O EXORCISTA (1973) - FILM REVIEW
O Exorcista.
Não sei ao certo se O Exorcista era uma daquelas obras que não mereciam continuações, mas o que fizeram nos filmes a seguir foi uma covardia. Manchou a filmografia de John Boorman, trouxe de volta dos mortos o padre Karras no terceiro filme, e ainda cometeram a obscenidade de fazer um prequel tão ruim que o refizeram, mas lançaram os dois. E não parou por aí, como sabemos...
Mas agora, o maior de todos...
🔷O Exorcista (1973)
Para falar do maior filme de horror de todos os tempos, primeiro fui procurar (na internet, não no dicionário) a melhor definição de "empatia", que é basicamente a capacidade de se colocar no lugar do outro, tentando compreender instintivamente sentimentos, emoções e o que levou a pessoa a passar por determinadas situações e tomar atitudes específicas.
Afinal, por que comecei a falar de "O Exorcista" desta forma? Porque só quem viveu o horror de assistir ao filme no cinema, em plena década de 70, sabe o que foi. Entrar numa sala escura e ver quase duas horas de tortura psicológica, num filme pensado para incomodar, não foi para muitos.
Agora imagine eu, criança, começando a trajetória cinéfila, sendo "obrigado" a ver o filme à meia-noite numa casa cheia de gente medrosa? Ou ainda rever o filme nas exibições de Corujão, Supercine ou Sessão de Gala, tarde da noite, sem computador ou celular para me distrair. "O horror, o horror...", definiria o Coronel Kurtz.
Quem passou por estes e outros traumas guarda até hoje um sentimento de incômodo. Confesso que hoje, agora adulto, sempre que assisto, me preparo. As gerações que não viveram isso e nasceram na era do cinema fast food (no streaming, para piorar) não têm acesso ao sentimento vivido por quem viveu o evento "O Exorcista". Curioso pensar que minha mãe viu o filme quando estava grávida, já quase para me colocar no mundo dos filmes. Imagine como seria glorioso se eu tivesse nascido no cinema? Vomitava abacate na certa... Ou sopa de ervilha...
De qualquer forma, já conversei com diversas pessoas que não entendem a comoção com o filme. Algumas disseram que nem é assustador. Aqui entra a empatia. Quem tem acesso hoje a 600 milhões de fotos e vídeos de nudez na internet não tem a dimensão do que foi a nudez de Hedy Lamarr em "Êxtase", de 1933. Quem admira ou até dá de ombros com a perfeição do conflito entre Godzilla e King Kong não consegue imaginar como foi para a plateia assistir ao Kong, também em 1933.
Quem critica os nerds quarentões que foram aos céus com o Capitão América empunhando o martelo de Thor, não viveu a época em que filme de herói era um momento de vergonha alheia coletiva. Eu mesmo, por décadas, só amava o primeiro Superman (e vá lá, o segundo, já que era muito reprisado na sessão da tarde). Foi só quando Batman (em 1989), Batman - O Retorno (1992), X-Men (2000) e Homem-Aranha (2002) vieram ao mundo que começamos a respirar novos ares.
Deixando de lado a argumentação da empatia e voltando para o filme...
Na trama, que se passa em Georgetown, Washington, uma atriz vai gradativamente tomando consciência dos reais motivos que fazem a sua filha de doze anos ter um comportamento fora do comum. Depois de cessar os recursos, ela pede ajuda a um padre, que também é um psiquiatra, e este chega à conclusão de que a garota está possuída pelo demônio. Ele solicita então a ajuda de um segundo sacerdote, especialista em exorcismo, para tentar livrar a menina da provável possessão.
O Exorcista foi o primeiro e único filme de terror a ser indicado ao Oscar de melhor filme. E foi relançado nos cinemas em 2000, com uma nova cópia, som digital e 11 minutos de cenas extras inseridas ao longo do filme. Esta tal "Versão que você nunca viu" foi um delírio dos envolvidos em ganhar uns trocados com um filme perfeito inserindo efeitos especiais que destoam do filme, roubando alguns dos grandes momentos do filme. Eu tive o desprazer de vê-lo no cinema.
A minha geração conseguiu ver diversas entrevistas e making of do filme no VHS duplo lançado (material hoje facilmente encontrado na internet ou, por enquanto, no streaming HBO Max). Eu devorei cada informação (o acesso na época era limitadíssimo) e escrever parece fácil, já que tenho cada imagem na minha mente, como o grito de dor da atriz Ellen Burstyn na sequência em que a personagem é arremessada para longe por sua filha possuída. A atriz bateu violentamente com o cóccix contra a cama e gritou no mesmo instante. Esta cena foi filmada e mantida no filme (o diretor Friedkin era um sádico).
Em uma entrevista que pode ser vista no documentário, Jason Miller afirmou que teve um grande confronto verbal com William Friedkin depois que o diretor disparou uma arma perto de sua orelha para obter uma reação autêntica dele. Ele disse a Friedkin que é ator e que não precisava de uma arma para agir surpreso ou assustado.
Bastidores precisando ser benzidos...
No filme, o personagem do ator Jack MacGowran é o primeiro a morrer, despencando de uma tenebrosa escadaria. Uma semana após terminar de gravar, MacGowran morreu mesmo. Dizem que é vítima de pneumonia. Será?
Muitas "tragédias" ocorreram com o "amigo do amigo do amigo". O ator Max von Sydow, o padre Merrin, mal começou a gravar quando soube que seu irmão havia morrido. A esposa grávida de um assistente de câmera perdeu o bebê. E por aí vai...
A equipe técnica sofreu horrores durante a produção. O homem que refrigerava o quarto onde aconteceram as cenas de possessão morreu de maneira inexplicável. Um vigia noturno que cuidava dos cenários foi morto a tiros durante uma madrugada. Um carpinteiro cortou o polegar fora. Outro serrou o dedão do pé. Imprudência no trabalho? Não, culpa do diabo...
O set onde foi rodada a maior parte das cenas do longa pegou fogo no meio das filmagens. O único lugar que ficou intacto foi o quarto da menina possuída, Regan. Além disso, a casa onde filmavam as externas do longa, bem próxima às famosas escadas de Georgetown, demorou mais de 30 anos para ser alugada, dado o medo dos inquilinos.
Eventualmente, o diretor William Friedkin consultava o Reverendo Thomas Birmingham sobre a possibilidade de exorcizar o set de filmagens. Em todas as vezes, o reverendo recusou o pedido, dizendo que isto causaria ainda mais ansiedade no elenco. Mas, por diversas vezes, ele visitou os sets para benzê-los e tranquilizar o elenco.
O elenco e a produção
A atriz Ellen Burstyn aceitou atuar no filme estabelecendo uma única condição: que sua personagem não dissesse a frase "I believe in the devil!" ("Eu acredito no demônio!"), contida no roteiro original. Os produtores atenderam ao pedido e esta frase foi retirada da história.
Inicialmente, a voz do demônio seria da própria Linda Blair. Entretanto, após 150 horas de trabalho em cima do som do filme, o diretor resolveu substituí-la pela voz de Mercedes McCambridge, que, para fazer a voz do demônio, comeu ovos crus, tomou muito álcool e fumou diversos cigarros (o que foi um prazer para ela).
Para fazer Max von Sydow parecer muito mais velho do que seus 44 anos, o maquiador Dick Smith aplicou quantidades generosas de pontilhado na testa, olhos e pescoço de von Sydow. Sua pele facial foi então esticada manualmente enquanto o látex líquido era aplicado. Quando o látex secou, sua pele esticada foi liberada, fazendo com que o filme de borracha enrugasse. Esse procedimento diário de maquiagem durou três horas.
Uma das cenas mais famosas do filme, quando o padre Merrin sai de um táxi e fica na frente da residência dos MacNeil, foi inspirada na série de pinturas "Império da Luz" de 1953-1954 ("L'Empire des Lumières") de René Magritte.
Já na sequência em que as palavras "me ajude" surgem do torso de Regan, o efeito foi alcançado construindo uma réplica de espuma de látex da barriga da atriz Linda Blair, escrevendo as palavras com um pincel e fluido de limpeza, depois filmando as palavras como elas se formaram a partir da reação química. O técnico de efeitos especiais Dick Smith então aqueceu as bolhas em formação com um secador, fazendo com que elas esvaziassem. Quando a filmagem foi rodada para trás, parecia que as palavras estavam saindo da pele da jovem Regan.
William Friedkin teve que levar uma equipe totalmente britânica para filmar no Iraque porque os EUA não tinham relações diplomáticas com o Iraque naquela época. Eles foram autorizados a filmar perto de edifícios antigos e escavações arqueológicas reais em condições que incluíam ensinar aos cineastas iraquianos técnicas avançadas de cinema, bem como fazer sangue falso.
A cena mais perturbadora para a maioria dos espectadores foi a de Regan fazendo uma arteriografia (o primeiro teste que ela fez no hospital). William Friedkin atribui isso ao fato de que o procedimento em si parecia muito realista, o homem que interpretou o médico era um neurocirurgião real na vida real e que Linda Blair era tão crível quanto uma menina jovem e assustada passando por um procedimento invasivo e assustador. E, para tornar esta cena mais aterrorizante, há um futuro serial killer real nela.
Paul Bateson (técnico de raios-X de profissão) é um dos radiologistas presentes durante a cena, e vários anos depois ele foi condenado pelo assassinato do crítico de cinema Addison Verill. Bateson se tornou o principal suspeito no que ficou conhecido como "o saco de assassinatos", realizado de 1977 a 1978, no qual seis vítimas do sexo masculino foram mutiladas e desmembradas, seus restos mortais embrulhados em sacos plásticos pretos e jogados no rio Hudson. Alguns dos horríveis fragmentos chegaram à costa de Nova Jersey, outros chegando perto do World Trade Center. Esses assassinatos foram a inspiração para outro filme de William Friedkin, "Parceiros da Noite", estrelado por Al Pacino.
Curioso que, em cima desta história, a outra dê dúvida quanto ao verdadeiro autor dos crimes posteriores. O assassino confesso da morte do jornalista sempre negou ser o tal serial killer. E o que vou dizer vai ser bem tendencioso, mas o fato é que ele só confessou para o diretor, numa visita à prisão. E, com este merchan grátis, o diretor fez seu novo filme. A polícia nunca estabeleceu ligação de Paul com os crimes.
A residência real em Georgetown, que é usada para as fotos externas, tem um pátio bastante grande entre ela e os infames degraus. A janela que leva ao quarto de Regan fica a pelo menos 12 metros do topo da escada. Essa distância tornaria impossível para qualquer pessoa "jogada" da janela realmente pousar nos degraus. No filme, os cenógrafos colocaram uma ala falsa na casa, para que a suposta janela de Regan ficasse de fato perto da escadaria infame. Hoje o local está relativamente diferente.
E, por fim, a substância que a possuída Regan (Linda Blair) arremessa no padre Damien Karras (Jason Miller) é uma sopa de ervilha grossa. Especificamente, é a sopa de ervilha da marca Andersen.
Bateu na trave, ufa!
O ótimo diretor John Boorman chegou a se oferecer para dirigir O Exorcista, mas posteriormente desistiu do projeto, por considerar a história cruel demais. Ele, entretanto, aceitou dirigir O Exorcista II - O Herege (1977), lançado quatro anos depois...
E pensar que o estúdio queria Marlon Brando para o papel do padre Merrin e Jack Nicholson para o papel do padre Karras. William Friedkin vetou o primeiro e, quanto a Jack, ele achava que o ator era muito profano para interpretar um padre.
Ou seja, num universo paralelo, pode existir O Exorcista, dirigido por John Boorman, com Brando e Nicholson.
O horror, o horror, diria a platéia...
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