X-MEN: APOCALIPSE (2016) - FILM REVIEW
🔷 X-Men: Apocalipse (2016)
Para ter lucro, o filme teria que fazer mais de 2,5 vezes o orçamento. X-Men: Dias de um Futuro Esquecido custou 200 milhões, mas ele rendeu 746 milhões, ou seja, oficialmente, é o primeiro filme da franquia a dar lucro. X-Men: Apocalipse custou 178 e rendeu 543 milhões, fazendo dele, oficialmente, o segundo filme da franquia a dar lucro. E o que isso lhe garantiu? Certificado de qualidade? Longe disto.
Também conhecido como Apocalipse, En Sabah Nur (Oscar Isaac) é o mutante original. Após milhares de anos, ele volta à vida disposto a garantir sua supremacia e acabar com a humanidade. Ele seleciona quatro Cavaleiros nas figuras de Magneto (Michael Fassbender), Psylocke (Olivia Munn), Anjo (Ben Hardy) e Tempestade (Alexandra Shipp). Do outro lado, o professor Charles Xavier (James McAvoy) conta com uma série de novos alunos, como Jean Grey (Sophie Turner), Ciclope (Tye Sheridan) e Noturno (Kodi Smit-McPhee), além de caras conhecidos como Mística (Jennifer Lawrence), Fera (Nicholas Hoult) e Mercúrio (Evan Peters), para tentar impedir o vilão.
O desenvolvimento do projeto já indicava uma mudança de escala dentro da franquia, ampliando o foco para as origens dos mutantes e consolidando uma nova geração de personagens. O filme foi anunciado por Bryan Singer ainda antes do lançamento de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, com a proposta de funcionar ao mesmo tempo como conclusão de um ciclo e reinício narrativo. Ambientado em 1983, o longa fecha a trilogia iniciada por X-Men: Primeira Classe, trazendo versões mais jovens de figuras centrais como Ciclope, Jean Grey e Tempestade.
Organizando, reorganizando ou bagunçando?
O processo de escalação de X-Men: Apocalipse deixa claro, desde o início, a intenção de reposicionar a franquia mais uma vez — agora não apenas conciliando linhas temporais, mas reconstruindo suas figuras centrais sob uma nova perspectiva geracional. Ainda em 2014, com o projeto tomando forma, Bryan Singer confirmou Oscar Isaac como o antagonista Apocalipse, uma escolha que indicava um vilão mais performático e quase mitológico, em contraste com as ameaças mais políticas do filme anterior.
Ao longo de 2015, o elenco começou a se consolidar com versões jovens de personagens icônicos: Alexandra Shipp como Tempestade, Sophie Turner como Jean Grey e Tye Sheridan como Ciclope. Esse movimento não era apenas estético, mas estrutural — uma tentativa de estabelecer uma nova base para o futuro da saga, deslocando o eixo narrativo para personagens que, até então, orbitavam versões mais consolidadas. Curiosamente, nomes como Grace Fulton e Ashley Benson chegaram a ser considerados para Jean Grey, o que revela um processo de definição ainda em aberto para o tom e a interpretação da personagem.
Paralelamente, o filme também buscava manter certa continuidade com Primeira Classe, trazendo de volta Rose Byrne como Moira MacTaggert, enquanto expandia o universo com novas adições como Kodi Smit-McPhee no papel de Noturno e Lana Condor como Jubileu. A presença de Olivia Munn como Psylocke e a confirmação de Ben Hardy como Anjo reforçavam a intenção de explorar um espectro mais amplo do universo mutante, ainda que com diferentes níveis de relevância narrativa.
Ao mesmo tempo, havia um esforço de continuidade mais discreto, quase funcional, com retornos como Lucas Till (Destrutor) e Josh Helman (William Stryker), além da inclusão do mutante Caliban, ampliando o repertório de referências aos quadrinhos. E, como já se tornara tradição dentro da franquia, Hugh Jackman surgiria novamente como Wolverine — ainda que em uma participação breve, mas suficiente para manter a sensação de continuidade entre as diferentes fases desse universo que, a cada novo capítulo, parecia se reescrever.
A construção dos personagens segue uma linha semelhante à de Primeira Classe, mas com um foco maior em formação e instabilidade. Scott Summers ainda está longe de se tornar o líder seguro; Jean Grey é apresentada como poderosa, porém emocionalmente imatura, e Tempestade surge como uma figura deslocada, vulnerável a influências externas. Esse conjunto reforça a ideia de que os X-Men ainda não são uma equipe consolidada, mas indivíduos em processo de definição moral e identitária.
No centro da narrativa está Apocalipse, uma entidade que se conecta ao passado remoto da humanidade. A proposta de explorar a presença mutante ao longo da história introduz uma camada quase mitológica, sugerindo que figuras vistas como deuses ou milagres podem ter origem mutante. Isso desloca o conflito para um nível mais amplo, em que poder e divindade se confundem.
Dentro desse contexto, o filme também aprofunda o arco de Mística ao longo da trilogia. Sua trajetória passa por diferentes alinhamentos, de Xavier para Magneto, depois uma posição independente, até retornar ao lado de Xavier, formando um ciclo que reflete a instabilidade moral do universo mutante. Ao contrário de uma evolução linear, o percurso da personagem evidencia conflito interno constante, culminando em uma postura mais firme e consciente.
As consequências dessas construções aparecem na forma como os personagens lidam com poder e responsabilidade. A influência de Apocalipse sobre jovens mutantes, especialmente aqueles em busca de identidade, reforça a ideia de que poder sem moral clara pode levar à destruição. Ao mesmo tempo, o filme posiciona Xavier como ponto de equilíbrio, tentando organizar esse grupo ainda fragmentado em algo próximo de uma equipe.
Nos bastidores, a produção manteve a escala elevada iniciada em Montreal em 2015 e um forte uso de efeitos visuais, especialmente em sequências como a de Mercúrio. Durante as filmagens, Singer chegou a se afastar temporariamente por questões de saúde, sendo substituído momentaneamente por Simon Kinberg na direção de algumas cenas, o que evidencia um processo de produção com ajustes ao longo do caminho.
Há 10 anos, quando assisti ao filme, encontrei o pior X-Men desta nova trilogia. Hoje, revendo, o que me incomoda é a bagunça narrativa de toda a franquia. Nos quadrinhos, Magneto (Erik Lehnsherr) é pai de vários personagens notáveis no universo Marvel, mas, particularmente, o que me interessa falar são Wanda Maximoff (Feiticeira Escarlate) e Pietro Maximoff (Mercúrio).
Fica implícito que a menina que aparece no filme anterior, além do Mercúrio (Evan Peters), são seus filhos. Mas esta história não é desenvolvida. A repentina humanização de Magneto, trabalhando em uma siderúrgica e formando uma nova família, também não convence. Personagens interessantes como Bishop, Mancha Solar, Blink e Apache, que aparecem pela primeira vez no filme anterior, aqui não são explorados.
X-Men parece a franquia Transformers, que leva a continuidade como ofensa. São tantas linhas narrativas com gaps gigantescos que fica complicado defender. Eles pegam linhas narrativas das HQs e dão vida a realidades paralelas dentro de um mesmo universo, como Tempestade, que é criada no Harlem, em Nova York, e no Cairo, Egito. Isto justifica sua união ao vilão, antes de se tornar X-Men.
Outro exemplo evidente dessa desorganização está no próprio Charles Xavier. Em X-Men: O Confronto Final (2006), vemos o personagem morrer de forma definitiva, desintegrado por Jean Grey. A cena tem peso dramático, funciona como clímax emocional e parecia encerrar um ciclo. No entanto, em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014), Xavier retorna sem que o filme se preocupe realmente em explicar como recuperou o corpo ou superou a morte. Existe uma breve menção a um corpo em coma visto em uma cena pós-créditos do terceiro filme, mas a solução nunca é dramatizada. O retorno acontece como um dado, não como uma consequência narrativa.
O mesmo vale para Wolverine. Em X-Men Origens: Wolverine (2009), o personagem perde a memória após levar um tiro especial de adamantium. A amnésia é tratada como um ponto central de sua tragédia pessoal. Porém, ao longo dos filmes seguintes, a memória de Logan parece funcionar de acordo com a conveniência do roteiro. Em Wolverine: Imortal (2013), ele demonstra lembranças claras de eventos anteriores, enquanto em Dias de um Futuro Esquecido a própria estrutura temporal cria uma nova versão do personagem que passa a carregar memórias de duas linhas do tempo distintas — algo interessante em conceito, mas tratado sem o aprofundamento que a ideia exigia.
Jean Grey é outro caso emblemático. Em X-Men: O Confronto Final, a Fênix é apresentada quase como uma entidade maligna, algo externo e incontrolável. Já em X-Men: Apocalipse (2016), a manifestação da Fênix surge como um poder interior latente, sugerido desde a infância. Em X-Men: Fênix Negra (2019), há uma terceira abordagem, em que a entidade volta a ser tratada como uma força cósmica que invade Jean durante uma missão espacial. São três leituras diferentes do mesmo conceito, sem que uma dialogue verdadeiramente com a outra.
Há também o caso de Mística. Na trilogia original, vivida por Rebecca Romijn, ela é uma vilã fiel a Magneto, fria e pragmática. Na nova cronologia, com Jennifer Lawrence, a personagem se torna uma espécie de heroína relutante e símbolo público dos mutantes, inspiração direta para jovens como Ciclope e Noturno. A mudança não é apenas de personalidade, mas de função narrativa. A Mística terrorista da trilogia original dificilmente coexistiria com a figura quase messiânica apresentada em Apocalipse. Ainda assim, ambas pertencem, teoricamente, ao mesmo universo reconfigurado.
Nem mesmo detalhes menores escapam dessa lógica fragmentada. Emma Frost aparece em X-Men Origens: Wolverine como uma jovem mutante resgatada por Logan, interpretada por Tahyna Tozzi. Poucos anos depois, em X-Men: Primeira Classe (2011), a personagem retorna como adulta, interpretada por January Jones, já integrante do Círculo Interno de Sebastian Shaw, sem qualquer tentativa de estabelecer ligação direta entre as duas versões.
No fim, o problema não está em adaptar quadrinhos — que, por natureza, convivem com múltiplas versões e reinterpretações —, mas em não assumir essa multiplicidade como parte do projeto. A Marvel Studios, por exemplo, abraçou o multiverso como conceito estruturante. Já os filmes dos X-Men, durante anos, oscilaram entre reboot, prequel, sequência e reescrita retroativa, sem jamais estabelecer regras claras para o próprio universo. O resultado é uma franquia rica em personagens e ideias, mas constantemente sabotada por sua própria falta de coesão interna.
E aturar o personagem Apocalipse falando com a voz de Galadriel em Senhor dos Anéis só não é mais vergonhoso que ver a escola do professor Xavier explodir, sabendo que tudo está normal nos filmes posteriores. Isto sem contar a conveniência absurda de o personagem Mercúrio aparecer no exato momento da explosão. E, na conveniência absoluta de, no minuto seguinte, eles todos no jardim se recuperando, William Stryker aparecer.
É como se, antes de cada novo filme, brincassem de “verdade ou consequência” para escrever o roteiro — e escolhessem sempre a consequência.
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