MIRELLA D'ANGELO - RESPONDE ÀS 7 PERGUNTAS CAPITAIS
Mirella D'Angelo é uma atriz italiana nascida em 16 de agosto de 1956, em Roma, Itália. Ela é mais conhecida por sua atuação em filmes europeus durante as décadas de 1970 e 1980, especialmente no gênero de horror, fantasia e cinema autoral. Com uma presença marcante e um talento refinado, Mirella construiu uma carreira marcante, muitas vezes interpretando personagens femininas fortes, sensíveis e enigmáticas.
Seu primeiro grande papel veio em "Calígula" (1979), produção polêmica com direção artística de Tinto Brass e financiamento da revista Penthouse. No filme, ela interpretou Livia, um símbolo de inocência e beleza em meio à decadência do Império Romano. Essa atuação a projetou internacionalmente.
Em 1982, ela protagonizou "Tenebre", clássico do cinema de horror dirigido por Dario Argento, no papel de Tilda, uma jornalista crítica e inteligente. O filme consolidou seu status como uma das musas do giallo italiano.
1) É comum lembrarmos com carinho do início da nossa relação com o cinema. Os filmes ruins que nos marcaram, os cinemas frequentados (que hoje, provavelmente, estão fechados), as extintas locadoras de VHS e DVD que faziam parte do nosso cotidiano. Você é apaixonada por cinema? Conte um pouco de como é sua relação com a 7ª arte.
M.D.: Olá, Marcus. Prazer em te conhecer. A primeira pergunta é interessante, porque, quando eu era muito jovem, comecei como modelo. Eu estava muito interessada em viajar e, assim, desde muito nova, vi uma maneira de viajar por meio da moda e da fotografia. E, como meu corpo, por volta dos 14 anos, já estava bem adequado ao mundo da moda, porque eu tinha características, como ter pernas muito finas, que na sociedade poderiam ser consideradas finas demais, mas eram perfeitas para ser modelo.
Então, esses traços do nosso corpo, quando somos diferentes de outras pessoas, às vezes são uma bênção, porque me introduziram muito rapidamente no mundo da moda desde muito jovem. Comecei a modelar em Roma e fui abordada por uma agência de fotomodelos para revistas de moda.
E fui escolhida por uma grande fotógrafa, com 17 anos, uma mulher chamada Eva Sereny, que me escolheu para a capa da revista Sunday Times Magazine no Reino Unido. As fotos foram feitas no mar, na Itália, e eram muito, muito bonitas. Então as agências inglesas começaram a me procurar, e eu já tinha uma agência em Roma; depois vieram agências da Inglaterra, de Londres.
Eva Sereny era a primeira fotógrafa da Sunday Times Magazine, uma fotógrafa maravilhosa. Então, rapidamente, minha carreira foi para um nível muito interessante e profissional, com fotógrafos incríveis, revistas maravilhosas. Eu era muito jovem, tinha 17 anos e estava trabalhando com fotógrafos incríveis e viajando.
Com 18 anos, fui abordada por um agente de cinema. E o cinema, para mim, naquela época, era principalmente Greta Garbo ou Ingrid Bergman, ou Ingmar Bergman, com Liv Ullmann, esses filmes profundos e lindos que na Itália passavam em preto e branco de manhã na televisão. E eu sempre fazia questão de ver esses filmes lindos, essas mulheres maravilhosas, mas principalmente a magia da forma como a Garbo atuava; aquilo me encantava.
Ingmar Bergman com o rosto da Liv Ullmann… eu era realmente apaixonada por esse tipo de magia na tela. Então, eu não acompanhava muito o cinema em geral. Como modelo, eu achava que minha carreira estava indo muito bem. Eu morava em Paris aos 18 anos e via que era um trabalho muito interessante.
Mas meu primeiro filme, aos 18, mudou minha opinião. Porque no set daquele primeiro filme, que foi para o Festival de Veneza em 1975, senti que ser atriz era mais interessante, no sentido de que se podia expressar mais de si mesma.
Você podia criar uma certa magia na tela, por meio das suas atuações, estudando seus personagens. Enquanto modelo, eu achava o trabalho muito mais como um objeto; era ser um objeto da indústria da moda. Às vezes eu via a parte interessante, que era a criatividade dos fotógrafos e da equipe. Mas, no cinema, nesse primeiro filme, senti que havia muito mais alma. E isso me intrigou muito, a ponto de querer estudar mais esse caminho.
Mas continuei morando em Paris, e, nesses dois anos, dos 18 aos 20, basicamente fiz moda e cinema ao mesmo tempo, porque continuavam me chamando para papéis em Roma, enquanto eu vivia em Paris. Então, voltando à sua pergunta: o cinema cresceu dentro de mim com o tempo.
E eu sempre fui muito ligada à qualidade, aos filmes bonitos. Eu, geralmente, não assistia e não assisto a filmes bobos, com roteiros fracos ou tolos. Eu gosto da magia do cinema. Na minha carreira, lembro da magia do set de Calígula, um filme com pessoas fantásticas, atores incríveis.
Mas também o cenário era mágico, cheio de artistas e artesãos maravilhosos, e uma atmosfera mágica. Assim como ver a energia e o gênio divino de Federico Fellini, ou o processo muito claro de Dario Argento quando fizemos Tenebre.
Então, foi uma jornada muito interessante na minha vida com o cinema, porque vi coisas muito especiais. E falando em jornadas, a gente também viaja para lugares incríveis. Foi muito interessante trabalhar com grandes diretores.
Minha relação com o cinema está mais ligada à minha experiência pessoal do que a simplesmente acompanhar o cinema como espectadora. Nunca fui alguém que via todos os filmes o tempo todo. Às vezes vejo os filmes indicados ao Oscar, ou filmes muito particulares que me interessam, de lugares aleatórios e desconhecidos; pode ser Europa Oriental, China, Japão, Irã, Brasil… enfim.
Não que o Brasil seja remoto, mas no sentido de que na Itália não se veem muitos filmes brasileiros, mas às vezes sim, e são lindos. Então, esses filmes de arte me interessam muito. Eu realmente amo tudo que envolve arte. E, dessa forma, minha relação com o cinema é uma relação de amor através da arte.
É muito difícil que eu consiga acompanhar um filme bobo. Eu começo e logo paro, ou nem vou ao cinema, ou, se está na televisão, simplesmente não consigo assistir. Então, sim, qualidade, arte e magia no cinema são muito importantes para mim.
2) A segunda pergunta seria: o que desencadeou seu desejo de se tornar atriz? Mas acho que já respondeu na primeira...
M.D.: Verdade, eu contei na primeira resposta.
M.V.: Bom, pode me contar como escolhe seus trabalhos...
M.D.: Para mim, sempre foi muito importante escolher os papéis que eu queria fazer. Então era uma combinação entre ser convidada pelo diretor, mas também fazer minha própria escolha. Ou seja, eu disse alguns “nãos” na minha vida e continuo dizendo “não”. Mas também, os “sim” que eu disse envolviam… como posso dizer… eu sempre encontrava algo no personagem que era muito… do que existia em mim.
Assim, eu podia interpretar aquele personagem porque eu o compreendia, e porque eu tinha partes daquele personagem dentro de mim que eu podia expressar de maneira muito genuína na tela. Então, isso era o fascínio e o amor pelo meu trabalho. Devo dizer que nunca fiz nada de que eu não gostasse e nunca aceitei algo de que eu não gostasse.
E, novamente, essa palavra "arte" é muito importante para mim, porque acho que o trabalho de um ator é quase como um chamado, no sentido de que existem tantas coisas que alguém pode fazer na vida. Então, se você escolhe ser, ou é, ator, e decide continuar nesse caminho, acho que é um dever criar algo especial, porque é uma profissão especial.
Mas, às vezes, isso exige muito sacrifício, porque você diz não a muitas coisas que talvez sejam comerciais, que talvez sejam muito populares, ou que talvez te deixem muito popular, e você não concorda com aquilo. Eu não concordo com isso, então eu não faço.
Então, você acaba sacrificando a possibilidade de se tornar muito famoso e de aí ficar cada vez mais… Enfim, digamos que a minha característica é que eu nunca planejei me tornar cada vez mais famosa, porque eu queria fazer o meu próprio ofício, o meu próprio trabalho e aquilo que eu sentia profundamente, apenas.
3) Com relação às suas preferências cinematográficas, há uma lista dos filmes de sua vida? Um Top 10 ou mesmo o filme mais importante?
M.D.: Filmes favoritos? Bem, são tantos, porque tive uma vida longa. E, como disse, eu adorava os filmes do Ingmar Bergman e, é claro, conheci, trabalhei e me tornei uma grande amiga, uma amiga muito próxima, de Federico Fellini. Então, sim, meus filmes favoritos provavelmente são do Federico Fellini.
Adoro "A Estrada da Vida" (1954), adoro "A Trapaça" (1955)! Todos deveriam ver esse filme, porque é menos conhecido, mas é maravilhoso. E eu amo todos os filmes do Fellini, realmente amo. Claro que, como ele mesmo dizia, no início fez filmes tão grandiosos que era difícil manter o mesmo nível de qualidade depois.
Mas, para mim, ele sempre entregou filmes maravilhosos, porque sempre senti algo muito profundo em suas obras, algo que me toca. Então, amo todos os filmes dele.
E, claro, filmes mais recentes… Eu amo filmes inteligentes. Então o filme pode ser uma comédia, um drama, qualquer gênero, mas, se for inteligente, me atrai. Filmes favoritos? Eu diria então: Ingmar Bergman, Federico Fellini e David Lynch. Esses são os diretores cujos filmes eu gosto. Porque, quando gosto de um diretor, geralmente gosto de todos os filmes dele.
Agora, se você me perguntar por títulos específicos, talvez mais tarde me venham à mente e eu te diga. Mas, sinceramente, eu não separo muito o filme do diretor. Recentemente, devo dizer que alguns dos filmes indicados ao Oscar me chamaram a atenção. Não sei... talvez... Há alguns filmes recentes, por exemplo, aquele com o Adrien Brody, "O Brutalista" (2024).
Gostei muito da direção, embora alguns momentos não tenham me agradado tanto. Mas adorei a atuação dele. Então, esse filme eu apreciei, achei profundo, interessante. Mas não diria que está entre os meus favoritos. Agora não me vêm exatamente os títulos à mente, mas há alguns. E devo dizer: eu não sou fácil de agradar. Então o filme tem que ser realmente incrível. Caso contrário, não gosto particularmente.
4) Como foi trabalhar nos filmes Calígula (1979), Tenebre (1982) e Hércules (1983)? Em especial, como foi conhecer e ser dirigida por Tinto Brass, Dario Argento e Luigi Cozzi em seus respectivos filmes?
M.D.: Sobre Calígula (1979):
Foi maravilhoso conhecer e trabalhar com Tinto Brass, porque ele já fazia filmes eróticos e políticos, como Salão Kitty. Seus filmes anteriores já o tornavam um diretor muito interessante, mas também muito erótico. Então eu fiquei um pouco assustada quando o conheci, mas, na verdade, fiquei muito impressionada.
Acho que Tinto Brass é um diretor fantástico. Ele é um homem muito interessante, muito... como posso dizer... culto. Ele sabe muito, é extremamente inteligente e criativo. Muito sensível também, eu senti isso. E tivemos uma conexão profissional imediata, mesmo eu tendo apenas 20 anos na época. Ele conseguiu perceber muito rapidamente que eu era a pessoa certa para viver a Livia.
Foi fascinante, porque fui com meu agente. Eu era muito jovem e não queria fazer o teste, pois sabia que Calígula era uma produção enorme em Roma, com atores incríveis. A preparação era gigantesca, era considerado um colosso. Fiquei muito intrigada em trabalhar com aquela equipe e elenco incríveis.
Então aceitei encontrá-lo e gostei muito dele. Mas, depois de três meses, enquanto eu morava em Paris, não ouvi mais nada. Até que descobri que Tinto gostou tanto de mim que chegou a testar 200 garotas em Roma, mas continuava perguntando por mim.
O diretor anterior, com quem trabalhei em Minamata, meu segundo filme, estava em contato com o produtor ou distribuidor, não sei ao certo, e eles se comunicaram. Tinto viu algum material daquele filme e simplesmente me escolheu sem precisar fazer outro teste ou audição. Foi muito bonito quando, três meses depois, me ligaram e disseram que ele me queria. Fui vê-lo novamente e ele disse: "É você." Eu escolhi você. E quero você para o papel."
Fiquei muito feliz, porque Livia representa a beleza e a inocência, algo que só alguém muito negativo e horrível gostaria de destruir. E é exatamente isso que acontece em Calígula: ele não consegue tê-la, então quer destruir tudo, o marido dela, a beleza do amor deles, a humanidade dela. Representa algo muito importante e potente no filme. E eu fiquei orgulhosa de ter feito esse papel, porque ele representa uma parte muito profunda de mim, a inocência e a pureza de Livia.
M.V.: Calígula se tornou mais reconhecido pelas suas cenas de sexo, mas é um filme que tem muito mais a dizer.
M.D.: Sobre Tenebre (1982):
Dario Argento gostou muito de mim quando me conheceu, de forma bem explícita. Disse: "Onde você estava até hoje?" E ficou claro que me ofereceria o papel. Meu agente estava receoso por ser um filme de terror, já que eu nunca tinha feito algo assim até então.
Mas o encontro com Dario foi tão bom que eu disse: "Aceitarei qualquer papel que Dario Argento me oferecer." Ele é uma pessoa adorável, muito entusiasmado ao me ver. E às vezes diretores não demonstram esse entusiasmo todo, mas Dario era incrível. Em 1982, no set, ele pulava de alegria a cada cena que gostava, parecia uma criança! Eu adorei isso nele.
O papel de Tilda era perfeito: ela é irritante como eu, muito exigente, antimachista, feminista, elegante, inteligente e sensível. Muitas das características dela são minhas. Talvez seja o personagem mais parecido comigo que já interpretei.
Trabalhar com Dario foi maravilhoso. Para mim, Tinto Brass está quase no mesmo nível de Fellini, por serem tão inteligentes, artísticos e geniais. Dario é um gênio também, mas com um lado mais inocente e entusiasta, talvez muito parecido comigo, por ser direto, sincero e preciso.
Tilda foi um personagem muito marcante. Continuo participando de convenções dedicadas a ela e aos fãs de Tenebre. Foi incrível ter interpretado uma personagem que se parecia tanto comigo e ter trabalhado com Dario, que era e ainda é um grande amigo de Luigi Cozzi.
M.V.: Conversei com Luigi e ele é, de fato, adorável. Ele roteirizou alguns dos filmes do diretor Mario Bava, que amo...
M.D.: Verdade. E, finalizando, sobre Hércules (1983):
Depois de Tenebre, conheci Luigi porque ele era amigo de Dario. Luigi estava preparando Hércules, e Dario falou de mim para ele. Eu adorei o papel da Churcha. Meu agente, naquela época, achava ótimo que eu fizesse Hércules, mas foi cético quanto a Tenebre.
Eu era o oposto: estava empolgada com Tenebre, mas com medo de Hércules, por parecer muito "filme de ação", algo que eu achava que não estava no meu caminho artístico, pois eu buscava filmes mais intelectuais, profundos e políticos. Mas aceitei porque Luigi era uma pessoa adorável, e eu também amava o papel.
Trabalhar com ele foi ótimo, muito gentil, preciso, sabe o que quer, mas dá liberdade total ao ator. Conhecer Lou Ferrigno foi divertido; ele é uma pessoa muito legal. Gostei muito do papel da Churcha.
Vejo-a como uma feiticeira, um papel mágico, mas também como uma mulher amorosa, direta, de mente forte. Ela representa a mente; Hércules, o corpo. Juntos, funcionam bem. No fim, ela sacrifica sua vida por ele. É um papel muito interessante, mais uma vez.
M.V.: E Hércules continua sendo o filme mais popular do diretor...
5) Algumas profissões rendem histórias interessantes, curiosas e, às vezes, engraçadas. E certamente, quem trabalha com cinema, tem suas pérolas. Se lembra de alguma história divertida que tenha acontecido durante a execução de algum trabalho seu e que possa compartilhar?
M.D.: As histórias nos bastidores… Bem, uma interessante e engraçada foi quando fiz um filme chamado "Sandokan - O Tigre da Malásia", que era um filme de aventura, aventura mesmo. Era com Kabir Bedi e Philippe Leroy, na Malásia. E o diretor, em 1977, me escolheu para interpretar uma princesa indiana.
Isso era algo incrível naquela época, porque hoje em dia, especialmente na Itália, se o personagem é milanês, tem que ser alguém de Milão; se é de Nápoles, tem que ser de Nápoles, e por aí vai. Internacionalmente, agora, as escolhas são bem mais rígidas: você é praticamente obrigado a escalar um ator da mesma nacionalidade do personagem.
Mas, nos anos 70, na Itália, me escolheram para interpretar uma princesa indiana. Eu sei que, quando pego um bronzeado, fico com um aspecto meio exótico. Então o diretor tinha razão, mas ele queria que eu realmente ficasse bronzeada. Por isso, tive que ir para a Malásia 15 dias antes das filmagens, só para tomar sol.
E foi isso que fiz. O lugar era incrível, a viagem foi maravilhosa. As pessoas por lá eram exóticas, lindas. Um set muito interessante. E lá estava eu, com cremes e tudo mais para pegar sol. Quando chegou o dia das filmagens, eu estava completamente queimada de sol. Foi terrível. Hoje eu rio disso, mas na época fiquei muito preocupada.
Mas a equipe era ótima, e o maquiador fez um trabalho excelente. Meu rosto estava praticamente em preto e branco, descascando, mas ele conseguiu disfarçar tudo perfeitamente. O resultado final ficou impecável. Recebi muitos elogios e críticas positivas com o passar dos anos.
Até hoje tem gente que se encanta com aquela personagem quando vê o filme. E, por trás disso, houve esse episódio maluco de queimadura de sol.
M.V.: (Risos) Verdade. Alguma outra?
M.D.: Histórias engraçadas acontecem o tempo todo. Por exemplo, com Jean-Paul Belmondo. Tive uma cena curta com ele; nós dois éramos ladrões no filme. Ele me dizia que juntos poderíamos fazer coisas incríveis. Mas ele cometeu um erro durante a fala, trocando palavras e pronomes.
Eu continuei a cena, mas comecei a rir. Ele percebeu que eu estava rindo por causa do erro dele e também começou a rir. Achamos que o diretor fosse cortar essa parte, mas, na verdade, ela ficou no filme, porque o momento foi tão genuíno, tão espontâneo. Não estávamos mais atuando, só rindo do erro, com leveza e diversão.
Um fã francês me perguntou depois se aquele diálogo era mesmo real, porque tudo parecia muito autêntico, e era mesmo.
M.V.: Alguma com Argento ou Cozzi?
M.D.: Com Dario Argento, foi a primeira vez que morri de maneira tão brutal em um filme. Sempre tive medo de filmes de terror, então estava curiosa para participar. Descobri que trabalhar com Dario no set era algo muito reconfortante, porque ele cuidava para que tudo estivesse em ordem, no lugar certo.
Era fácil até "morrer" com ele dirigindo. Um outro momento curioso com ele foi quando tive que arremessar um copo em uma colega de cena, no papel de minha namorada. Estava com raiva na cena, tinha que jogar o copo em suas pernas. Quis ensaiar, mas Dario não deixou; tinha medo de que ela se machucasse. Disse que eu devia ensaiar com uma almofada. Achei inútil, porque não dava para calcular o peso e a distância.
Na hora da filmagem, joguei o copo e acertei em cheio. A menina se machucou um pouco, e Dario ficou preocupado. Isso me mostrou o quanto ele se importa com a segurança no set, o que me tranquilizou, já que eu estava com receio de fazer um filme de terror.
Com o Hércules e Lou Ferrigno, foi uma surpresa maravilhosa. Lou é um cara super gentil, reservado, mas muito simpático. Estávamos num hotel, e eu via o tempo todo garçons levando pratos para um quarto próximo ao meu. Perguntei o que era aquilo tudo às 6h da manhã, e me disseram: “É para o Lou”.
Ele comia dez frangos, vinte ovos, tudo isso antes de treinar por três horas toda manhã. Não achei ele tão alto, talvez porque eu também sou alta e estava de botas, mas depois pesquisei na internet: ele tem 1,96 m! Realmente enorme e em excelente forma física. Mas precisava comer muito e treinar todos os dias. Ver aquilo tudo foi incrível, mostra o quanto é exigente ser um campeão como ele.
Também tive experiências ruins. Um ator num filme francês foi extremamente inconveniente comigo. Depois de dez dias, liguei para meu agente e disse que não aguentava mais. Ele disse que, se eu sentisse isso, era para sair. Toda a equipe ficou do meu lado; entenderam que o homem era rude, machista e grosseiro.
Ele acabou pedindo desculpas. Continuamos o filme, que era uma história de amor, por mais 40 dias. Nem nos cumprimentávamos fora da cena, mas, em frente às câmeras, éramos amantes e grandes amigos. Foi estranho conviver com esses dois sentimentos. Mas o resultado ficou ótimo na tela. E isso é o cinema às vezes.
6) Fazer cinema envolve muitas variáveis. Esforço, investimento, paixão, talento... E a sinergia destes elementos faz o resultado. Qual trabalho em sua carreira considera o melhor? E há arrependimentos?
M.D.: Eu não gosto muito de me arrepender, porque isso não faz muito sentido para mim. Minha filosofia de vida, desde muito jovem, provavelmente é: conhecer e pensar profundamente antes de fazer algo e, se você cometer um erro, não se arrependa. Porque, se você faz algo de forma profunda, no sentido de que você pensou sobre aquilo, então foi uma escolha sua.
E essa escolha faz parte do seu caminho, certo? Então eu realmente não tenho arrependimentos. De modo geral, claro que vejo que cometi erros às vezes na vida, não necessariamente na carreira, mas do que eu me orgulho...
Bem, eu acho que é um pouco especial ter trilhado o caminho que trilhei entre as atrizes italianas. Porque comecei em uma época em que havia muitos, muitos filmes eróticos softcore, e uma atriz podia se tornar muito famosa rapidamente se seguisse por esse caminho. E assim, você poderia ficar famosa e talvez, eventualmente, trabalhar com diretores fantásticos e importantes, porque era escolhida por atrair o público ao cinema e coisas assim.
Eu nunca fiz isso. Então, se é para me orgulhar ou não, eu não sei. Mas acho que isso é um pouco especial, porque representa liberdade, certo? E também autenticidade. Eu nunca teria gostado de fazer um filme erótico estúpido com uma mulher sendo tratada como objeto, entende? Porque, se você faz esses filmes, você é, definitivamente, uma mulher que não é tão interessante, de certo modo.
Acho que, sabe... se você faz uma mulher muito, como posso dizer, despida, forte, livre, agressiva... isso é interessante. Mas se você faz a bobinha, aquela que o cara olha por debaixo da saia, essas coisas ridículas... Eu acho que aquela época estava cheia desses filmes, e eu simplesmente evitei todos eles. Então, acho que fui muito autêntica, porque sempre propus mulheres que tinham algum sentido.
Se olho para minhas personagens em todos os filmes que fiz, elas sempre têm algo muito precioso nelas. Mesmo em um filme com o Graham Greene, num trem, interpreto uma mulher que, como posso dizer... ela está disposta a ficar com quem for necessário, mas também, por trás disso, sabemos que a personagem é muito frágil.
Então entendemos algo sobre o papel e por que ela faz aquilo. E há uma beleza ali também, porque foi escrito por Graham Greene, afinal. Mas o que quero dizer é que, em todos os filmes, todas as mulheres têm algo. Mesmo a Olivia, que é estuprada por Calígula, é linda. E, se ela não morreu, se sobreviveu, ela pode ser muito mais forte do que aquelas pessoas horríveis que a violentaram. Há uma força na alma dela.
E todos os outros papéis, devo dizer... todos eles, tudo o que fiz, posso explicar algo bonito, ou forte, ou interessante sobre cada um deles. Então, nesse sentido, eu segui meu coração. E acho que depende do que você considera sucesso na vida. Mas, se sucesso é seguir seu coração, acho que eu fiz isso. E sinto uma certa liberdade por causa disso.
Mas, quanto a arrependimento, não me arrependo de nada... Bom, teve um filme, por exemplo, que fiz na Itália, em 1978, que supostamente era um filme político sobre o feminismo. Sabe, as garotas jovens daquela época eram mulheres bastante interessantes, porque vinham da geração de 1968. Estávamos buscando liberdade de um modo que também era político. E foi um momento interessante, ainda que violento.
Mas aquele filme, na verdade, não era como eu pensava. E isso me deu um ano de insônia. Mas, muitos anos depois, descobri que esse filme tinha uma trilha sonora de uma cantora que nunca fez outro filme na vida. É uma cantora que eu realmente amo, chamada Mia Martini. Essa artista maravilhosa foi uma figura muito preciosa, porque teve uma vida difícil, mas tinha uma voz belíssima e muito talentosa.
E aquele foi o único filme em que ela aceitou participar. Então, sinto que isso também foi precioso. E, às vezes, nos arrependimentos, você procura os erros, mas talvez esses erros contenham algo que te levou a fazer outras escolhas que foram mais interessantes e bonitas.
Então, arrependimentos? Não.
7) Para finalizar, deixe uma frase ou pensamento envolvendo o cinema que representa você.
M.D.: Ah, eu não tenho nenhuma frase do cinema que me represente.
M.V.: Que interessante. Acho que é a primeira entrevistada que não tem...
M.D.: Eu definitivamente não tenho nenhuma frase do cinema que me represente.
M.V.: Obrigado pela enriquecedora entrevista.
M.D.: Obrigada. Tenha um dia maravilhoso!

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