SEXTA-FEIRA 13 - PARTE 5: UM NOVO COMEÇO (1985) - FILM REVIEW
Nos anos 80 havia uma persistência ilógica em trocar o protagonismo dos slashers, talvez porque seus criadores não acreditavam na força/longevidade dos seus personagens. Eles focavam na marca, quando deveriam investir no personagem. O quinto filme da franquia Sexta-Feira 13 passou por isto, mas conseguiu um feito: ao contrário da crença popular, "Um Novo Começo" foi um sucesso.
O produtor Frank Mancuso Jr. ficou tão satisfeito com a bilheteira no fim de semana de estreia que ligou para o diretor Danny Steinmann e afirmou que os números eram como "a era de ouro" do gênero. Ainda que haja algumas falhas de continuidade (principalmente na evolução física de Jason), de modo geral, os "Sexta-Feira 13" se respeitam bastante, tornando os filmes, quando vistos em maratona, uma série artisticamente bem coesa. E se o filme anterior não termina oficialmente com um sonho, o quinto começa desta forma.
Na trama, Tommy Jarvis, que anos atrás matou violentamente Jason Voorhees, vive em um hospital psiquiátrico, ainda atormentado pelo trauma do passado. Ao se mudar para uma casa isolada, ele começa a ter pesadelos com o possível retorno de Jason. Quando um dos pacientes é brutalmente assassinado, uma nova onda de mortes começa. À medida que os corpos se acumulam, Tommy passa a duvidar da própria sanidade e teme que Jason esteja de volta. Agora, para descobrir quem é o verdadeiro assassino, ele precisará sobreviver.
Mudança no ponto de vista
Este é o único filme da franquia Sexta-Feira 13 até então que traz uma versão diferente da icônica máscara de hóquei: ao invés dos tradicionais três triângulos vermelhos, ela possui apenas dois triângulos azuis apontando para baixo. O título "Um Novo Começo" foi escolhido porque, após os eventos de Sexta-Feira 13 – Parte 4: O Capítulo Final (1984), havia a intenção de transformar Tommy no novo assassino da série. Mas a intenção de passar o manto para Tommy foi abandonada pela reação negativa dos fãs.
"Um Novo Começo" é o primeiro filme da série em que Jason é realmente conhecido por seu nome completo: Jason Voorhees. Em Sexta-Feira 13 (1980), Sexta-Feira 13, Parte 2 (1981), e Sexta-Feira 13, Parte 4: O Capítulo Final (1984), ele é apenas referido como Jason, enquanto em Sexta-Feira 13, Parte 3 (1982), não é dito qualquer nome.
Elencando
Danny Steinmann estava cotado para escrever e dirigir uma continuação de Aniversário Macabro (1972) para a Paramount. Porém, com o cancelamento do projeto, os produtores decidiram oferecer a ele a direção deste filme. Vale lembrar que Aniversário Macabro teve como produtor Sean S. Cunningham, o mesmo que dirigiu o primeiro Sexta-Feira 13. De certa maneira, Steinmann acabou chegando à franquia por uma porta que já tinha uma ligação direta com sua origem.
E "Um Novo Começo" acabaria sendo o único longa-metragem dirigido por Steinmann depois de "Aniversário Macabro". Logo após o lançamento, ele sofreu um terrível acidente de bicicleta que quase o matou. Passou anos se recuperando e nunca mais voltou a fazer filmes, apesar de diversas tentativas que acabaram fracassando por diferentes motivos.
A produção, aliás, começou de maneira bastante discreta. Sexta-Feira 13: Um Novo Começo foi filmado sob o título falso Repetition (“Repetição”), e muitos atores só descobriram que estavam participando de um novo Sexta-Feira 13 depois de já terem sido contratados. Um deles foi justamente o protagonista John Shepherd, que chegou a passar vários meses como voluntário em um hospital psiquiátrico estadual para se preparar para o papel de Tommy Jarvis.
A escolha de Shepherd também tinha relação com a própria ideia por trás do filme. A história havia sido concebida para ter Corey Feldman novamente como Tommy, mantendo uma continuidade direta com O Capítulo Final. Porém, Feldman já estava trabalhando em Os Goonies e não poderia assumir o papel principal. O roteiro acabou sendo reescrito para permitir apenas uma breve aparição do ator.
E foi uma participação realmente rápida. Feldman filmou em um domingo, seu dia de folga das gravações de Os Goonies. As cenas foram realizadas no quintal da casa de sua família em Los Angeles, utilizando inclusive uma máquina para simular chuva. A presença de Feldman é pequena, mas ajuda a manter aquela sensação de continuidade que a franquia vinha construindo. E "Um Novo Começo" está cheio dessas pequenas conexões com outros filmes e atores.
Richard Young, que interpreta Matt, por exemplo, também aparece em Histórias Maravilhosas e Indiana Jones e a Última Cruzada. Os três filmes, contando Os Goonies, têm uma ligação com Steven Spielberg, seja como diretor ou produtor. O editor de Um Novo Começo, Bruce Green, também havia trabalhado como editor assistente de Michael Kahn em Os Caçadores da Arca Perdida (1981) e Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984).
E existe ainda uma referência cinematográfica curiosa dentro da própria história. O filme que Jake e Robin assistem, Um Lugar ao Sol (1951), gira em torno do afogamento de um personagem em um lago. Coincidência ou escolha deliberada, o destino do personagem remete diretamente àquele que deu origem à própria lenda de Jason Voorhees em Sexta-Feira 13.
Mas a homenagem mais divertida está em uma das mortes. Uma das cenas mais marcantes é o assassinato da personagem interpretada por Deborah Voorhees. Sua morte, envolvendo uma grande tesoura, funciona como um aceno a outro slasher de sucesso, "Chamas da Morte", filme no qual Tom Savini trabalhou. Savini esteve envolvido, direta ou indiretamente, nas produções de Sexta-Feira 13 até o filme anterior, portanto a referência parece especialmente apropriada.
Deborah Voorhees ainda carregava uma coincidência curiosa fora das telas: ela realmente tinha o mesmo sobrenome do Jason da ficção. A atriz chegou a enfrentar problemas no colégio onde trabalhava depois que alguns alunos expuseram fotografias de cenas em que ela aparecia nua. Deborah, porém, costuma brincar quando alguém reconhece seu sobrenome. Ela diz que Jason Voorhees é seu marido e que o verdadeiro problema é tirar as manchas de sangue de suas roupas.
Enquanto isso, a franquia continuava brincando com sua própria fórmula. Um Novo Começo é o único filme da série até então que apresenta uma versão diferente da famosa máscara de hóquei. Em vez dos tradicionais três triângulos vermelhos, ela possui apenas dois triângulos azuis apontando para baixo.
A mudança combina com a própria proposta do filme. Depois da morte de Jason no capítulo anterior, os produtores queriam transformar Tommy Jarvis no novo assassino da série. O título "Um Novo Começo" vinha justamente dessa ideia. O plano, porém, foi abandonado depois da reação negativa dos fãs, que não estavam dispostos a aceitar Tommy ocupando o lugar de Jason.
Curiosamente, o filme também é o primeiro da série em que Jason é conhecido explicitamente pelo nome completo, Jason Voorhees. No filme original, em Parte II e em O Capítulo Final, ele é chamado apenas de Jason. Já em Parte III, seu nome sequer é mencionado.
No final, a intenção de seguir por esse novo caminho ainda aparece. O filme termina novamente com um sonho e, pouco antes disso, temos aquela tradicional brincadeira da franquia em que Jason joga alguém por uma janela ou aparece entrando por ela. Depois do sonho, existe uma indicação bastante clara de que Tommy poderia se tornar o assassino no filme seguinte.
Mas a ideia acabou abandonada. Jason seria novamente ressuscitado em Sexta-Feira 13 - Parte VI: Jason Vive (1986), e, caso Um Novo Começo tivesse sido melhor recebido, os produtores pretendiam trazer John Shepherd e Melanie Kinnaman de volta para uma continuação direta.
E há ainda uma pequena vingança do destino envolvendo os filmes anteriores. A sequência de créditos de abertura de Sexta-Feira 13 - O Capítulo Final (1984) originalmente deveria apresentar a máscara de hóquei explodindo junto ao título do filme. Porém, devido ao aperto de tempo e à pressão do diretor Joseph Zito para lançar a produção na sexta-feira, dia 13, o trabalho permaneceu incompleto.
A explosão acabou ficando para "Um Novo Começo".
É quase como se a própria franquia tivesse encontrado uma maneira de dizer que, mesmo quando tenta começar de novo, continua carregando tudo o que veio antes.
O grande problema de Um Novo Começo foi querer romper com a fórmula, mudar o protagonista, brincar com a identidade de Jason e abrir uma nova possibilidade para a série. Só que os fãs queriam Jason.
E Sexta-Feira 13, pode até ter se tornado "grande", mas jamais foi maior que Jason Voorhees.
IMPORTANTE:
Caso Darcy
De acordo com a atriz Darcy DeMoss, o diretor Danny Steinmann fez uma proposta para ela durante a prova do figurino. Ela acabou sendo demitida por se recusar a fazer cenas de nudez.
Caso Juliette
No livro "Crystal Lake Memories", a atriz Juliette Cummins disse que, durante as filmagens, o diretor Danny Steinmann continuou pedindo a ela para fazer cenas extras de nudez. Ela concordou porque tinha medo de ser demitida, especialmente depois que outras atrizes foram demitidas por supostamente se recusarem a fazê-lo.
Ela teve o mesmo medo com outros filmes em que apareceu naquela época. Produtores e diretores diziam para ela tirar a roupa, e ela o fazia com relutância porque precisava do trabalho. Ela também destacou como as coisas mudaram. Muitos anos depois, jovens atrizes são até indicadas ao Oscar quando atuam nuas, mas, quando ela o fez, a maioria das atrizes era desprezada e rotulada.
Caso Deborah
A cena de sexo original de Deborah Voorhees era muito mais longa e muito mais explícita, mas o editor do filme, Bruce Green, foi instruído pelo produtor Frank Mancuso Jr. a cortar a cena e fazê-la parecer "como um comercial da Pepsi".
Deborah Voorhees disse em uma entrevista de 2012 que filmou sua cena de sexo nua em seu primeiro dia no set. Ela disse que era muito jovem e que foi um dia de 13 horas muito difícil e brutal. Ela não só estava muito nervosa por estar totalmente nua na frente da equipe majoritariamente masculina (foi sua primeira cena de nudez), mas ela não conseguiu ver nada depois que eles cobriram seus olhos com os efeitos sangrentos da maquiagem.
Eles filmaram primeiro a cena de sexo ao ar livre, em que ela rolou no chão durante muito tempo, sabendo que todos podiam ver cada parte de seu corpo exposto. Em seguida, eles a levaram a um trailer para aplicar a maquiagem, o que demorou algumas horas. Estava frio no trailer e ela ainda estava nua sob o roupão.
Depois disso, ela teve que ser levada de volta ao set, onde ficou parada enquanto o sangue falso vazava e queimava seus olhos. Quando estivessem prontos para filmar, ela tirava o roupão e alguém a ajudava a deitar no cobertor. O diretor então a posicionou para a cena. Ela se sentiu realmente exposta e vulnerável naquele momento porque não tinha ideia de quem estava olhando para ela ou para qual parte de seu corpo eles estavam olhando.
Ela disse que eles filmaram toneladas de imagens enquanto ela estava deitada nua, mas usaram apenas alguns minutos.
Consequências.
Deborah Voorhees revelou que sua nudez neste filme fez com que ela fosse demitida como professora em duas escolas, anos depois. Em uma escola, alguns meninos conseguiram imagens de topless dela no filme e enviaram mensagens de texto para toda a escola.
Isso foi três semanas antes do final do ano letivo, e ela não teve permissão para ficar até a formatura ou sentar-se com seus alunos e colegas professores no evento. Isso a devastou. Ela foi até o diretor e disse: "Olha, eu entendo que as pessoas estão preocupadas com essa coisa de nudez, mas não é como se eu fosse dizer a uma jovem para posar nua, não que haja algo de errado com isso."
Ela disse que não deixa o que aconteceu incomodá-la, acrescentando: “Acho que as pessoas que se preocupam com a nudez em um filme são bobas e ridículas, mas essa é apenas minha opinião.
Punições
Entre abusadores e abusadas, a história tratou de culpabilizar as mulheres de alguma forma. Algum fanático religioso pode dizer que o diretor, que fazia filmes pornôs antes deste em questão, foi punido por Deus por conta do acidente que sofreu.
Não foi. O acidente foi só um acidente. Ocorre com qualquer um. E ele ou qualquer abusador relacionado ao filme jamais foram punidos. Já as mulheres ficaram escravas da objetificação.
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