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MARTY SUPREME (2025) - FILM REVIEW

Marty...

Reisman.

A história de Marty Reisman, o personagem da vida real no qual Marty Supreme é baseado, é uma das trajetórias mais incomuns do esporte norte-americano — sobretudo porque foi moldada muito mais fora das estruturas oficiais do que dentro delas. Reisman nasceu em 1930, em Nova York, e cresceu em um ambiente socialmente instável. Ainda muito jovem, abandonou a escola e passou a circular por clubes recreativos, salões e centros comunitários espalhados pela cidade. Foi nesse circuito informal que teve seu primeiro contato com o tênis de mesa.

Desde cedo, Reisman também jogava por dinheiro, apostando em partidas disputadas em clubes, bares e salões onde atuavam amadores e semiprofissionais. Desse contexto surgiu o estilo de jogo que o tornaria famoso: agressivo, veloz e pouco ortodoxo, com grande parte da partida sendo conduzida pela observação constante do adversário, pela capacidade de “lê-lo”, de pensar em movimento e, por fim, de intimidá-lo psicologicamente.

Em 1958, tornou-se campeão nacional de simples masculinas dos Estados Unidos, o que mudou o rumo da sua carreira. A surpresa tomou conta do meio esportivo, porque Reisman não tinha a formação tradicional nos clubes e centros de treinamento. Em 1960, iria igualar a proeza, afirmando-se como um dos maiores nomes do tênis de mesa norte-americano daquela década.

Quando passou a jogar profissionalmente, Reisman tornou-se conhecido por sua forma de jogar imprevisível e ofensiva, por seu temperamento à mesa e por seu comportamento emotivo, provocando verbal e gestualmente os oponentes e tentando desestabilizá-los. No ritmo das competições oficiais, ele nunca abandonou de fato o circuito de exibições e desafios informais. Por todo o país, realizou espetáculos durante décadas, com demonstrações que se tornaram um modelo de jogador magnético, capaz de transformar cada partida em um espetáculo.

Um dos traços centrais de sua resposta quando perguntado sobre como narrar a própria vida estava na maneira como Reisman costumava contar histórias sobre apostas escandalosas, vitórias improváveis e confrontos lendários — muitas vezes em várias versões diferentes, dependendo do público. Alguns desses relatos eram confirmados por testemunhas, enquanto outros eram claramente exagerados. Esse exercício não era percebido apenas como vaidade, mas como uma extensão de sua persona pública: a do atleta que se vende como uma lenda em tempo real.

Nos anos que se seguiram após o seu auge, Reisman continuou a ter envolvimento com este último. Trabalhou como treinador, comentarista e promotor de tênis de mesa nos Estados Unidos. Ele também continuou a competir em categorias veteranas, com títulos em faixas etárias mais elevadas, o que se tornou em sua imagem da longevidade esportiva. Em reconhecimento à sua importância histórica e ao impacto da sua trajetória fora do padrão, Marty Reisman está no Hall da Fama do Tênis de Mesa dos EUA.

Ele morreu em 2012 com 82 anos de idade, e o principal legado que deixou não foi exatamente títulos ou números, mas um personagem incomum para o esporte americano: um atleta que construiu sua carreira na fronteira entre o jogo profissional, a cultura urbana e a autopromoção interminável. Mais do que um campeão, Reisman ficou associado à percepção entre os jogadores australianos de que, no tênis de mesa norte-americano do pós-guerra, poderia acontecer a qualquer um transformar um esporte de salão numa forma de identidade, uma chance de sobrevivência social e um local para elaborar um mito pessoal. 

Marty...

Mauser.

Marty Supreme é o primeiro longa-metragem dirigido por Josh Safdie sem a colaboração direta de seu irmão, embora a produção permaneça conjunta com Ronald Bronstein. Desde o início, Safdie deixou claro que não se trataria de uma cinebiografia tradicional de Marty Reisman, mas sim de um recorte dramatizado e estilizado de sua trajetória, centrado principalmente em seus anos formativos jogando nas ruas de Nova York, além de abordar de forma pontual seu ingresso relativamente tardio no circuito competitivo oficial.

As principais diferenças em relação aos fatos históricos residem na compressão temporal, na fusão de personagens e na reorganização dramática dos acontecimentos. Episódios históricos extremos são abordados de maneira lateral e fragmentária, subordinados à jornada do protagonista.

Para dar forma a esse período, Safdie recrutou o veterano diretor de arte Jack Fisk, responsável por idealizar toda a reconstrução da Nova York da década de 1950. Fisk e sua equipe decidiram que, em vez de depender extensivamente de efeitos digitais, deveriam intervir diretamente no ambiente urbano real — bloqueando ruas, vitrines e ocultando sinalizações modernas. Entre as recriações mais complexas esteve o caminhão de entregas do jornal judaico The Forward, desenvolvido a partir de fotografias de época e inserido em cenas nas quais o edifício original do jornal aparece ao fundo.

Um dos principais cenários do filme, o Lawrence’s Broadway Table Tennis Club — cuja locação real já não existe —, foi recriado digitalmente com base em plantas arquitetônicas e uma série de fotografias em preto e branco. A equipe também teve acesso a um filme em 16 mm do prédio original, utilizado como referência cromática para a definição da paleta. Já a loja de sapatos Norkin, onde o protagonista trabalha, é real, embora sua fachada tenha sido parcialmente reconstruída com módulos cenográficos para isolá-la visualmente de um hotel moderno localizado a poucos metros.

A filmagem principal começou em Nova York em 23 de setembro de 2024, e pouco depois foram divulgadas as primeiras imagens de Timothée Chalamet caracterizado no papel. A produção foi concluída em 5 de dezembro de 2024, sendo um dos últimos diálogos gravados uma cena entre Odessa A’zion e Fran Drescher.

Mesmo nas sequências ambientadas fora de Nova York, a lógica de produção manteve-se pragmática. Safdie acompanhou de perto o trabalho de design de produção, demonstrando atenção especial aos detalhes mais cotidianos da paisagem urbana, como o acúmulo de lixo nas ruas. O designer de produção Adam Willis chegou a sugerir que os resíduos cenográficos fossem umedecidos durante as filmagens para intensificar a sensação de realismo e de ambiente vivido.

Em fevereiro de 2025, uma unidade menor viajou ao Japão para filmagens adicionais, com apenas uma semana de preparação e apoio de uma equipe local. Com orçamento estimado entre 60 e 70 milhões de dólares, o longa tornou-se a produção mais cara já financiada pela A24, superando Guerra Civil (2024).

A direção de fotografia ficou a cargo de Darius Khondji, que voltou a colaborar com Safdie após Joias Brutas (2019). Marty Supreme foi majoritariamente filmado em película 35 mm, com algumas tomadas digitais, utilizando câmeras Arriflex e lentes anamórficas vintage Panavision séries C e B. A proposta estética buscou não apenas recriar a textura visual associada à época, mas também adotar uma abordagem extremamente próxima dos atores. Khondji descreveu a intenção como filmar os personagens “como se vistos através de uma lupa”, privilegiando lentes longas e enquadramentos comprimidos.

O elenco de apoio inclui Odessa A’zion, Fran Drescher, Géza Röhrig e Kevin O’Leary como Milton Rockwell. A escalação de O’Leary foi incomum: após dificuldades em encontrar o intérprete ideal, Safdie e Bronstein optaram por contatar O’Leary, milionário e investidor, muito reconhecido pelo reality Shark Tank. Já o personagem de Röhrig é inspirado no mesa-tenista polonês Alojzy “Alex” Ehrlich, cuja história real inclui anos de prisão em Auschwitz, transferência para Dachau e sobrevivência.

Chalamet foi incentivado por Safdie a executar pessoalmente várias cenas físicas. Em uma sequência inicialmente planejada para dublê, o ator insistiu em realizá-la; após a quebra de um objeto cenográfico, a cena acabou sendo filmada com um item real. A sequência em questão envolve uma raquete e as nádegas do ator.

A aparência do protagonista foi considerada central para a mise-en-scène. Safdie solicitou que Chalamet utilizasse óculos sobre lentes de contato para alterar visualmente o formato dos olhos. O maquiador Michael Fontaine aplicou marcas de acne, sardas e microlesões para conferir um aspecto mais áspero e condizente com o universo urbano retratado.

Para as cenas de tênis de mesa, Chalamet treinou durante meses com Diego Schaaf e o ex-olímpico Wei Wang. Seu preparo, na prática, vinha sendo desenvolvido desde 2018, quando passou a levar uma mesa portátil durante filmagens de outros projetos. Algumas escolhas narrativas foram alteradas na montagem. Um epílogo originalmente previsto foi removido, assim como ideias mais excêntricas discutidas durante o desenvolvimento do roteiro. Entre elas, uma proposta de Kevin O’Leary envolvendo uma revelação fantástica sobre seu personagem.

A pós-produção foi finalizada na véspera da estreia no Festival de Cinema de Nova York. A correção de cor foi realizada por Yvan Lucas, em colaboração direta com Khondji. Foram gerados um DCP em 4K e cópias em 70 mm e 35 mm. Embora Safdie não tivesse direito contratual ao corte final, a A24 apoiou integralmente sua versão.

Com pouco mais de 150 milhões em caixa, o filme se tornou o maior sucesso da A24 até então, superando justamente Guerra Civil.

Marty...

Supreme.

No filme, vemos um processo contínuo em que o personagem constrói sua imagem, ajusta seu discurso e se apresenta em público. A narrativa combina duas ideias centrais: o mito do “homem que se fez sozinho” e a importância da atuação social. Marty insiste na ideia de que venceu por conta própria. Ele se descreve como alguém que teve sucesso fora das instituições, dos treinamentos formais e dos caminhos convencionais. Essa postura se relaciona ao conceito de autoeficácia percebida, de Albert Bandura — a crença de que a pessoa controla os resultados da própria vida principalmente por esforço e habilidade. No filme, essa crença guia as decisões de Marty e ajuda a explicar por que ele assume tantos riscos.

Ao mesmo tempo, o roteiro deixa claro que sua ascensão não acontece sozinha. Ela depende de uma rede informal: clubes marginais, apostadores, intermediários e jogadores mais experientes. O discurso do mérito individual funciona como uma simplificação que ajuda Marty a manter uma identidade estável em um ambiente instável. A ideia de ascensão social acaba sendo moldada pela forma como ele conta sua própria história.

Nesse sentido, Marty usa sua narrativa pessoal como proteção. Ao reforçar a imagem de total autonomia, ele reduz a sensação de vulnerabilidade. A história que ele conta organiza seu passado, explica fracassos e orienta seus próximos passos. O filme sugere que esse discurso não é apenas para os outros, mas também para ele mesmo.

A maneira como Marty controla sua imagem pode ser entendida pelo conceito de gerenciamento de impressões, de Erving Goffman. Em muitas situações, ele parece calcular o efeito de seus gestos, provocações e relatos. Seu comportamento à mesa, suas falas e até seus exageros servem para influenciar como os outros o veem. O filme quase não mostra momentos em que ele abandona essa encenação.

Embora Marty tenha talento esportivo, o roteiro destaca que seu maior diferencial é moldar a percepção dos outros. Ele sabe quando parecer frágil, imprevisível ou dominante. Isso se aproxima da ideia de capital simbólico, de Pierre Bourdieu: o reconhecimento não vem apenas das vitórias, mas também da imagem que ele consegue impor.

Assim, a figura do self-made man aparece como algo cuidadosamente construído. Marty não inventa tudo, mas seleciona lembranças, esconde dependências e dramatiza dificuldades. Sua biografia vira uma ferramenta de negociação social. O filme também mostra Marty organizando sua identidade como uma história coerente, ideia associada à identidade narrativa de Dan McAdams. Derrotas viram provas de caráter, conflitos se tornam momentos decisivos e o passado passa a ser tratado como material dramático.

Com o tempo, Marty se torna dependente dessa persona. Demonstrar fragilidade ou aceitar um papel menor ameaça a imagem que sustenta sua posição. O sucesso deixa de ser apenas um objetivo prático e passa a servir como confirmação constante da história que ele criou sobre si. Essa construção afeta também suas relações. Pessoas próximas passam a ocupar papéis funcionais — aliados, obstáculos ou plateia. O vínculo afetivo perde espaço para o estratégico.

Ao longo do filme, o mito do “homem que se fez sozinho” e a fabricação da persona se misturam. Marty não apenas acredita nessa versão; ele precisa mantê-la publicamente. A fronteira entre talento real e narrativa construída começa a definir não só como os outros o veem, mas como ele próprio passa a existir.


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