SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA (2025) - UM ENSAIO SOBRE O FILME
Há dores que não pedem explicação. E talvez seja justamente isso que as torne insuportáveis. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria constrói toda a sua força a partir dessa impossibilidade: a de aceitar que algo decisivo tenha acontecido sem causa moral, sem erro humano, sem alguém a quem responsabilizar. A morte da filha da protagonista não poderia ter sido evitada. O filme deixa isso claro, quase com crueldade. Ainda assim, tudo o que vemos em cena nasce da recusa em aceitar essa verdade simples e devastadora. O que se segue não é luto apenas, mas culpa — uma culpa que não decorre de uma ação, mas da própria permanência no mundo depois da perda.
A personagem interpretada por Rose Byrne vive como se sobreviver fosse uma infração. Cada gesto cotidiano parece carregado de um peso invisível, como se o simples fato de continuar respirando exigisse justificativa. A culpa, aqui, não se apresenta como arrependimento, mas como estrutura de existência. Ela organiza pensamentos, comportamentos, afetos e até o humor corrosivo que atravessa o filme. Nada do que a protagonista sente é exagerado; tudo é consequência de uma lógica interna que se recusa a aceitar o acaso. Quando não há culpados, o sujeito se oferece como um.
Não por justiça, mas por necessidade psíquica. Culpar-se é uma forma desesperada de manter a ilusão de que o mundo ainda obedece a alguma ordem compreensível. Do teto da sua casa desabando à vendedora da loja pedindo sua identidade para ela comprar uma bebida (a atriz tem quase 50 anos), tudo tem um significado Paul Ricoeur escreveu que a culpa surge quando o ser humano atribui excesso de sentido a um acontecimento que escapa à razão.
No filme, isso se manifesta de maneira quase física. A protagonista não suporta a ideia de que a morte da filha tenha sido apenas o que foi. A ausência de explicação não consola; ela violenta. O acaso não oferece narrativa, e o ser humano precisa de narrativas para sobreviver. A culpa, então, aparece como uma história possível: se algo deu errado, alguém falhou; se alguém falhou, o sofrimento faz sentido. O problema é que essa lógica, embora emocionalmente compreensível, condena o sujeito a um castigo sem fim. Não há absolvição para aquilo que nunca foi escolha.
O filme nunca afirma que a personagem é culpada. Quem afirma isso é ela mesma, em cada gesto de autossabotagem, em cada pensamento violento que retorna contra o próprio corpo. A raiva que atravessa a narrativa — e que dá título ao filme — não é dirigida ao mundo, mas a si. “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” não é uma ameaça ao outro, mas a confissão de uma impotência. Não se trata de desejo de ferir, mas de desejo de romper. A violência imaginada surge como a única forma de sentir algum tipo de agência em um universo que retirou dela a possibilidade de escolha. Afinal, a personagem tem as pernas.
Hannah Arendt distingue responsabilidade de culpa. Para ela, há situações em que somos responsáveis por responder ao mundo, mas não culpados pelo que aconteceu. O filme parece existir exatamente nesse espaço intermediário. A protagonista é responsável por continuar viva, por atravessar os dias, por sustentar uma existência que perdeu seu eixo. E isso, paradoxalmente, pesa mais do que qualquer culpa objetiva. Continuar exige energia, e gastar energia depois de uma perda irreparável pode parecer uma traição. O filme sugere, sem nunca verbalizar, que a culpa se torna uma forma de fidelidade. Sofrer é permanecer ligada à filha; aliviar-se seria abandoná-la.
Essa é talvez a armadilha emocional mais cruel apresentada pela narrativa. A culpa se traveste de amor. Ela se apresenta como prova de vínculo, como sinal de que a perda ainda importa. Simone Weil escreveu que o ser humano prefere uma dor com significado a um vazio sem explicação. A protagonista escolhe a culpa porque a alternativa seria admitir que a morte da filha não carrega lição alguma, não transforma o mundo em algo mais justo, não produz sabedoria automática. Aceitar isso exigiria um tipo de coragem que o filme jamais romantiza. Há perdas que não ensinam nada. Há dores que não melhoram ninguém. E aceitar isso é, muitas vezes, mais difícil do que continuar se punindo.
O humor negro que atravessa o filme não alivia essa dor; ele a expõe. Rir aqui não é catarse, é defesa. O riso surge como último recurso para não colapsar completamente. Trata-se de uma comédia sombria que entende que o humor não cura, apenas suspende o desespero por alguns segundos. Ao rir, a personagem não se perdoa; apenas respira. E talvez isso seja o máximo que o filme permite. Não há arcos de superação, não há aprendizado redentor, não há promessa de que a culpa será resolvida. O que existe é o retrato honesto de alguém vivendo como se o sofrimento fosse uma obrigação moral.
Esse ponto aproxima o filme de quem assiste de maneira quase desconfortável. Porque, em algum nível, muitos reconhecem esse mecanismo. Quantas vezes a culpa se instala não porque erramos, mas porque sobrevivemos? Quantas vezes nos sentimos em dívida com o passado simplesmente por termos seguido adiante? O filme não transforma isso em discurso terapêutico. Ele apenas observa. E, ao observar, permite que o espectador se veja sem ser julgado.
A culpa, no universo do filme, não é um sentimento episódico; é um estado permanente. Ela infiltra o corpo, molda a postura, altera a forma como a personagem ocupa os espaços. O corpo de Rose Byrne não é filmado como presença segura, mas como estrutura cansada, sempre à beira do colapso. O corpo carrega aquilo que a mente não consegue resolver. Cada movimento parece dizer: ainda estou aqui, e isso me custa tudo. O título do filme reforça essa ideia de impotência física e existencial. Ter pernas não significa poder ir embora. Ter força não significa ter escolha. Às vezes, tudo o que se tem é a consciência dolorosa de que não há para onde correr.
O mais perturbador é que o filme não tenta corrigir essa culpa. Ele não oferece discursos de aceitação nem cenas de libertação simbólica. Ao recusar a catarse, a narrativa respeita a complexidade do sofrimento real. Na vida, a culpa raramente desaparece de forma limpa. Ela se transforma, se dilui, às vezes retorna. O cinema costuma mentir sobre isso. Este filme não. Ele entende que sobreviver não é vencer, mas insistir. E insistir, quando se carrega uma culpa sem crime, pode ser o ato mais exaustivo de todos.
Há algo profundamente humano na recusa da protagonista em se absolver. Não porque ela mereça punição, mas porque perdoar-se significaria aceitar que o mundo permite injustiças irreparáveis. A culpa, então, funciona como último escudo contra o absurdo. Enquanto ela se culpa, ainda há ordem. Enquanto sofre, ainda há causa. O problema é que essa ordem é construída sobre a própria destruição.
Talvez o gesto mais generoso do filme seja não condenar essa escolha, mas também não exaltá-la. Ele não diz que a culpa é nobre, nem que é patológica. Ele apenas a mostra como aquilo que é: uma tentativa desesperada de continuar amando quando o objeto do amor já não está mais presente. Nesse sentido, a culpa aparece como amor sem lugar. Um amor que não encontra onde repousar e, por isso, se volta contra quem sente.
Para quem assiste, o filme deixa uma pergunta silenciosa, quase incômoda: em que momento a culpa deixa de ser memória e passa a ser violência contra si mesmo? Não há resposta pronta. E talvez essa seja a forma mais honesta de tratar o tema. Algumas dores não pedem solução, apenas reconhecimento. Algumas culpas não precisam ser combatidas de imediato, mas compreendidas. Não para serem mantidas, mas para que deixem de governar tudo.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria não é um filme sobre aprender a viver depois da perda. É um filme sobre o custo de continuar vivendo quando não se aceita que certas coisas simplesmente acontecem. Ele não ensina a perdoar, não ensina a seguir em frente, não ensina a encontrar sentido. O que ele oferece é algo mais raro: a permissão de olhar para a culpa sem transformá-la em falha moral. E, talvez, ao fazer isso, ele permita ao espectador algo ainda mais delicado — a possibilidade de pensar que amar não exige sofrer para sempre, e que a ausência de culpa não precisa significar esquecimento.
Nem toda dor precisa ser carregada como prova. Algumas perdas continuam existindo mesmo quando paramos de nos punir. E talvez o verdadeiro gesto de amor, aquele que o filme jamais verbaliza, mas sugere em silêncio, seja aceitar que continuar vivo não é uma traição aos mortos. É apenas a condição inevitável de quem ficou.

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