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DEADPOOL & WOLVERINE (2024) - FILM REVIEW


🔷 Deadpool & Wolverine  (2024)

Ou Wolverine - Parte cedeu ao flerte


Deadpool 3 começa com gore, palavrões, corpos destroçados, politicamente correto levado ao máximo, zoação com a Marvel, Logan desmontado, simulação de sexo e uma introdução/recapitulação iniciando pelo "C*".

Então, faça um favor a si mesmo, divirta-se e pare de caçar erros em filmes como se fossem padrão de perfeição. Deadpool entrega um ótimo blockbuster, mesmo ele mesmo se negando. A mise-en-scène de algumas sequências de ação não tem precedentes mesmo dentro da Marvel, como a que toca "Like a Prayer" (aprovada pela própria Madonna, que sugeriu melhorias inclusive).

Mas, como a música mesma diz, "Life is a mystery", e haverá quem reclame. O desenvolvimento de Deadpool & Wolverine foi marcado por um processo criativo instável, porém altamente colaborativo, refletindo os desafios de integrar o personagem ao Universo Cinematográfico da Marvel (MCU). As primeiras conversas começaram em 2019, quando Ryan Reynolds passou a se reunir com a Marvel Studios para discutir possíveis caminhos narrativos. 

Naquele momento, Kevin Feige ainda avaliava como inserir Deadpool, os X-Men e os mutantes no MCU, enquanto Reynolds apresentava múltiplas ideias — desde um road movie de baixo orçamento até conceitos mais experimentais, incluindo estruturas narrativas não convencionais e interações com Wolverine, embora estas inicialmente tenham sido descartadas.

O roteiro passou por diversas iterações ao longo de 2020 e 2021, com a contratação das roteiristas Wendy Molyneux e Lizzie Molyneux-Logelin, posteriormente substituídas ou complementadas por Rhett Reese, Paul Wernick e Zeb Wells. Apesar do envolvimento de múltiplos talentos, a equipe criativa enfrentava dificuldades para encontrar uma história que não soasse derivativa em relação aos filmes anteriores. A preocupação central era justificar a existência do filme dentro do MCU, equilibrando sua identidade irreverente e metalinguística com as exigências de um universo compartilhado mais amplo.

A entrada do diretor Shawn Levy, confirmada em 2022, consolidou o direcionamento do projeto. Levy, que já havia trabalhado com Reynolds, buscou preservar o “DNA” da franquia — humor autoconsciente, violência explícita e quebra da quarta parede — enquanto ampliava sua escala narrativa. Ainda assim, o projeto chegou a um impasse criativo significativo: nem Reynolds nem Levy estavam convencidos de que haviam encontrado uma premissa suficientemente original, cogitando inclusive adiar o filme.

A solução surgiu em 2022, quando Hugh Jackman decidiu retornar ao papel de Wolverine, revertendo sua aposentadoria após Logan (2017). A inclusão do personagem não apenas redefiniu a proposta do filme, como resolveu grande parte dos problemas estruturais da narrativa. A partir daí, o projeto passou a ser concebido como uma história de dupla (“two-hander”), centrada na dinâmica entre Deadpool e Wolverine. Para preservar a integridade de Logan, estabeleceu-se que esta nova versão do personagem viria de uma realidade alternativa dentro do multiverso, evitando qualquer contradição com o desfecho anterior.

Tematicamente, o filme passou a explorar legado, encerramento de ciclos e reinterpretação de personagens, refletindo tanto a trajetória de Deadpool quanto a de Wolverine no cinema. Essa abordagem também influenciou a decisão de incorporar elementos nostálgicos, incluindo personagens de produções anteriores da Marvel fora do MCU, funcionando como uma espécie de homenagem ao legado dos filmes da antiga 20th Century Fox. O filme é tão genial em sua proposta que boa parte de sua narrativa se passa no lixo. Literalmente.

No aspecto tonal, Levy comparou o filme a comédias de parceria (“buddy movies”), enfatizando a relação entre os protagonistas, ao mesmo tempo em que mantinha a classificação indicativa adulta (R-rated). A Marvel, por sua vez, concedeu liberdade criativa para preservar o estilo característico da franquia, incluindo piadas metalinguísticas direcionadas ao próprio estúdio e ao MCU.

A pré-produção avançou rapidamente após a confirmação de Jackman, e o projeto ganhou escala significativa, com um orçamento que ultrapassou as estimativas iniciais devido, entre outros fatores, às interrupções causadas pelas greves de Hollywood em 2023. As filmagens ocorreram majoritariamente em Londres, com ênfase em locações reais para reforçar uma estética mais tangível, mesmo dentro de uma narrativa que envolve multiverso e elementos altamente fantásticos.

Durante a pós-produção, o filme manteve o foco em funcionar como uma obra autônoma, apesar das conexões com o MCU. Segundo Reynolds e Levy, a prioridade nunca foi estabelecer futuros desdobramentos, mas entregar uma história fechada e satisfatória. Nesse sentido, Deadpool & Wolverine foi concebido não apenas como uma continuação, mas como uma síntese entre diferentes eras do cinema de super-heróis, equilibrando irreverência, nostalgia e renovação dentro de um novo contexto narrativo.

Como se todas as narrativas, pontas soltas, passassem por este filme para fazer parte de um único sentido. Na trama, Deadpool e Wolverine se unem após a linha do tempo do universo de Deadpool ser ameaçada de extinção abrupta pelo Sr. Paradox (Matthew Macfadyen), um agente renegado da Autoridade de Variação Temporal. Como a morte do Wolverine no universo de Deadpool é um fator crucial para sua destruição, Deadpool viaja pelo multiverso em busca de um substituto e acaba encontrando a pior versão possível. E, no processo, encontram ainda Cassandra (Emma Corrin), a gêmea insana do Professor Charles Xavier. O mais interessante é que ela não tem um plano, inicialmente, daqueles vilões dominadores do mundo.

Como é uma história caótica, a oportunidade aparece, ela decide destruir todas as linhas temporais e jogar todas no lixão, onde ela domina. Deadpool & Wolverine é caótico, hilário, repleto de participações especiais, grotesco, inteligente, um pouco doce, nostálgico, sangrento, cheio de ação e estranho, mas é muito bom. Se há algo certo sobre "Deadpool", é que seu herói titular, por razões nunca explicadas, entende seu lugar no mundo — bem, no nosso mundo.

De fato, o mutante irreverente e obsceno certamente fará questão de enfatizar sua consciência do contexto em que vive — ou seja, um multiverso Marvel saturado e cada vez mais labiríntico, que movimenta bilhões de dólares, abrange décadas, estúdios e filmes demais para a maioria dos espectadores contar.

Deadpool & Wolverine só existe por que muitos erros na Marvel e Fox foram cometidos. Ao longo de quase 25 anos, criaram um cenário meio caótico que acabou abrindo espaço para esse encontro. Primeiro, há o histórico da Fox com a franquia X-Men, que sempre foi lucrativa, mas raramente estável. Desde os anos 2000, o estúdio alternou entre grandes acertos e decisões discutíveis. O sucesso inicial de X-Men (2000) e X2 (2003) consolidou o gênero moderno de super-heróis, mas a tentativa de ampliar o universo rapidamente levou a projetos problemáticos, como X-Men: O Confronto Final (2006) e X-Men Origens: Wolverine (2009). 

Este último é particularmente importante: nele surgiu a primeira versão cinematográfica de Deadpool — uma interpretação tão criticada que virou piada recorrente dentro da própria franquia. O personagem teve sua boca costurada e perdeu justamente o que o definia: o humor e a metalinguagem. 

Outro fator decisivo foi a fragmentação dos direitos dos personagens da Marvel, consequência de dificuldades financeiras da Marvel Entertainment nos anos 1990. X-Men e Quarteto Fantástico ficaram com a Fox, enquanto a Marvel Studios desenvolveu seu próprio universo sem esses personagens. Esse “erro” corporativo — ou necessidade econômica — gerou universos paralelos que nunca deveriam coexistir narrativamente, mas que acabaram colidindo décadas depois, quando a Disney comprou a Fox em 2019. Sem essa venda, Deadpool & Wolverine provavelmente não existiria na forma atual.

Também entra na equação a fadiga criativa da franquia X-Men na fase final da Fox. Filmes como Apocalipse (2016) e Fênix Negra (2019) sofreram com reescritas, refilmagens e tentativas de corrigir rumos anteriores. A cronologia da saga virou um quebra-cabeça, com linhas temporais sendo apagadas e recriadas. Deadpool & Wolverine surgiu justamente nesse terreno instável, quase como uma resposta cínica e autoconsciente ao próprio caos narrativo acumulado.

Há ainda um aspecto curioso: o Wolverine de Hugh Jackman já havia tido um encerramento considerado definitivo em Logan (2017) — um final respeitado e emocional. Retomar o personagem depois disso poderia parecer um retrocesso, mas o uso do multiverso e do tom metalinguístico de Deadpool permite tratar esse retorno como comentário sobre a própria indústria: franquias nunca terminam de verdade se ainda podem render.

No fundo, o que torna essa ideia interessante é que Deadpool & Wolverine funciona quase como um produto dos erros, excessos e improvisos do cinema de super-heróis das últimas duas décadas. Sem a versão fracassada de Deadpool em 2009, talvez não houvesse o impulso para reinventá-lo em 2016. Sem a venda da Fox para a Disney, não haveria integração com o MCU. Sem a confusão cronológica dos X-Men, talvez não houvesse tanta liberdade para brincar com multiversos e nostalgia.

Até o "erro" que nem aconteceu é zoado, como enquanto Elektra (Jennifer Garner), Blade (Wesley Snipes) e Gambit (Channing Tatum) falam sobre retornar aos seus respectivos universos, Gambit observa que não tem certeza de ter um universo ao qual retornar e do fato de que ele pode até ter nascido no Lixão. Isso se refere ao filme não produzido de Gambit, estrelado por Tatum, que esteve em um inferno de desenvolvimento por anos antes de a Disney cancelar oficialmente o projeto em 2019.

Deadpool é isto. Uma sinergia perfeita entre emocionar, pesar o clima e fazer piada de tudo. A pergunta que fica é: às custas de quais erros um Deadpool 4 surgirá? E até quando fazer piada do que deu errado vai funcionar? A resposta é óbvia: ninguém sabe. 

Mas alguém poderia supor que o filme bateria 1 bilhão e 300 nas bilheterias mundiais? Também não. Então, o hoje é o que importa. E até aqui, Deadpool arrasou.


"Para Henry Delaney". 


 

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