OS NOVOS MUTANTES (2020) - FILM REVIEW
🔷 Os Novos Mutantes (2020)
A produção problemática e o tortuoso lançamento dos novos mutantes.
Entre todos os filmes derivados do universo X-Men, poucos tiveram uma trajetória tão conturbada quanto Os Novos Mutantes (The New Mutants, 2020). Pensado inicialmente como o início de uma nova trilogia e uma ousada reinvenção do gênero de super-heróis, o longa acabou se tornando o capítulo final da franquia produzida pela 20th Century Fox. Ao longo de anos de desenvolvimento, mudanças criativas, adiamentos sucessivos, a aquisição da Fox pela Disney e, por fim, a pandemia de COVID-19, o projeto tornou-se um exemplo emblemático de como fatores industriais podem moldar — e comprometer — um filme antes mesmo de ele chegar ao público.
A ideia de adaptar os Novos Mutantes surgiu ainda em 2009, quando a produtora Lauren Shuler Donner demonstrou interesse em levar a equipe juvenil dos quadrinhos para o cinema. No entanto, o projeto só ganhou impulso anos depois, quando o diretor Josh Boone concluiu o sucesso juvenil A Culpa é das Estrelas (2014). Fã declarado dos personagens desde a infância, Boone criou, ao lado do roteirista Knate Lee, uma espécie de história em quadrinhos experimental utilizando painéis das HQs de Chris Claremont e Bill Sienkiewicz. Esse material servia como proposta visual e narrativa para uma trilogia cinematográfica.
O produtor Simon Kinberg aprovou a ideia, e em maio de 2015 a Fox oficializou Boone como diretor e roteirista. Desde o início, o projeto pretendia expandir o universo dos X-Men, com uma abordagem distinta das produções principais. A proposta era clara: criar um filme de super-heróis com forte inspiração em histórias de terror psicológico, algo descrito como um encontro entre Stephen King e o cinema adolescente de John Hughes.
Essa abordagem diferenciada era vista como estratégica para manter a franquia relevante, seguindo o sucesso de produções que fugiam do padrão tradicional, como Deadpool (2016) e, posteriormente, Logan (2017).
Tempestade se formando...
Durante o desenvolvimento do roteiro, diversos personagens tradicionais dos X-Men foram considerados, incluindo Professor Xavier e Tempestade, que chegaram a integrar versões iniciais do texto. Com revisões posteriores, esses personagens foram retirados, refletindo mudanças narrativas e também limitações criativas impostas pelo estúdio.
Outro aspecto que gerou controvérsia foi o tom do filme. Boone desejava realizar um terror completo, com atmosfera intensa e elementos sobrenaturais marcantes. No entanto, a Fox inicialmente resistiu à ideia de um horror explícito, preferindo um filme mais acessível ao público jovem-adulto. O resultado foi um compromisso entre as duas abordagens: um suspense sobrenatural com elementos de terror, mas sem violência gráfica excessiva.
O elenco começou a ser formado entre 2016 e 2017, incluindo nomes que se tornariam centrais para o marketing do filme: Blu Hunt como Danielle Moonstar, Anya Taylor-Joy como Magik, Maisie Williams como Wolfsbane, Charlie Heaton como Cannonball, Henry Zaga como Sunspot e Alice Braga como Dra. Cecilia Reyes. A escalação de Zaga gerou discussões por conta da representação do personagem brasileiro Roberto da Costa, tradicionalmente retratado nas HQs como afro-brasileiro.
As filmagens ocorreram entre julho e setembro de 2017, em Boston, com grande parte das cenas gravadas no Medfield State Hospital, local conhecido por sua atmosfera sombria e já utilizado em produções como Ilha do Medo (2010). O diretor buscou privilegiar efeitos práticos, inspirando-se em técnicas clássicas do cinema de terror, como figuras pressionando paredes feitas com tecidos elásticos — método popularizado por Wes Craven.
Apesar do entusiasmo criativo, o processo foi descrito como estressante. Boone relatou sentir-se limitado criativamente, já que muitas de suas ideias mais sombrias haviam sido suavizadas para atender às exigências do estúdio. Após a conclusão das filmagens, o primeiro corte foi bem recebido internamente e apresentou resultados positivos em exibições-teste, comparáveis aos primeiros testes de Deadpool. O plano original incluía apenas três dias adicionais de filmagens para ajustes pontuais.
Entretanto, o sucesso do terror It: A Coisa (2017) mudou a percepção do estúdio. Ao montar o primeiro trailer de Os Novos Mutantes, a Fox destacou os elementos assustadores do filme, o que gerou entusiasmo entre os fãs. Animado com a reação, o estúdio decidiu alterar novamente a direção criativa: agora o objetivo era tornar o filme mais assustador, aproximando-o da visão original de Boone. Essa decisão levou à necessidade de extensas refilmagens — estimadas em até metade do longa — e inaugurou uma sequência de adiamentos.
No olho do furacão
Inicialmente programado para estrear em abril de 2018, o filme foi adiado para fevereiro de 2019 (para evitar Deadpool 2), depois para agosto de 2019 (para evitar Fênix Negra) e, posteriormente, para abril de 2020. Esses adiamentos tinham múltiplas razões: evitar competição interna com outros filmes da franquia, reorganizar a estratégia de marketing e, principalmente, realizar refilmagens que nunca chegaram a ocorrer.
As refilmagens planejadas incluíam alterações significativas na narrativa, como a introdução de novos personagens e mudanças no antagonista. Uma cena pós-créditos chegou a ser planejada para apresentar Antonio Banderas como o pai de Sunspot, preparando possíveis sequências. Mas o destino do filme mudaria drasticamente com um evento externo à produção: a aquisição da Fox pela Disney.
Em março de 2019, a Disney concluiu a aquisição da 20th Century Fox, alterando profundamente o futuro da franquia X-Men. Nesse momento, as refilmagens ainda não haviam sido realizadas, e o projeto entrou em um limbo criativo. A nova administração avaliou o filme e demonstrou pouco entusiasmo com seu potencial comercial. Houve discussões sobre lançá-lo diretamente em streaming, mas posteriormente decidiu-se concluir a produção para lançamento nos cinemas.
Durante esse período, mudanças adicionais foram feitas na edição e nos efeitos visuais, além da remoção de conexões mais diretas com os filmes anteriores dos X-Men, refletindo a intenção da Disney de reorganizar a franquia dentro de um novo contexto. Um episódio curioso ocorreu quando o site oficial D23 descreveu o filme como parte do Universo Cinematográfico Marvel (MCU). A informação foi rapidamente corrigida, e a Disney esclareceu que o filme não faria parte do MCU — sinalizando a incerteza estratégica em torno da obra.
Quando Boone retornou ao projeto após a aquisição da Fox, cerca de 75% do filme estavam editados, mas muitos efeitos visuais ainda não haviam sido concluídos. As refilmagens planejadas acabaram sendo descartadas, principalmente porque o elenco jovem havia envelhecido significativamente após anos de atraso, o que comprometeria a continuidade visual. O trabalho final concentrou-se em concluir efeitos especiais, incluindo habilidades mágicas da personagem Magik e a criação digital do dragão Lockheed.
Finalmente o furacão passou.
Veio Apocalypse Now.
Em março de 2020, Boone declarou o filme oficialmente concluído. Poucos dias depois da conclusão do filme, a pandemia de COVID-19 levou ao fechamento global de cinemas. A Disney retirou Os Novos Mutantes do calendário de lançamentos, intensificando ainda mais a sensação de incerteza. Durante meses, surgiram rumores sobre um lançamento direto em streaming, prática adotada por diversos estúdios naquele período. No entanto, a Disney decidiu manter a estreia nos cinemas, marcando finalmente a data de lançamento para 28 de agosto de 2020.
Após anos de atraso e expectativa irregular, Os Novos Mutantes chegou aos cinemas em um cenário extremamente desfavorável: salas parcialmente fechadas, público reduzido e interesse enfraquecido por uma franquia já encerrada. Para ter lucro, o filme teria que fazer mais de 2,5 vezes o orçamento. Os Novos Mutantes custou 67 milhões, mas ele rendeu 49 milhões. O que dizer mais? Os Novos Mutantes tornou-se símbolo do fim da era. Dos X-Men e da própria Fox.
O mais irônico em toda a trajetória de Os Novos Mutantes é que, depois de anos de adiamentos, versões reeditadas, rumores sobre refilmagens gigantescas que nunca aconteceram e um estúdio inteiro sendo comprado no meio do caminho, o que chegou às telas não parece um filme amaldiçoado pelo caos — parece, simplesmente, um filme pequeno, tímido e surpreendentemente sem graça.
Depois de tanto drama fora das telas, esperava-se ao menos um desastre fascinante, algo no nível de um Quarteto Fantástico (2015) ou outro colapso épico que desse assunto por décadas. Mas não. O verdadeiro golpe de ironia é que Os Novos Mutantes não é memoravelmente ruim, e sim esquecivelmente medíocre. Um destino talvez mais cruel. O problema é que, na prática, o filme parece ter medo de ser aquilo que dizia ser.
Clube dos 5
A história acompanha Danielle Moonstar (Blu Hunt), uma nativa americana Cheyenne cuja aldeia é dizimada por uma entidade desconhecida. Ao acordar algemada, Dani se junta a quatro jovens mutantes perigosos mantidos em cativeiro no Hospital Milbury, uma estranha instituição psiquiátrica para reabilitar aqueles com poderes mutantes. A partir daí, o filme muda de rumo, à medida que descobrimos mais sobre o luto que aflige cada mutante e os vemos confrontar seus medos.
O resultado é um longa que vive em permanente estado de hesitação. Não é terror o suficiente para assustar, não é drama o suficiente para emocionar, e certamente não é um filme de super-heróis tradicional o bastante para empolgar. É como se cada decisão criativa tivesse sido revisada tantas vezes que o filme perdeu qualquer personalidade forte no processo — um produto de comitê que tentou agradar todas as direções e acabou não satisfazendo nenhuma.
Outro ponto inevitável de ironia está na promessa de uma trilogia. Ao assistir ao filme, é difícil não imaginar executivos olhando para o resultado final e percebendo que aquilo que deveria ser o início de uma nova saga parecia mais o epílogo de uma ideia que nunca chegou a se consolidar. O que deveria ser o nascimento de um novo ramo dos X-Men acabou se tornando o epitáfio da franquia sob a Fox.
E existe um detalhe quase cruel nesse desfecho: Os Novos Mutantes em plena pandemia, com cinemas vazios e público disperso. O filme que passou anos tentando encontrar sua forma finalmente estreou em um mundo que mal estava interessado em recebê-lo. Uma metáfora perfeita para sua trajetória.
No fim das contas, Os Novos Mutantes não é o desastre cinematográfico lendário que muitos esperavam — e talvez isso seja o comentário mais irônico possível. Depois de sobreviver a mudanças de estúdio, conflitos criativos, adiamentos intermináveis e uma pandemia global, o filme não morreu em um incêndio espetacular. Morreu de anemia criativa. Os Novos Mutantes acaba parecendo exatamente como seus personagens: cheio de potencial reprimido, preso em uma instituição que nunca soube o que fazer com ele.
Eles queriam fazer um filme de terror.
Fizeram o horror. O Horror.
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