FREDDY VS. JASON (2003) - FILM REVIEW
🔷Freddy vs. Jason (2003)
Sabe o filme que já começou errado na divulgação? Nos pôsteres iniciais de Freddy vs. Jason, a luva de Freddy está na mão errada. Na mão esquerda, quando deveria estar na direita. O próprio Robert Englund apontou isso, mas não havia como corrigir: os pôsteres já haviam sido impressos e enviados. Canonicamente, Freddy Krueger constrói e usa sua icônica luva de lâminas na mão direita. No material promocional em que os dois aparecem lado a lado, com suas armas logo abaixo, a imagem de Freddy foi espelhada ou editada incorretamente, fazendo com que a luva aparecesse claramente na mão esquerda.
Era o prenúncio de um dos filmes slasher mais problemáticos para sair do papel. Um encontro cercado por disputas, direitos, roteiros descartados, diretores que recusaram o projeto e ideias que, felizmente, jamais chegaram às telas. Dois dos maiores ícones do cinema slasher flertaram durante anos com a possibilidade de se encontrar. Quando finalmente tiveram a chance, porém, não aproveitaram tudo o que poderiam.
Na história, Freddy está enfraquecido. As pessoas de Elm Street se esqueceram dele e, sem medo, não há poder. Para voltar a ser quem era, ele precisa de um instrumento, um monstro que possa provocar novamente o pânico na cidade. É então que Freddy engana Jason, por meio dos sonhos, para que saia de Crystal Lake e vá até Elm Street. Jason começa sua matança e os crimes são atribuídos a Freddy, afinal, ele é o monstro daquela cidade. O medo retorna. Freddy recupera suas forças. O problema é que Jason não entende que está sendo usado e, principalmente, não pode ser controlado. Para resolver a situação, Freddy terá que mostrar a ele quem é o dono do pedaço.
Incubando a bomba
A possibilidade de um encontro entre Freddy e Jason começou a ser discutida ainda em 1987. Na época, a Paramount Pictures possuía a franquia Sexta-Feira 13, enquanto a New Line Cinema tinha transformado Freddy Krueger em uma máquina de fazer dinheiro. E era exatamente isso que interessava à Paramount. Os filmes de A Hora do Pesadelo vinham rendendo mais do que os de Jason, e a Paramount procurou a New Line para discutir um crossover. A proposta era que a Paramount distribuísse o filme nos Estados Unidos e a New Line cuidasse do mercado internacional. A New Line achou o acordo ruim e desistiu.
Sendo assim, cada um voltou para sua casa. A Paramount continuou com Jason e lançou Sexta-Feira 13 – Parte 7: A Matança Continua (1988). A possibilidade do crossover voltou a ser discutida para o filme seguinte, Jason Ataca em Nova York (1989), mas novamente esbarrou nas mesmas questões. Curiosamente, foi o fracasso de Jason Ataca em Nova York que ajudou a mudar a situação. A Paramount passou a enxergar menos potencial financeiro na franquia e os direitos do personagem Jason Voorhees acabaram indo para a New Line. Isso finalmente permitia que o estúdio que tinha Freddy colocasse Jason no mesmo filme. Ou pelo menos parecia permitir.
Porque os direitos continuavam sendo uma dor de cabeça. A New Line podia usar Jason, mas isso não significava que tinha livre acesso a tudo relacionado aos filmes produzidos pela Paramount. Isso explica, por exemplo, algo curioso na abertura de Freddy vs. Jason: — Há várias imagens de flashback dos filmes de A Hora do Pesadelo, mas nenhuma dos antigos Sexta-Feira 13. A New Line possuía os direitos para usar o personagem Jason, mas não as imagens dos filmes anteriores.
O encontro entre os dois monstros já era desejado pelos fãs. O problema era descobrir como fazê-lo funcionar. E a resposta demorou mais de uma década. Dezessete roteiros e seis milhões de dólares. A New Line gastou este valor apenas desenvolvendo o roteiro de Freddy vs. Jason. É um número que, por si só, ajuda a entender a dificuldade em tirar o filme do papel. Vários roteiristas passaram pelo projeto. Lewis Abernathy foi um dos primeiros, escrevendo Nightmare 13: Freddy Meets Jason. Depois veio David J. Schow, que trabalhou sobre ideias anteriores e desenvolveu, entre outras coisas, a presença de um culto que venerava Freddy Krueger.
A ideia de cultos tentando ressuscitar Freddy e Jason apareceria, de uma forma ou outra, em diversas versões. Brannon Braga e Ronald D. Moore escreveram uma abordagem com tom mais adulto. Peter Briggs, que já havia chamado atenção por seu trabalho com uma versão de Alien vs. Predator, também entrou no projeto. Cyrus Voris e Ethan Reiff desenvolveram Freddy vs. Jason: Millennium Massacre, enquanto o especialista em maquiagem Rob Bottin chegou a ser associado à direção e desenvolveu suas próprias ideias para o filme.
Guillermo del Toro e Peter Jackson receberam propostas para dirigir. David S. Goyer trabalhou no projeto. James Dale Robinson também. Jonathan Aibel e Glenn Berger passaram por versões posteriores. Mark Verheiden chegou a sugerir uma solução que provavelmente deixaria metade do público irritado de qualquer maneira: dois finais, um com Freddy vencendo e outro com Jason. Todd Farmer, roteirista de Jason X, também escreveu uma versão. No fim das contas, parecia que todo mundo tinha uma ideia para colocar Freddy e Jason juntos. O problema era que nenhuma delas conseguia resolver definitivamente a questão.
E, quanto mais tentavam explicar demais a relação entre os dois, mais complicada a coisa ficava. Em alguns dos rascunhos, chegaram a cogitar ligar diretamente o passado de Freddy Krueger e Jason Voorhees. Uma das ideias era que Freddy tivesse tido uma relação sexual com Pamela Voorhees e fosse, sem saber, o pai de Jason. Outra sugeria que Freddy havia trabalhado em Camp Crystal Lake no passado e teria molestado Jason quando criança ou participado, de alguma maneira, dos acontecimentos que levaram ao seu afogamento. Assim, Jason teria uma razão pessoal para caçar Freddy.
Felizmente, as ideias foram abandonadas. Os próprios produtores consideraram essas conexões artificiais e obscuras demais. Freddy e Jason não precisavam ter sido parentes. Não precisavam ter se conhecido quando Jason era criança. Não era necessário transformar o afogamento de Crystal Lake em parte de uma grande conspiração envolvendo Freddy Krueger. Os personagens já existiam. As franquias já tinham suas próprias mitologias. O desafio era encontrar um motivo para colocá-los frente a frente sem desmontar tudo o que havia sido construído. Enquanto isso, Jason ia para o inferno. E depois para o espaço.
A demora para produzir Freddy vs. Jason acabou interferindo diretamente no caminho da franquia de Jason. Quando Wes Craven voltou à New Line para realizar O Novo Pesadelo (1994), o crossover entrou novamente em espera. Sean S. Cunningham trouxe Jason de volta em Jason Vai para o Inferno: A Última Sexta-Feira (1993), com a direção de Adam Marcus, e o filme aproveitou para provocar justamente aquilo que os fãs esperavam. No final, a luva de Freddy sai do chão e arrasta a máscara de Jason para o inferno. Era uma promessa. Uma promessa que levaria mais dez anos para ser cumprida.
Foi justamente daquela cena que Damian Shannon e Mark Swift partiram quando chegaram ao projeto. A pergunta era simples: por que Freddy havia puxado a máscara de Jason para o inferno? A resposta acabaria servindo como ponto de partida para o roteiro definitivo. Antes disso, porém, a New Line continuava tentando descobrir o que fazer com Jason. A frustração com o atraso de Freddy vs. Jason ajudou a levar à criação de Jason X. Se não era possível colocá-lo diante de Freddy, então o jeito foi fazer algo completamente diferente.
Mandaram Jason para o espaço. O resultado não funcionou nos cinemas como a New Line esperava, e o filme acabou sendo lançado depois de permanecer engavetado por um período. Mas, de certa maneira, Jason X serve como prova do quanto o crossover já havia se tornado um problema de difícil solução. Enquanto Freddy e Jason não se encontravam, era preciso continuar fazendo alguma coisa com eles.
Finalmente, uma história
Em 2001, Damian Shannon e Mark Swift apresentaram suas ideias enquanto trabalhavam em outro projeto para a New Line. E a abordagem dos dois era, no fundo, muito mais simples do que boa parte das tentativas anteriores. Eles perceberam que vários roteiristas haviam tentado ignorar, reescrever ou descartar a história das franquias. A proposta deles era seguir o caminho oposto. Manter tudo intacto. Fazer com que valesse a pena. Não jogar os filmes anteriores fora. E deixar os fãs reconhecerem os personagens que acompanharam durante anos.
Foi a abordagem que finalmente agradou aos produtores. Freddy precisava recuperar o medo que a população de Elm Street tinha dele. Jason podia ser a ferramenta perfeita para isso. Freddy o manipularia por meio dos sonhos, usando sua aparência e a imagem de Pamela Voorhees para convencê-lo a voltar a matar. Jason faria o trabalho. Freddy recuperaria seus poderes. E, inevitavelmente, um passaria a atrapalhar o outro. A ideia resolvia o principal problema: Freddy e Jason podiam entrar em conflito sem precisar inventar que eram parentes, conhecidos de infância ou personagens ligados por uma história secreta descoberta vinte anos depois.
Eles simplesmente eram dois monstros tentando sobreviver. A hora de escolher quem iria dirigir. Mesmo depois de finalmente encontrarem um roteiro, a produção ainda passou por escolhas curiosas. James Wan chegou a ser considerado para dirigir, mas estava comprometido com Jogos Mortais, que seria lançado em 2004 e acabaria iniciando outra franquia de horror de enorme sucesso. Wes Craven não demonstrava interesse na ideia e, anos antes, chegou a criticar o conceito de juntar os dois personagens. Rob Zombie preferiu dirigir A Casa dos 1000 Corpos.
Jaume Balagueró fez campanha para conseguir o trabalho. E Ronny Yu acabou ficando com ele. As filmagens aconteceram no Canadá. E, durante a produção, o lago utilizado como Camp Crystal Lake também servia às gravações das cenas finais de X-Men 2 (2003). Os dois elencos chegaram a se hospedar no mesmo hotel. Bryan Singer apareceu no set justamente durante a primeira morte cometida por Jason. Queria ver o novo visual do personagem e, ao observar o traje, comentou: “Eles acertaram a maquiagem.” É interessante imaginar Bryan Singer aparecendo para conferir Jason Voorhees enquanto filmava um dos maiores filmes de super-heróis daquele momento.
E o filme teve seus próprios problemas durante e depois da produção. Monica Keena e Katharine Isabelle criticaram publicamente a experiência. Keena chegou a dizer que considerava o roteiro terrível e que aceitou participar principalmente pelo dinheiro e pela possibilidade de aumentar sua exposição. Já Isabelle teve problemas com Ronny Yu, principalmente por causa de uma tentativa de incluí-la em uma cena de nudez, apesar de ela ter estabelecido em contrato uma cláusula proibindo isso.
Enfim, a escolha era curiosa, até questionável, porque, antes de aceitar, Yu admitiu que não havia assistido aos filmes das duas franquias. Robert Shaye não viu isso como um problema. Ronny Yu já havia dirigido A Noiva de Chucky (1998) sem conhecer os filmes anteriores de Brinquedo Assassino, e o resultado havia agradado.
Os produtores disseram: "Tudo bem. Não precisamos que você seja um professor da franquia para fazer o filme."
Hoje, eu completaria: "Não precisa ser um professor, mas também tinha que ser justamente aquele aluno que não gosta de estudar?".
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