DIAS DE TROVÃO (1990) - FILM REVIEW
Eu tinha em torno de 14 ou 15 anos quando Dias de Trovão me contaminou. Lembro perfeitamente de jogar futebol ou vôlei no clube que eu frequentava na época e perceber como o pôr do sol se assemelhava ao da abertura do filme. E, para um cinéfilo como eu, era praticamente uma imersão dentro daquele mundo de Cole Trickle, principalmente quando eu ouvia um dos temas mais marcantes de Hans Zimmer, que, na época, ainda estava conquistando o público.
E rever o filme, quase 40 anos depois, e após o anúncio da continuação feito pelo próprio Tom Cruise, ladeado da atriz Anne Hathaway, tem um sabor especial, já que são poucos filmes sobre corrida, e sou fã de quase todos.
Há filmes que envelhecem por completo. Outros permanecem vivos porque carregam consigo algo que ultrapassa a própria história que contam. "Dias de Trovão", lançado em 1990, pertence claramente ao segundo grupo. Revê-lo hoje é voltar no tempo, quando os grandes astros ainda eram vendidos como acontecimentos, quando Jerry Bruckheimer e Don Simpson transformavam praticamente qualquer produção em um espetáculo de velocidade, música e testosterona, e quando Tom Cruise parecia determinado a encontrar uma maneira de se tornar o protagonista definitivo do cinema americano.
Depois de Top Gun, Tom Cruise estava em uma posição difícil e privilegiada. Era uma das maiores estrelas do mundo, mas precisava provar constantemente que não era apenas o rapaz sorridente e confiante de um único grande sucesso. Dias de Trovão acabou surgindo como uma espécie de reencontro com uma fórmula conhecida. Tony Scott novamente na direção, Cruise interpretando um jovem extraordinariamente talentoso, arrogante e competitivo, uma narrativa construída em torno de velocidade, rivalidade, romance e superação. As comparações com Top Gun eram inevitáveis e continuam sendo. Mas reduzir "Dias de Trovão" a "Top Gun com carros" sempre me pareceu uma simplificação excessiva.
Há, evidentemente, uma estrutura semelhante. Cole Trickle chega a um ambiente que não conhece, entra em conflito com os veteranos, precisa aprender a controlar seu talento e descobre que ser rápido não significa necessariamente saber vencer. Porém, enquanto Top Gun trabalha com a ideia de um piloto que precisa aprender a funcionar dentro de uma instituição, "Dias de Trovão" é muito mais sobre um indivíduo que precisa confrontar a própria natureza. Cole Trickle é rápido porque simplesmente nasceu para ser. O problema é que ele acredita que isso basta.
Tom Cruise interpreta Cole com a intensidade que se esperava dele naquele período. É impossível imaginar outro ator no papel. Há uma energia quase juvenil na maneira como ele entra em cada ambiente, como se estivesse sempre procurando alguém para desafiar. Cole não conhece a prudência. Não tem paciência para hierarquia, tradição ou experiência. Ele acredita no próprio instinto, e é justamente isso que faz dele um piloto extraordinário e, ao mesmo tempo, perigosamente incompleto.
O grande acerto do filme é perceber que Cole precisava encontrar alguém que fosse tão obstinado quanto ele, mas que enxergasse o automobilismo de uma maneira completamente diferente. Esse alguém é Harry Hogge, vivido por Robert Duvall. Para mim, é impossível falar de Dias de Trovão sem reconhecer que Robert Duvall é uma das grandes almas do filme. Harry não é simplesmente o mentor experiente que Hollywood costuma colocar ao lado do protagonista jovem e impulsivo. Existe uma paixão verdadeira naquele homem. Uma relação quase íntima com as máquinas. Harry não apenas trabalha com carros. Ele os ama.
Uma das coisas que mais gosto em seu personagem é justamente essa ideia de que construir um carro é quase um ato de criação. Quando Harry fala com as peças, quando observa o veículo sendo montado, quando se envolve com cada detalhe mecânico, temos a sensação de estar diante de alguém que enxerga algo vivo naquela estrutura de metal. Para ele, um carro de corrida não é apenas uma ferramenta para vencer. É uma extensão do homem que o construiu.
Essa paixão aparece de maneira particularmente forte quando Harry volta a construir o carro para Cole. Há algo profundamente romântico nessas cenas. O velho galpão, as peças espalhadas, o processo de construção, a paciência, o conhecimento acumulado durante décadas. Em um filme movido por velocidade, são justamente esses momentos mais silenciosos que ajudam a dar peso à história. Harry representa tudo aquilo que Cole ainda não possui: experiência, disciplina e, principalmente, compreensão.
Porque Harry sabe que velocidade sem controle não é talento completo. A relação entre Cole e Harry é, na verdade, o verdadeiro coração de Dias de Trovão. Eles brigam, discordam e se provocam constantemente, mas existe entre os dois uma ligação que vai muito além da relação entre piloto e chefe de equipe. Cole precisa de Harry porque nunca teve alguém capaz de dizer que ele estava errado sem medo de sua reação. Harry, por sua vez, encontra naquele garoto algo que talvez julgasse ter perdido: a possibilidade de voltar a competir e de transformar novamente conhecimento em vitória.
É curioso perceber como o filme constrói suas rivalidades em diferentes níveis. Existe a rivalidade mais evidente, dentro das pistas, especialmente com Rowdy Burns, interpretado por Michael Rooker. Rowdy é exatamente aquilo que Cole encontra quando chega à NASCAR: um homem estabelecido, agressivo, experiente e disposto a lembrar ao novato que talento não concede automaticamente respeito.
As corridas entre os dois têm uma violência que hoje talvez surpreenda quem conheça a NASCAR apenas pela televisão contemporânea. Dias de Trovão pertence a um momento em que aquela modalidade era apresentada ao grande público americano como algo quase tribal. Não era apenas sobre carros dando voltas em um circuito. Havia equipes, regiões, tradições, patrocinadores e uma relação extremamente emocional entre pilotos e torcida.
No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, a NASCAR vivia um período de enorme crescimento nos Estados Unidos. Era uma modalidade profundamente ligada à cultura americana, especialmente ao Sul, mas que começava a ganhar uma dimensão nacional ainda maior. O público reconhecia aqueles carros, aqueles números e aqueles pilotos como figuras populares. Havia uma proximidade muito diferente daquela encontrada na Fórmula 1. A NASCAR carregava a imagem de um esporte físico, barulhento, perigoso e acessível em sua essência.
O que Dias de Trovão faz muito bem é transformar essa cultura em espetáculo cinematográfico. Tony Scott não estava interessado em realizar um retrato documentalmente preciso da NASCAR. E isso, sinceramente, nunca me incomodou. O filme toma liberdades, exagera situações e constrói suas corridas de acordo com a necessidade dramática, mas o objetivo nunca foi produzir um manual sobre automobilismo. Era fazer o espectador sentir a velocidade. E nisso Tony Scott era extraordinário.
As imagens dos carros praticamente colados uns aos outros, as curvas inclinadas, o barulho dos motores e a sensação de que qualquer erro pode provocar uma destruição em cadeia continuam funcionando muito bem. Há um aspecto físico nas corridas. O espectador sente o impacto. Sente o perigo. O acidente de Cole é fundamental porque representa o momento em que o personagem finalmente percebe que sua maior força pode ser também sua maior fragilidade. Até então, ele acreditava possuir uma espécie de invulnerabilidade. Depois do acidente, precisa enfrentar algo muito mais difícil do que qualquer rival na pista: o medo.
E é nesse ponto que entra Nicole Kidman. A relação entre Cole Trickle e a Dra. Claire Lewicki ocupa uma parte importante da narrativa, embora eu sempre tenha achado interessante como o romance funciona mais como uma consequência da transformação de Cole do que como o centro absoluto do filme. Claire é uma personagem que não se deixa impressionar facilmente por ele. Cole está acostumado a dominar os ambientes pela confiança, pelo carisma e pela própria presença. Claire simplesmente não compra isso.
Nicole Kidman ainda estava em um momento de ascensão internacional, e "Dias de Trovão" acabou sendo um ponto decisivo em sua trajetória. Ela traz à personagem uma segurança que impede Claire de se transformar apenas na figura romântica obrigatória em uma produção desse tipo. Ela confronta Cole, entende suas fragilidades e, ao mesmo tempo, não permite que ele use sua arrogância como mecanismo de defesa.
Mas existe, naturalmente, algo impossível de ignorar quando falamos do filme: foi durante Dias de Trovão que Tom Cruise e Nicole Kidman se conheceram. O relacionamento que começou naquele período acabaria se transformando em um dos casamentos mais famosos de Hollywood durante a década seguinte. Eles se casaram ainda em 1990 e se tornaram, durante muitos anos, um daqueles casais que pareciam representar perfeitamente o glamour cinematográfico daquele período.
Assistir ao filme hoje, sabendo disso, cria uma camada adicional de curiosidade. Não porque seja necessário procurar sinais de um relacionamento nascendo entre cada cena, mas porque a química entre os dois possui uma naturalidade evidente. Existe algo genuíno na maneira como Cruise e Kidman se relacionam diante da câmera, uma combinação de atração, confronto e vulnerabilidade que ajuda bastante o romance.
O elenco de apoio também merece atenção. Randy Quaid traz uma energia particular como Tim Daland, enquanto John C. Reilly, ainda no início da carreira, aparece em um papel pequeno que hoje chama atenção justamente porque sabemos no que sua carreira se transformaria. Cary Elwes também surge como Russ Wheeler, outro piloto que ajuda a ampliar o universo competitivo ao redor de Cole.
Michael Rooker, por sua vez, constrói Rowdy Burns como o adversário ideal. Ele não é simplesmente um vilão. Essa é uma das melhores decisões do filme. Rowdy representa aquilo que Cole ainda precisa aprender. É agressivo, competitivo e duro, mas também pertence àquele universo. E a dinâmica entre eles é puro suco de competição; basta lembrar da corrida das cadeiras de rodas e, depois, dos carros alugados. Quando a rivalidade entre os dois muda de forma, Dias de Trovão demonstra que seus conflitos não dependem apenas de colocar um antagonista no caminho do protagonista.
E há ainda um elemento absolutamente essencial: a música. A trilha sonora de Dias de Trovão é uma fotografia sonora do final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Era o período em que grandes produções apostavam em álbuns recheados de artistas conhecidos, canções inéditas e baladas que poderiam sobreviver ao próprio filme. O resultado reúne nomes como David Coverdale, Tina Turner, Cher, Guns N' Roses, Elton John, Joan Jett, Chicago e Maria McKee.
É difícil não associar o filme a "Show Me Heaven", interpretada por Maria McKee. A música se tornou um enorme sucesso internacional e possui exatamente aquele espírito das grandes baladas cinematográficas da época. Ela carrega romantismo, grandiosidade e uma certa melancolia que combina perfeitamente com a relação entre Cole e Claire.
Mas existe outra música que, para mim, representa ainda melhor o espírito do filme: "The Last Note of Freedom", interpretada por David Coverdale. A canção possui uma força quase épica e está profundamente ligada à sensação de liberdade que Dias de Trovão tenta transmitir. Não por acaso, Hans Zimmer esteve envolvido diretamente em sua criação musical. E falar de Hans Zimmer é fundamental.
Ainda distante da posição quase monumental que ocuparia nas décadas seguintes, Zimmer já demonstrava em "Dias de Trovão" sua capacidade de unir música eletrônica, guitarras, percussão e orquestração em uma identidade sonora extremamente cinematográfica. Sua trilha instrumental não tenta competir com o barulho dos carros. Ela trabalha ao lado deles.
Existe um impulso rítmico na música de Zimmer que combina perfeitamente com o movimento das corridas. Em determinados momentos, a trilha parece acelerar junto com os carros. Em outros, assume uma função emocional muito importante, especialmente quando Cole precisa enfrentar as consequências de seu acidente e reconstruir a confiança.
É interessante perceber também como "Dias de Trovão" pertence a uma época em que uma produção podia ter simultaneamente uma trilha instrumental marcante e um álbum de músicas populares igualmente forte. Hoje, muitas vezes, uma dessas abordagens acaba dominando completamente a outra. Aqui, as duas convivem. As canções ajudam a definir o espírito comercial e emocional do filme, enquanto Zimmer constrói sua pulsação interna.
No fim das contas, talvez seja justamente por isso que "Dias de Trovão" continua sendo tão lembrado por quem cresceu com o cinema daquele período. Ele tem defeitos. Sua estrutura é previsível em vários momentos, algumas decisões narrativas são claramente influenciadas pelo sucesso de Top Gun e é possível questionar o quanto o filme realmente se aprofunda em determinados personagens.
Mas tudo funciona no filme. Funciona porque Tony Scott sabia filmar velocidade como poucos. Funciona porque Tom Cruise estava em uma fase em que sua energia parecia capaz de carregar qualquer produção. Funciona porque Robert Duvall dá humanidade a um personagem que poderia facilmente ter sido apenas o velho mentor ranzinza. Funciona porque Nicole Kidman encontrou ali uma porta definitiva para Hollywood. Funciona porque a NASCAR oferece um cenário naturalmente cinematográfico, com velocidade, perigo, rivalidade e multidões. E funciona porque sua música é inseparável da experiência de assistir ao filme.
O diretor quis nos colocar dentro daquele carro, fazer com que sintamos a velocidade e, por pouco mais de uma hora e meia, acreditar que vencer uma corrida pode ser a coisa mais importante do mundo. E, nas mãos de Tony Scott, Tom Cruise, Robert Duvall e Nicole Kidman, é fácil acreditar.
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