AMOR DO FUTURO (1985) - FILM REVIEW
Há memórias televisivas que não pertencem apenas ao passado; elas continuam habitando uma espécie de território afetivo onde tempo e sensação se confundem. A Sessão das Dez, exibida pelo SBT, é uma dessas lembranças que carregam cheiro de férias, silêncio doméstico e a doce transgressão de estar acordado além da hora.
Entre 1988 e 1990, o ritual era quase litúrgico. O relógio aproximava-se das dez da noite e havia algo diferente no ar. A programação mudava de temperatura. As vinhetas tinham um peso próprio, uma solenidade discreta, como se anunciassem que aquele espaço não era destinado às crianças sonolentas nem ao público casual. Era um território noturno. Um convite.
A Sessão das Dez possuía uma identidade clara. Filmes que pareciam mais densos, às vezes mais sombrios, frequentemente carregados de suspense, ação ou drama adulto. Havia uma sensação de que aquele horário permitia histórias mais intensas, personagens mais ambíguos, atmosferas menos inocentes. Não era apenas cinema na televisão; era a televisão assumindo um tom de cinema.
Assistir naquele horário tinha um componente psicológico poderoso. A casa já estava em ritmo de desaceleração. Conversas diminuíam. Luzes apagavam-se aos poucos. O mundo exterior silenciava. A experiência tornava-se íntima. A tela brilhava na sala ou no quarto como uma janela secreta para outros universos. O som parecia mais alto, as cenas mais vívidas, os sustos mais eficazes.
E então vinha o detalhe que tornava tudo ainda mais especial: a reexibição à meia-noite. Para quem vivia aquele período, isso não era um simples recurso de grade. Era uma oportunidade quase mágica. Rever o mesmo filme poucas horas depois criava uma estranha cumplicidade com a emissora. Como se o canal dissesse: “Se você realmente gostou, pode voltar.” E muitos voltavam.
Rever não era redundância. Era prolongamento. Era saborear novamente diálogos, cenas de ação, trilhas marcantes. Era notar detalhes que haviam escapado. Era estender a noite, empurrar o sono, desafiar o cansaço. Havia algo deliciosamente indulgente em permanecer acordado enquanto o resto da casa dormia.
Esse hábito, especialmente durante as férias, ganhava outra dimensão. O compromisso com horários escolares desaparecia. A madrugada deixava de ser proibida e passava a ser território explorável. A Sessão das Dez tornava-se âncora temporal: organizava a noite, estruturava o tempo livre, marcava o início simbólico da liberdade temporária.
O Silvio Santos, figura central na construção da identidade do SBT, representava um estilo de televisão que misturava entretenimento popular e certa informalidade carismática. Dentro desse ecossistema vibrante, a Sessão das Dez surgia como um espaço de respiro cinematográfico, quase um enclave de atmosfera diferente dentro da grade.
Havia também o encanto técnico da época. A imagem analógica, às vezes granulada, as dublagens inconfundíveis, o áudio ligeiramente irregular, os intervalos comerciais que interrompiam a tensão no momento mais dramático. Tudo isso compunha uma textura própria. Imperfeições que hoje parecem parte essencial da experiência.
Mais do que os filmes específicos, o que permanece é a sensação. O corpo acomodado no sofá. O controle remoto como objeto de poder absoluto. O volume ajustado com cuidado para não acordar ninguém. A excitação silenciosa de quem sabia estar vivendo algo que, mesmo sem consciência plena, seria lembrado por décadas.
A Sessão das Dez não era apenas uma faixa horária. Era um estado de espírito. Um pacto entre espectador e noite. Uma experiência que transformava o ato banal de assistir televisão em algo quase confidencial. Hoje, em tempos de streaming imediato e catálogos infinitos, a lógica mudou. O acesso é total, o horário irrelevante, a espera praticamente extinta. Ainda assim, há algo insubstituível naquela antiga coreografia: aguardar o relógio marcar dez da noite, assistir e depois — quase como um segredo compartilhado com a madrugada — rever à meia-noite.
Era repetição que nunca soava igual. Era um cinema que parecia maior. Era a noite que parecia mais longa. Era o tempo em que férias significavam liberdade, e liberdade tinha trilha sonora de vinheta televisiva. Às vezes até “Pela Primeira Vez na Televisão”. O que me leva a “Amor do Futuro”, filme com James Spader que vi e revi em um domingo, num distante 19 de fevereiro de 1989, mesma época em que conheci Gorgo, SOS Starflight, Os Aniquiladores, Caboblanco, Fuga do Bronx, entre outros.
Por um motivo que só descobri recentemente, jamais revi. Ainda assim, algumas sequências seguiam vivas na memória, como a mulher fazendo bolas flutuar. E, finalmente, neste 15 de fevereiro de 2026 (pasme, a proximidade do dia foi absoluta coincidência), eu consegui baixar o filme em torrent com imagem bem razoável. E ainda encontrei a legenda em português, exatamente do arquivo. Mas, ao dar play, deparei-me com aquele áudio maldito, que mistura o original com dublagem em russo.
Quem é das antigas na área sabe do que estou falando. Mas nada iria me impedir de rever aquele filme inesquecível, até para reavaliá-lo. Encontrei uma cópia péssima no YouTube, mas que tem o áudio bom. Dei um play nas duas, em sincronia, mas retirei o áudio da cópia boa. E funcionou perfeitamente.
A história começa em uma noite qualquer, quando Joey esbarra por acaso em uma mulher correndo, saindo de um beco, enquanto ela é perseguida por dois caras estranhos e bastante robóticos. Ele decide ajudá-la, oferecendo uma carona, gesto que acaba se tornando o ponto de partida para uma experiência capaz de mudar sua vida para sempre. A princípio, Joey acredita que Mary seja uma desertora da União Soviética (não é piada interna com o áudio da minha cópia, é apenas outra absurda coincidência). Logo, porém, descobre algo muito mais improvável: Mary não vem de outro país, mas de outro planeta.
Este é mais um telefilme dos anos 1980 que, infelizmente, nunca ganhou lançamento em DVD. Ainda assim, é um daqueles títulos pelos quais eu tenho um carinho enorme. Considerando o quanto James Spader se tornou conhecido ao longo da carreira, sempre achei que seu catálogo merecesse mais atenção em home vídeo. Tuff Turf, por exemplo, merecia um Blu-ray em edição de colecionador, com dublagem clássica, evidentemente.
A trama é bastante simples. Mary é uma alienígena dotada de habilidades especiais, como telepatia e telecinese, e está fugindo de outros alienígenas hostis que dominaram o seu planeta. Joey, fiel ao seu senso de justiça, decide ajudá-la e acaba se colocando na mira tanto dos vilões quanto das autoridades federais.
Spader é ótimo como Joey. Ele encarna o típico sujeito americano, disposto a ajudar uma mulher em fuga em nome da liberdade — ou talvez porque se interessa por ela, ou pelas duas coisas ao mesmo tempo. O personagem não é complexo e revela todo o seu passado em uma única conversa, mas a maneira como Spader o interpreta faz com que Joey seja imediatamente simpático. Ele é um herói em todos os sentidos, e sua reação às revelações de Mary é exatamente na medida certa.
Belinda Bauer, por sua vez, constrói uma Mary vulnerável e, ao mesmo tempo, forte e bastante convincente como uma alienígena confusa diante do mundo humano. Há sutileza e profundidade em sua atuação, o que torna a personagem especialmente empática e ajuda a envolver o espectador na história.
Não vou negar: parte dos diálogos é… digamos… bem ruim. E algumas atuações dos coadjuvantes são piores ainda. Há sequências que não fazem o menor sentido. Por exemplo: os dois alienígenas que perseguem Mary parecem agir como se ela estivesse com um rastreador. O que os leva ao apartamento de Joey? E por que eles só aparecem lá de manhã, já que a perseguição foi a noite? Apesar de terem perdido eles, não fazia sentido esperar um turno para encontrá-los.
E, na sequência, como Joey e Mary, que mal conseguiam fugir dos caras de carro, fogem a pé após os aliens explodirem seu veículo? E ainda passam parte da narrativa em um restaurante ou no planetário sem serem incomodados.
Há diversas conveniências estúpidas de roteiro, que estão presentes apenas para a história caminhar. Algo que provavelmente não percebi quando assisti à primeira vez, mas que hoje consegue me incomodar. Outro fato risível são os agentes do FBI, sempre com as metralhadoras em punho, apontadas para o alto. Tipo, em qualquer cena.
Isso sem contar que Mary foge do planeta para a Terra, sendo caçada. E, no final, ela volta para casa (???) após matar o perseguidor que não poderia ser morto (ela diz isso o tempo todo). E ambos se despedem em um diálogo que faz menos sentido ainda, já que ele diz que vai ficar com a esperança de revê-la, e ela diz que estará com ele (na verdade, ela passa parte dos seus poderes para Joey, ou melhor, o poder de ligar o carro e fazê-lo andar).
O filme se despede do público com timing perfeito: os agentes do FBI chegando, com as armas em punho, apontadas para cima. Rever Amor do Futuro 40 anos depois é constatar que certas obras devem permanecer intocadas na nossa memória. Entender que alguns filmes problemáticos criam raízes no nosso DNA porque estamos descobrindo o cinema.
E talvez jamais devam ser revisitados. E um detalhe: o título nacional “Amor do Futuro” entrega que eles terão um caso e, ao mesmo tempo, nos engana, pois não é um filme de viagem no tempo. Curiosamente, encontrei o filme rebatizado de “Visitante das Estrelas”, que faz muito mais sentido, mas, ao mesmo tempo, nos lembra que Starman – O Homem das Estrelas, de John Carpenter, cuja similaridade é gritante, e que foi lançado um ano antes.
Portanto, o primeiro título buscou capitalizar em cima de De Volta para o Futuro, lançado no mesmo ano. E a história copiou Starman. Amor do Futuro é isso: uma mistura homogênea de filmes, gêneros, muita vergonha alheia, roteiro caótico e uma alienígena que tem o poder de ligar carros, encaçapar bolas e fazer nevar.
Eu, colocando assim, faço parecer que o filme é muito ruim. Na realidade, ele é como uma comida ruim que nos marca mais que a boa. Por que isso ocorre? Não sei, só sei que foi assim, diria Chicó. E em filmes feitos pata TV, mais natural ainda devido ao orçamento. E o que normalmente ocorria era justamente o que aconteceu: o filme sumiu do mapa. E por isto, jamais revi, até agora...

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