X-MEN: O FILME (2000) - FILM REVIEW
Eu adoro fazer saga review, porque esse tipo de revisita traz uma percepção muitas vezes diferente do filme que você assistiu, principalmente quando já se passou um bom tempo. E os X-Men são exatamente esse tipo de caso. São filmes que foram distribuídos ao longo de muitos anos. Tivemos os primeiros filmes lá no começo dos anos 2000, depois veio Primeira Classe, continuações, e, aos poucos, tudo foi se conectando. No meio disso, surgiram os filmes solo do Wolverine, produções mais isoladas como Fênix Negra e Novos Mutantes e, mais recentemente, Deadpool & Wolverine.
Ou seja, é uma franquia longa, fragmentada e cheia de momentos díspares entre si — o que faz dela uma saga review particularmente intrigante. O primeiro X-Men, por exemplo, sempre me pareceu um filme meio datado, apesar da importância histórica que ele tem. Já X-Men 2 é, para mim, basicamente o primeiro grande filme de super-equipe do cinema — essa é a impressão que eu tenho antes mesmo de revê-lo.
X-Men 3 é um caso curioso, porque eu tenho um sentimento bem dúbio em relação a ele. Sobre Wolverine: Origens, eu lembro de ter visto até uma versão preliminar, sem os efeitos finalizados — uma espécie de versão de trabalho — e, naquela época, achei o filme até interessante. Mas depois, vendo a versão oficial, com as mudanças e edições, acabei achando o resultado final bem fraco.
Por outro lado, X-Men: Primeira Classe sempre me pareceu sensacional. Eu realmente considero um dos melhores filmes de heróis já feitos. Já Novos Mutantes, para mim, está no extremo oposto — um dos piores filmes de super-herói que já vi. Fênix Negra também entra nessa categoria. Ou seja, são sentimentos muito extremos: o melhor disso, o pior daquilo, a melhor continuação, o filme mais problemático. Os X-Men têm um peso relevante dentro do universo das franquias justamente por causa dessas variações tão grandes de qualidade.
E agora, com os mutantes sendo incluídos em Vingadores: Doomsday, parece o momento perfeito para revisitar tudo isso. Então a ideia é fazer uma saga review completa de todos os filmes dos X-Men — começando, obviamente, pelo primeiro X-Men.
🔷X-Men: O Filme (2000)
O filme X-Men, baseado nos quadrinhos da Marvel Comics, apresenta um mundo em que mutantes — indivíduos com habilidades especiais resultantes de alterações genéticas — vivem à margem da sociedade, enfrentando medo e preconceito por parte dos humanos. Nesse contexto, a narrativa se estrutura em torno do embate ideológico entre Professor X, que acredita na convivência pacífica entre humanos e mutantes, e Magneto, que enxerga pessoas como uma ameaça inevitável e defende a superioridade mutante como forma de sobrevivência.
A história acompanha especialmente Wolverine, um mutante com habilidades regenerativas e garras metálicas que sofre de amnésia, e Vampira, uma jovem que não consegue tocar outras pessoas sem absorver seus poderes e memórias. Após se encontrarem, ambos acabam sendo acolhidos na escola do Professor Xavier, um refúgio para mutantes, onde também atuam heróis como Tempestade e Ciclope, que ajudam a proteger tanto mutantes quanto humanos.
Enquanto isso, Magneto, com o auxílio de aliados como Mística, elabora um plano radical: usar uma máquina capaz de transformar líderes mundiais em mutantes, acreditando que isso eliminaria o preconceito. No entanto, o processo é instável e pode ser fatal, o que transforma sua proposta em uma ameaça global. Para executar seu plano, ele precisa da energia vital de Vampira, tornando-a alvo central do conflito.
X-Men abre de maneira fenomenal, com alguns dos personagens mais importantes sendo introduzidos. Já em sua primeira sequência, conhecemos o jovem que se tornará Magneto, reagindo à prisão de sua mãe durante a Segunda Guerra, em um campo de concentração. Na sequência, vemos a Vampira descobrindo seu poder ao sugar a força vital do namorado, Jean Grey, em um congresso. Há um easter egg visual que antecipa a Fênix Negra, Charles Xavier reencontrando Magneto nos bastidores do mesmo congresso, Logan ganhando a vida em lutas... Cada peça fundamental sendo exposta e, aos poucos, se encaixando, fazendo parte de algo maior.
Os bastidores de X-Men foram marcados por um desenvolvimento longo, instável e repleto de tentativas fracassadas antes de finalmente chegar às telas. A ideia de adaptar os mutantes da Marvel Comics para o cinema remonta à década de 1980, quando os roteiristas Gerry Conway e Roy Thomas chegaram a escrever um primeiro roteiro enquanto a Orion Pictures detinha os direitos. No entanto, dificuldades financeiras do estúdio impediram qualquer avanço concreto. Anos depois, entre 1989 e 1990, novas negociações surgiram envolvendo Stan Lee e Chris Claremont com a Carolco Pictures, com a possibilidade de James Cameron produzir e Kathryn Bigelow dirigir o projeto. Nessa fase, ideias curiosas chegaram a ser consideradas, como Bob Hoskins interpretando Wolverine e Angela Bassett como Tempestade, mas o projeto colapsou quando Cameron voltou sua atenção para um filme do Homem-Aranha e a Carolco entrou em falência.
A situação só começou a mudar em 1994, quando a 20th Century Fox adquiriu os direitos cinematográficos, motivada pelo sucesso da série animada dos X-Men. A produtora Lauren Shuler Donner liderou o projeto e contratou Andrew Kevin Walker para desenvolver um roteiro inicial. Essa primeira versão apresentava uma abordagem muito mais expansiva, com a equipe original incluindo Ciclope, Jean Grey, Fera e Anjo, além da presença de vilões como Juggernaut e Blob, e até mesmo o uso dos Sentinelas. O enredo girava em torno de conflitos internos, especialmente entre Wolverine e Ciclope, além de explorar inseguranças de liderança. Apesar da ambição, o roteiro foi considerado caro e complexo demais.
Diversas reescritas se seguiram. Laeta Kalogridis propôs versões que incluíam desde Magneto transformando Manhattan em uma nação mutante até um romance entre Wolverine e Tempestade. Michael Chabon também apresentou um tratamento focado no desenvolvimento de personagens, especialmente na relação entre Wolverine e Jubileu, sugerindo que os vilões fossem introduzidos apenas em uma sequência. Nenhuma dessas ideias foi plenamente adotada, refletindo a dificuldade do estúdio em encontrar o tom ideal.
A escolha do diretor também passou por várias possibilidades. Nomes como Robert Rodriguez, Paul W. S. Anderson e Brett Ratner foram considerados, mas recusaram ou não avançaram. Após o impacto de The Usual Suspects, Bryan Singer assumiu o projeto, inicialmente com hesitação em trabalhar com material de quadrinhos. Sua decisão mudou ao enxergar a narrativa como uma alegoria poderosa sobre preconceito, exclusão e identidade. Singer desenvolveu a dinâmica entre Professor Xavier e Magneto inspirando-se diretamente nas figuras de Martin Luther King Jr. e Malcolm X, reforçando o subtexto político da história.
O roteiro continuou passando por ajustes mesmo após Singer assumir. Ed Solomon trabalhou em versões adicionais, seguido por contribuições de John Logan e James Schamus, este último focado em aprofundar os personagens. Joss Whedon chegou a reescrever o terceiro ato, incluindo a Sala de Perigo e uma insinuação da Fênix, mas seu trabalho foi praticamente descartado por não se alinhar ao tom desejado. O roteiro final acabou sendo creditado a David Hayter, que manteve diversos elementos fundamentais dos quadrinhos e resistiu a mudanças impostas pelo estúdio, como transformar Wolverine em americano.
O processo de escalação foi igualmente conturbado. O papel de Wolverine teve uma longa lista de candidatos: Glenn Danzig recusou o convite, Russell Crowe foi a primeira escolha de Singer, mas declinou, sugerindo Hugh Jackman, enquanto Viggo Mortensen hesitou devido ao compromisso com múltiplos filmes. Dougray Scott chegou a ser oficialmente escalado, mas teve que abandonar o papel por conflitos com Mission: Impossible 2 e um acidente, levando à entrada tardia de Jackman, que acabou se tornando um dos maiores acertos do filme.
Outras escolhas de elenco também passaram por recusas e mudanças. Janet Jackson não pôde interpretar Tempestade devido à agenda, Charlize Theron recusou Jean Grey, e Rachael Leigh Cook abriu mão do papel de Vampira, que acabou ficando com Anna Paquin. Enquanto isso, Patrick Stewart e Ian McKellen foram escolhas mais diretas e fundamentais para o peso dramático do filme, com McKellen particularmente atraído pela metáfora social dos mutantes.
As filmagens ocorreram entre setembro de 1999 e março de 2000 no Canadá, especialmente em Toronto, sob forte pressão de tempo. O estúdio antecipou o lançamento para preencher uma lacuna no calendário, obrigando a equipe a trabalhar em ritmo acelerado, com pós-produção acontecendo simultaneamente às filmagens. Esse contexto contribuiu para um ambiente de tensão, agravado pelo comportamento de Bryan Singer, que enfrentou acusações de atrasos frequentes, mudanças bruscas de humor e conflitos no set. Produtores como Kevin Feige foram enviados para monitorar a produção e garantir que o cronograma fosse cumprido.
No campo visual, uma das decisões mais marcantes foi abandonar os trajes coloridos dos quadrinhos em favor de uniformes pretos de couro, inspirados pelo estilo de The Matrix. A escolha buscava maior realismo e aceitação do público, ainda que tenha gerado críticas. Nos efeitos práticos, a caracterização de Mística exigiu um esforço extremo de Rebecca Romijn, que passava horas sendo coberta por dezenas de próteses de silicone, enquanto as garras de Wolverine foram projetadas com materiais leves por segurança. Já os efeitos digitais refletiam uma indústria em transição, com cenas complexas exigindo longos tempos de renderização e múltiplas camadas visuais.
Apesar de todos os obstáculos, o resultado final de X-Men redefiniu o gênero de super-heróis no cinema, adotando um tom mais sério e temático, centrado na metáfora dos mutantes como representação de minorias marginalizadas. O filme não apenas abriu caminho para futuras adaptações da Marvel, como também estabeleceu uma nova abordagem narrativa que influenciaria o gênero nas décadas seguintes.
E meu veredito, 26 anos depois, é que o filme envelheceu maravilhosamente bem. Elenco quase todo brilhante (só a Halle Berry que jamais entendi por que é tão patética no filme e o Dente de Sabre de Tyler Mane, que parece estúpido todo o tempo, como aqueles estereótipos clichês de filmes adolescentes, mas todos em um só). A direção é ótima, como esperado de Singer na época, bem como os efeitos e a dinâmica dos personagens, com relacionamentos e rixas surgindo naturalmente.
Com um orçamento em torno de 150 milhões de dólares e a bilheteria de 296, o filme jogou luz no supergrupo, em uma época em que filme de herói bom era raro e ainda não havia se tornado necessidade. No fim, X-Men não só se sustenta como obra, mas também se impõe como um marco discreto, daqueles que, sem fazer alarde, ajudaram a pavimentar o caminho para tudo o que o gênero viria a se tornar depois.

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