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DEADPOOL 2 (2018) - FILM REVIEW

 

🔷 Deadpool 2 (2018)

Ou flerte com Wolverine - Parte 2

Sai de cena o monólogo de Wade Wilson, entra o "filme". Deadpool 2 é absolutamente consciênte de sua força com o público e onde quer chegar: trazer Wolverine ao seu universo. Deadpool 2 nasceu praticamente no instante em que o primeiro filme provou que havia público para um super-herói vulgar, autoconsciente e completamente desajustado às regras do gênero.

Ainda antes da estreia do longa original, já se discutiam ideias para uma continuação, e uma delas parecia inevitável: trazer para a tela o mutante Cable, figura central nas histórias em quadrinhos que envolvem o anti-herói. O próprio primeiro filme preparou o terreno para isso, citando o personagem em sua cena pós-créditos — mais uma prova de que, com Deadpool, planejamento e piada costumam caminhar lado a lado.

Com o sucesso comercial consolidado, a sequência foi rapidamente autorizada pela 20th Century Fox, com os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick retornando ao projeto e Ryan Reynolds assumindo um papel ainda mais decisivo nas escolhas criativas. A permanência da equipe original parecia lógica, mas não demorou para que surgissem divergências internas. O diretor Tim Miller, responsável pelo primeiro filme, acabou deixando a produção após conflitos criativos — oficialmente descritos como “diferenças mútuas”, mas que na prática envolviam visões distintas sobre o rumo da franquia.

Miller desejava uma abordagem mais estilizada e grandiosa, enquanto Reynolds defendia a manutenção do humor escrachado e irreverente que havia definido o tom original. A decisão do estúdio de apoiar Reynolds não foi exatamente surpreendente: naquele momento, ele já era praticamente sinônimo do personagem.

A direção acabou nas mãos de David Leitch, conhecido por seu trabalho em John Wick, o que naturalmente trouxe uma nova energia visual ao projeto. Sua experiência com filmes de ação se refletiu em sequências mais elaboradas e coreografadas, ampliando o alcance do espetáculo sem abandonar completamente o espírito irreverente que havia garantido o sucesso inicial. Ainda assim, o grande desafio criativo era claro: fazer um filme maior sem transformá-lo em algo genérico — uma armadilha comum em continuações que confundem escala com qualidade.

O roteiro seguiu um caminho relativamente previsível para uma sequência, mas com um toque emocional mais evidente. Em vez de apostar apenas em ameaças globais ou conflitos grandiosos, a narrativa buscou manter o foco em motivações pessoais. A ideia central girava em torno de uma espécie de crise existencial vivida por Deadpool, ampliando a dimensão emocional do personagem sem abandonar sua natureza cômica.

Se o primeiro filme funcionava como uma história de amor disfarçada de comédia violenta, o segundo tentava se posicionar como uma história sobre família — ainda que apresentada com o sarcasmo e a brutalidade que se tornaram marca registrada do personagem.

A introdução de novos personagens foi essencial para sustentar essa expansão narrativa. Cable, finalmente incorporado à trama, tornou-se um contraponto interessante ao protagonista, enquanto Domino trouxe uma dinâmica curiosa ao filme, especialmente em cenas de ação que exploravam sua habilidade baseada em sorte. A formação da equipe X-Force também abriu espaço para novas interações e piadas, embora muitas dessas ideias tenham sido simplificadas ou cortadas ao longo das reescritas do roteiro, seja por questões orçamentárias ou por excesso de personagens.

Aliás, o elenco de Deadpool 2 é um dos elementos que mais contribuem para o tom caótico e imprevisível do filme, não apenas pela presença dos rostos já conhecidos do primeiro longa, mas também pela introdução de novos personagens que ampliam o universo do protagonista — especialmente a formação improvisada da X-Force, que se transforma em uma das piadas mais memoráveis da narrativa.

Entre os novos rostos, o destaque imediato é Josh Brolin como Cable, um soldado vindo do futuro cuja presença altera completamente a dinâmica narrativa. Brolin interpreta o personagem com uma seriedade quase estoica, funcionando como o contraponto ideal ao caos representado por Deadpool. A diferença de postura entre os dois cria uma tensão constante que gera tanto momentos dramáticos quanto cômicos. Há algo particularmente curioso no fato de Brolin interpretar simultaneamente outro vilão icônico do universo Marvel em outra franquia, mas aqui ele constrói um personagem distinto, marcado por dor, disciplina e uma obsessão que dá peso à história.

Outro acréscimo essencial é Zazie Beetz como Domino, talvez a personagem que mais se beneficia da expansão visual do filme. Sua habilidade baseada na sorte oferece oportunidades criativas únicas para as cenas de ação, e Beetz incorpora a personagem com um carisma discreto, sem cair em exageros. Domino não precisa disputar espaço com Deadpool verbalmente — sua presença é definida por atitudes e pela confiança silenciosa que transmite.

O retorno dos personagens do primeiro filme ajuda a manter a continuidade tonal. Morena Baccarin volta como Vanessa, que ganha importância dramática logo no início da narrativa, estabelecendo o motor emocional que impulsiona as decisões do protagonista. Embora sua presença em tela seja relativamente breve, sua influência narrativa é constante, funcionando como ponto de referência emocional para Deadpool.

Stefan Kapičić, novamente dando voz e presença ao Colossus, mantém o papel de contraponto moral do protagonista. Sua insistência em valores heroicos tradicionais cria situações cômicas justamente por contrastar com a visão cínica de Deadpool. Já Brianna Hildebrand, como Míssil Adolescente Megassônico, retorna com sua habitual expressão impassível e humor seco, agora acompanhada por Shioli Kutsuna como Yukio, cuja personalidade otimista cria um contraste divertido com a postura sisuda da parceira.

Entre os personagens secundários que retornam, Karan Soni continua sendo um dos elementos mais carismáticos como Dopinder, o taxista que evolui gradualmente de mero motorista para aspirante a membro da equipe. Leslie Uggams, como Blind Al, mantém seu humor ácido e sua dinâmica peculiar com Deadpool, enquanto T.J. Miller, como Weasel, retorna com sua verve sarcástica, embora sua presença seja menos dominante do que no primeiro filme.

Mas é na formação da X-Force que o elenco se transforma em uma verdadeira vitrine de participações inesperadas. O grupo é apresentado com pompa e expectativa, apenas para ser rapidamente eliminado de maneira quase absurda. Entre seus membros está Terry Crews como Bedlam, cuja presença física imponente sugere um personagem poderoso, mas cuja trajetória é interrompida antes que qualquer desenvolvimento significativo ocorra. Lewis Tan interpreta Shatterstar, apresentado com um ar de confiança exagerada que rapidamente se transforma em ironia visual.

Bill Skarsgård surge como Zeitgeist, dono de um poder peculiar que envolve vômito ácido — um detalhe grotesco que sintetiza o humor físico do filme. Rob Delaney, como Peter, talvez seja o exemplo máximo do absurdo deliberado da equipe: um homem comum, sem qualquer habilidade especial, que decide se juntar ao grupo apenas por entusiasmo. Entre as participações mais comentadas está Brad Pitt, que aparece como o misterioso Vanisher, personagem invisível cuja identidade é revelada apenas por um breve instante — uma piada visual tão rápida quanto memorável.

Há ainda Julian Dennison como Russell Collins, também conhecido como Firefist, o jovem mutante que funciona como peça central do conflito narrativo. Dennison entrega uma interpretação que mistura vulnerabilidade e agressividade juvenil, tornando o personagem simultaneamente irritante e compreensível.

Até os X-Men aparecem numa ponta. São eles: James McAvoy (Charles Xavier / Professor X), Nicholas Hoult (Hank McCoy / Fera), Tye Sheridan (Scott Summers / Ciclope), Kodi Smit-McPhee (Kurt Wagner / Noturno), Alexandra Shipp (Ororo Munroe / Tempestade) e Evan Peters (Peter Maximoff / Mercúrio). Detalhe: a filmagem dos X-Men fechando a porta foi filmada no set de X-Men: Fênix Negra (2019) e enviada para a equipe de Deadpool 2.

Do lado dos antagonistas secundários, Jack Kesy interpreta Black Tom Cassidy, figura associada ao ambiente prisional do filme. Eddie Marsan surge como o diretor do orfanato mutante, compondo um retrato perturbador de autoridade abusiva, ainda que sua presença seja relativamente breve. Mesmo personagens aparentemente menores contribuem para o humor e o ritmo da narrativa. A própria composição do elenco sugere uma intenção deliberada de brincar com as expectativas do público, especialmente ao reunir atores conhecidos em papéis que terminam de forma abrupta e inesperada.

Deadpool 2 representa um raro caso de continuação que tenta crescer sem abandonar a irreverência que definiu seu antecessor. O filme amplia o universo do personagem, introduz novos aliados e investe em sequências de ação mais elaboradas, mas, ao mesmo tempo, mantém a autoconsciência que o diferencia de outras produções do gênero. Se o primeiro Deadpool foi uma espécie de manifesto contra as convenções dos filmes de super-heróis, Deadpool 2 funciona como um experimento sobre até onde é possível expandir esse universo sem perder sua identidade.

E, no meio de explosões, mutilações exageradas e piadas que desafiam qualquer noção de bom gosto, o filme prova que ainda há espaço para criatividade dentro de um gênero que frequentemente se apoia em fórmulas previsíveis — mesmo que, para isso, seja necessário sacrificar uma equipe inteira de super-heróis em nome de uma única piada bem executada.

Nos bastidores, a produção manteve a tradição de filmar em Vancouver, repetindo locações já associadas ao universo dos X-Men. A abordagem visual do filme buscou preservar elementos estéticos do original, mas ampliando sua escala. Sequências de ação mais elaboradas e uma paleta de cores cuidadosamente planejada indicavam a intenção de tornar a continuação visualmente mais ambiciosa.

Entretanto, o processo de filmagem ficou marcado por um acontecimento trágico. A morte da dublê Joi “SJ” Harris durante a gravação de uma cena de motocicleta interrompeu temporariamente a produção e trouxe à tona discussões sobre segurança em sets de ação. O episódio acabou se tornando um dos momentos mais sombrios associados ao filme, contrastando de maneira dolorosa com o tom irreverente que define a franquia.

Na pós-produção, ajustes adicionais foram realizados para reforçar elementos que haviam funcionado bem em testes preliminares, especialmente as interações envolvendo Cable e Domino. O humor continuou sendo um ponto central do processo criativo, com novas falas e piadas sendo adicionadas até os momentos finais — uma prática facilitada pelo uso da máscara do protagonista, que permite alterações de diálogo mesmo após o encerramento das filmagens principais.

Visualmente, o filme ampliou o uso de efeitos digitais, especialmente na criação de personagens como Colossus e Juggernaut. O primeiro recebeu melhorias em seu design, enquanto o segundo surgiu como uma presença massiva construída inteiramente por meio de computação gráfica. Essas escolhas reforçaram a intenção de expandir o espetáculo visual, aproximando a sequência de produções de maior escala dentro do gênero.

Deadpool 2 teve seu orçamento dobrado, para pouco mais de 100 milhões de dólares, ficando justificado o esmero com sua concepção. A bilheteria foi quase a mesma do primeiro, com 785 milhões em caixa, mostrando que seu público seria fiel, e faltava mesmo os produtores acreditarem no filme como Ryan Reynolds.

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