi uma produção de 8 dias, quase sem dinheiro, até que o filme A Bruxa de Blair conseguiu ir longe demais...
Aliás, nem foi um filme, não é?! Foi uma filmagem encontrada...














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